A pessoa altamente sensível em uma família emocionalmente negligente

março 1, 2019
A família emocionalmente negligente entende que a criança altamente sensível é menos apta para o mundo. Ela vê a sua sensibilidade como um tipo de fragilidade e a pune por isso. Os efeitos desse tipo de criação e educação são imensos.

Você é exagerada, uma chorona, está sempre nas nuvens… Às vezes a pessoa altamente sensível é obrigada a crescer em uma família emocionalmente negligente. Muitas vezes nem os pais e nem os irmãos compartilham esse traço de personalidade. Nesses casos, isso implica ser aquela figura incompreendida, aquele alvo fácil das provocações e críticas.

As emoções são, sem dúvida, o primeiro idioma da pessoa altamente sensível. No entanto, o fato de nascer e crescer em um ambiente desprovido ou pouco hábil nesse tipo de linguagem significa experimentar uma primeira forma de abandono. E não é só isso. Não sentir essa validação emocional faz com que, de alguma forma, as crianças passem a acreditar que há algo de negativo nelas.

Carl Jung descreveu a personalidade altamente sensível como alguém que processa a sua realidade de uma maneira diferente, graças a uma sensibilidade inata e muito particular. Portanto, não há nada de negativo nesses 20% da população.

Além disso, estudos realizados na University of British Columbia e na Cornell University explicam que os seus cérebros são um pouco diferentes do que os da maioria das pessoas.

A alta sensibilidade é uma variação genética

A pessoa com alta sensibilidade tem uma variação genética chamada ADRA2b. Essa particularidade influencia um tipo muito específico de neurotransmissor: norepinefrina. Isso faz com que, por exemplo, elas tenham um sistema nervoso mais sensível, assim como a empatia e a sua capacidade de se conectar e reagir a qualquer estímulo.

Bom, até agora não há estudos que demonstrem que esse traço de personalidade seja hereditário. O que podemos perceber é que muitas crianças se sentem incompreendidas desde muito cedo. Existem poucas famílias que sabem atender, nutrir e responder a essa linguagem claramente emocional falada por esses pequenos.

Outras, por outro lado, mostram um comportamento claramente negligente nesse aspecto, que em muitos casos provoca marcas profundas na infância.

“A sua sensibilidade não é algo a temer.”
-Elaine N. Aron-

Menino dentro de árvore

A família emocionalmente negligente e seus efeitos sobre a pessoa altamente sensível

A família emocionalmente negligente não está ciente das necessidades dos seus filhos. Além disso, ignora-os intencionalmente, os questiona e até os pune. Esse tipo de experiência tem o mesmo efeito das ondas de um oceano feroz quando atingem uma costa. O oceano a transforma pouco a pouco, produz rachaduras, cavidades profundas nas rochas e impede até mesmo que a flora nativa cresça.

As crianças altamente sensíveis sofrem exatamente isso. Não lhe permitem entender, nem validar, nem aprimorar as suas maravilhosas qualidades. Desde os primeiros anos, assumirá que o mundo, muito barulhento, agressivo e frio, é um cenário do qual precisa se proteger. Ela procurará desde muito cedo um pequeno espaço em seu interior onde se refugiar, onde ficar invisível, para manter suas emoções sob controle e não serem punidas.

A família emocionalmente negligente não sabe que descuidar das necessidades das crianças altamente sensíveis também é uma forma de abuso. Assim, e de acordo com a Dra. Jonice Webb, especialista nesse assunto, muitos pais veem esses pequenos traços como algo que deve ser corrigido. Para eles, a sensibilidade é uma espécie de fraqueza, portanto, não hesitam em punir, repreender ou comparar com irmãos ou outras crianças. Na sua opinião, são mais adequados para o mundo: choram menos, não sonham acordados e são mais fortes.

Portanto, é necessário entender alguns aspectos-chave sobre as crianças altamente sensíveis e sua educação.

A alta sensibilidade é um traço genético, não pode ser alterado

A pessoa nasce ou não altamente sensível. Como detalhamos no início, a alta sensibilidade é o resultado de uma pequena alteração em um gene. Essa nuance faz, por exemplo, com que essas pessoas sejam mais sensíveis à dor, aos estímulos visuais e auditivos. Determinados tipos de roupas podem causar mais desconforto, assim como os sons da televisão, de uma sala onde muitas pessoas falam ao mesmo tempo.

Nada disso pode ser alterado. Sancionar a personalidade, o modo de sentir ou se emocionar de uma criança é infligir-lhe um dano imperdoável.

Menino de costas no campo

A sensibilidade não é uma fraqueza

As famílias emocionalmente negligentes mandam uma mensagem clara para os seus filhos: você é diferente e há algo negativo em você que deve ser corrigido. Algo assim é como nascer amante da pintura ou da música e alguém nos dizer que esse tipo de arte é detestável. Além disso, esses pais pode impedi-los de ter acesso às pinturas, a um instrumento musical e até à própria música.

A alta sensibilidade não é uma fraqueza, mas um dom para entender e usar a nosso favor. As emoções, a maneira como cada pessoa entende e se relaciona com o seu ambiente não pode ser vetada ou sancionada. Os efeitos desse tipo de comportamento são, sem dúvida, enormes:

  • Baixa autoestima.
  • Problemas para estabelecer relacionamentos.
  • Retraimento social (introversão).
  • Maior vulnerabilidade ao bullying.
  • Problemas para aceitar a própria identidade e para o desenvolvimento de uma personalidade segura e madura…

Como superar os efeitos de uma família emocionalmente negligente?

É possível superar os efeitos de uma família emocionalmente negligente? De certa forma, a pessoa altamente sensível é forçada em algum momento de sua vida a assumir certas coisas.

A alta sensibilidade é uma realidade inegável: não há nada de ruim ou punível. Sentir o mundo de uma maneira diferente é um dom.

No entanto, essa virtude é como olhar a realidade através de um pedaço de vidro colocado diante do sol. As luzes e os flashes são maravilhosos, fascinantes, mas o efeito dessa luz sempre dói.

Olho iluminado

É preciso aprender a se mover em um ambiente que nem sempre está a favor da pessoa altamente sensível. Algo assim implica ser muito corajoso: desaprender para aprender de novo. Cortar os padrões familiares, desativar os códigos que nos impuseram para nos reformularmos em liberdade.

Conclusão

No seu interior não há fraqueza ou fragilidade. Há grandeza e potencial, com os quais você deve aprender a lidar. O fortalecimento da autoestima, a autoaceitação e o bom manejo das emoções são, sem dúvida, as melhores ferramentas.

Além disso, também é vital aceitar que a maioria das pessoas não vê muitas “cores” em sua realidade como faz o olhar altamente sensível. Portanto, não há necessidade de se lamentar.

O fato de você não sentir o mundo como eu não significa que você o sinta menos. A nossa realidade tem tantos tons quanto maneiras de apreciá-los.

Dessa forma, o mais importante é ser capaz de respeitar e entender o outro sem danificar a magia que todo mundo carrega dentro de si.

  • Aron, Elaine (2017). El don de la alta sensibilidad. Madrid: Obelisco
  • Sohst, Katrin (2017). El poder de la sensibilidad: cómo identificar a las personas altamente sensibles y qué podemos aprender de ellas. Ariel