A indústria nos faz sentir culpa: inimigos da nossa vontade

05 Maio, 2020
A indústria pensa em como manipular nossa vontade para não pararmos de consumir. Isso gera uma culpa que continua a aumentar o consumo em sua forma mais instintiva.
 

O ser humano como espécie, as pessoas em sua evolução, tiveram que enfrentar desafios cada vez mais sofisticados, em alta velocidade, sem que a biologia pudesse acompanhar esse ritmo. Assim, com corpos projetados para caçar e nos proteger de condições complicadas, hoje enfrentamos desafios tecnológicos. A seguir, falaremos a respeito de como a indústria nos faz sentir culpa.

Para fazer isso, tomaremos como referência o magnífico livro O Inimigo Conhece o Sistema, de Marta Peirano. Nele, a jornalista analisa como o conhecimento sobre o funcionamento da nossa mente nos torna vulneráveis aos interesses de certas empresas quando se trata de motivar o consumo.

As peças do quebra-cabeça da mente humana

A indústria nos faz sentir culpa

Hoje sabemos, por exemplo, que uma música alegre nos influencia a comprar mais rápido. Que uma música tranquila nos incentiva a ficar mais tempo em um lugar. O que se ouve nas grandes lojas de departamento? Que música toca em uma loja de itens muito caros? Depois que chegamos em casa, como podemos nos sentir depois de comprar tantos itens desnecessários ou gastar tanto dinheiro? Sim, a indústria nos faz sentir culpados.

 

Também nos sentimos culpados quando não conseguimos parar de comer a chamada junk food. Quando nos propomos repetidamente a melhorar a nossa dieta e “falhamos”. Você já parou para pensar em como esse tipo de alimento é projetado?

Nas palavras de Marta, “preferimos pensar que somos grandes glutões sem um grama de disciplina, do que acreditar que uma das indústrias mais poderosas e tóxicas do planeta mantém equipes de gênios extraordinariamente motivados com salários exorbitantes, além de laboratórios com a tecnologia mais recente, cujo único objetivo é nos manipular sem que percebamos”.

Ou seja, há muitas pessoas e tecnologias trabalhando para manipular nossa vontade. Então, eu te pergunto, alguma vez você já parou para pensar no poder que enfrenta?

Toda uma indústria que vende comida barata e muito pouco saciante por seu baixo valor nutricional. Isso produz um paradoxo: existem pessoas obesas e ao mesmo tempo mal nutridas, porque a quantidade tem pouco ou nada a ver com a qualidade.

Esses alimentos são pensados para as pessoas que fazem do ato de selecionar o que comem um ato impulsivo, devido à falta de tempo e de energia cognitiva, e às muitas pressões que precisam suportar. Por outro lado, diante da preocupação com a dieta que cresce na sociedade, muitas das receitas antigas estão se disfarçando de saudáveis.

Assim, podemos ver em suas embalagens pessoas praticando esportes ou frases para chamar a atenção e indicar o que o produto não possui, esquecendo o que ele possui. É assim que a indústria nos faz sentir culpa.

 

Algumas indústrias tentaram reduzir o nível de açúcar em seus alimentos; no entanto, o que viram em suas estatísticas é que as vendas caíram. Como bem diz Marta, “é mais fácil gerar um vício do que acabar com ele”.

Infelizmente, este é um ciclo em que entramos desde que somos pequenos. “Meu primeiro cereal”, “Minha primeira sopinha”, itens “saudáveis” ​​que possuem ingredientes potencialmente viciantes e pouco ou nada saudáveis.

Vida saudável

O consumo na rede

De uma forma ou de outra, a indústria quer que não paremos de consumir. O que está na moda agora? Plataformas sob demanda com muitas séries que possuem várias temporadas.

O cinema, formato limitado no tempo, com incomuns segunda e terceira partes, foi substituído por uma plataforma que nos serve um capítulo após o outro sem interrupções e a um “preço acessível”.

A indústria nos faz sentir culpa. Afinal, que emoção prevalece depois de passar uma tarde inteira em frente à TV com a agenda cheia de coisas pendentes? O curativo são as redes sociais. Antes desbloqueávamos o celular sem perceber para olhar a hora, ou pelo menos assim justificávamos, porque no segundo seguinte não tínhamos ideia de que horas eram.

 

Agora o automatismo são as redes sociais. Sites de “rolagem” infinita que nos oferecem uma aparência personalizada para nos prender. Você pode ir, por exemplo, ao seu mural do Facebook e descer e descer e descer e continuar descendo, e continuarão aparecendo histórias compartilhadas de seus conhecidos ou vídeos de filhotes ou de comidas que parecem ótimas. O fato é que, para sair disso, você precisa recuperar o controle da sua atenção.

Esta é uma tarefa complicada, porque aqueles que criaram a plataforma o fizeram para que você fique lá, em seu lugar virtual, o maior tempo possível. Pessoas que não são idiotas e que têm todo o conhecimento que temos hoje a respeito de como a nossa mente funciona. Um conhecimento que não hesitam em explorar.

Assim, a indústria nos faz sentir culpados. Muito culpados. Porque quando estamos tristes tomamos sorvete e nos abandonamos. Porque quando o desespero aparece, em muitos casos derivado da nossa própria culpa, somos ainda mais instintivos. E assim, tanto na realidade quanto no cinema, o protagonista acaba tomando sorvete na frente da televisão.