O que são os vícios comportamentais?

setembro 29, 2019
Embora não envolvam substâncias, os vícios comportamentais são consideravelmente perigosos e prejudiciais. Neste artigo falaremos sobre os que têm uma maior incidência.

Os vícios comportamentais são os vícios não relacionados a substâncias ou drogas. As pessoas que os padecem apresentam uma deterioração considerável em todas os âmbitos de suas vidas, especialmente no familiar, no financeiro e no profissional.

Embora tenham certas nuances, são muito semelhantes em características e consequências à dependência de drogas.

Segundo o estudo de José de Sola Gutiérrez (2014), os critérios comuns entre ambos podem ser resumidos como:

  • Capacidade de se envolver em comportamentos que resultam em consequências reforçadoras.
  • Preocupação excessiva com consumo ou comportamentos que relatam um reforço positivo.
  • Tolerância ou nível de saciedade temporal.
  • Perda de controle, na qual a frequência do comportamento aumenta, tornando-se cada vez mais automática.
  • Dificuldade em interromper ou evitar o comportamento, apesar da existência de sérias consequências negativas.

Assim, o viciado entra em um ciclo de “consumo/comportamento – abstinência – desejo”, no qual a droga ou o comportamento viciante se situa no centro de sua vida. Praticamente todos os comportamentos que ele realiza são voltados para a busca e o consumo.

Diferença entre vícios em substâncias e vícios comportamentais

Diferenças entre vícios em substâncias e vícios comportamentais

Como mencionado anteriormente, os dois tipos compartilham muitas características. Tanto o vício químico quanto o comportamental causam dependência, síndrome de abstinência e tolerância.

No entanto, devemos levar em consideração as principais diferenças na hora de escolher um tratamento.

A primeira diferença está na síndrome de abstinência. No vício em drogas, a natureza fisiológica da substância faz com que, uma vez consumida, a abstinência desapareça. Isso não acontece com os vícios comportamentais, ou seja, a abstinência não desaparece ainda que se realize o comportamento viciante.

A segunda diferença tem relação com a comorbidade entre substâncias ou fontes de dependência.

Na toxicodependência, é muito comum a politoxicomania (consumo de vários tipos de drogas). Nos vícios sem substâncias, não é comum haver vários vícios (por exemplo, jogo patológico e vício em trabalho).

Vícios comportamentais mais comuns

Jogo patológico

Antes conhecido como ludopatia, é definido como o comportamento de jogo desadaptativo, persistente e recorrente. A pessoa começa a jogar gradualmente, aumentando a quantidade e a frequência pouco a pouco.

Entre as perdas financeiras que o vício envolve, a pessoa vai se endividando e acumulando problemas econômicos, profissionais, familiares e até jurídicos. Finalmente, muitas vezes são os próprios familiares ou as pessoas mais próximas que as forçam a buscar tratamento.

Sobre essa tipologia, pode-se dizer que as novas tecnologias facilitam cada vez mais o início e a manutenção do comportamento de jogo. As salas de jogos na internet e as apostas online aumentaram o número de casos e dificultaram o tratamento.

Compras compulsivas

Também chamado de oniomania, esse vício é caracterizado pela compra compulsiva e impulsiva de produtos sem motivo ou necessidade.

Geralmente não são produtos caros, mas múltiplas compras pequenas que acabam com a economia da pessoa. É característico dos países industrializados e agravado pelo pagamento com cartão de crédito, já que com ele não se percebe fisicamente o dinheiro que se gasta.

Vício em trabalho

Normalmente, esse vício é medido pela quantidade de horas que a pessoa dedica ao trabalho sem que exista uma necessidade financeira ou de outra natureza.

A prioridade número um é o emprego, que é colocado antes das outras áreas da vida. Esta, inclusive, pode chegar a ser colocada em risco pelo viciado.

O viciado em trabalho não tira férias ou dias de folga, e quando não está no trabalho, apresenta os sintomas típicos de abstinência. Como no caso anterior, o vício em trabalho também costuma ser característico dos países industrializados.

Vício em sexo

Trata-se de um vício controverso, pois é necessário estabelecer uma separação entre vício e comportamento. Passa a ter vício em sexo a pessoa que cumpre os requisitos mencionados na primeira parte do artigo.

Cabe ressaltar que esse vício implica um sofrimento para a pessoa, pois realizar o comportamento não alivia seu desejo, mas a leva a agir novamente.

Vício em telas: videogames, televisão, redes sociais, etc.

Pertencente aos chamados “novos vícios”essa tipologia apresenta uma alta prevalência entre jovens e menores de idade.

Durante muito tempo foi discutida sua inclusão nos vícios comportamentais, embora sua participação nesse grupo tenha sido finalmente demonstrada. O vício em telas inclui o uso excessivo de:

  • Videogames
  • Televisão
  • Redes sociais
  • Internet
  • Computador
  • Celular
O papel da indústria de bens de consumo nos vícios

O papel da indústria de bens de consumo nos vícios comportamentais

Desde os seus primórdios, os vícios comportamentais demoraram muito para serem reconhecidos como vícios de fato. Atualmente, discernir entre o que é ou não um vício ainda gera controvérsia.

Isso gera um “vazio moral” na sociedade, que parece não estar ciente do problema representado pelos vícios sem substâncias, responsáveis por tanto sofrimento.

Além disso, há uma grande facilidade para realizar esses comportamentos: fazer compras, apostar em uma máquina caça-níquel em um bar, abrir o Instagram, ligar a TV

É preciso destacar também a indústria de bens consumo. Por meio de campanhas publicitárias incessantes, ela incentiva o indivíduo a realizar essas ações, a princípio inofensivas, mas que podem dificultar muito o tratamento.

Existem, por lei, publicidades que advertem sobre os efeitos negativos do consumo de álcool e tabaco. Além disso, medicamentos e até alguns alimentos processados ​​também vêm com recomendações sobre seu consumo.

Talvez, como primeiro passo, essa seja uma solução para tentar impedir o aparecimento de alguns tipos de vícios comportamentais.

  • Brezing, C., Derevensky, J. L. y Potenza, M. N. (2010). Non-substance-addictive behaviors in youth: pathological gambling and problematic internet use. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America, 19, 625-641.
  • Carbonell, X. (2014). La adicción a los videojuegos en el DSM-5. Adicciones, 26, 91-95.