A raiva, aquela velha conhecida

· fevereiro 20, 2019
Embora nossa tendência seja procurar culpados quando algo nos incomoda, ficar com raiva ou não depende de nós. A raiva é uma emoção que reside dentro de nós.

A raiva é aquela velha amiga conhecida por todos, capaz de nos transformar em questão de segundos… Por isso, encará-la não é tão simples. Algumas pessoas a expressam como a sentem, outras a reprimem ou a camuflam com palavras bonitas, ​​e há até quem a transforme em outro tipo de emoção mais agradável… A raiva é uma emoção complexa que requer uma profunda revisão e reflexão interior.

Quantos de nós já nos surpreendemos levantando a voz ou quantas vezes alguém reagiu de forma excessiva por algo que considerávamos bobagem? Afinal, o que está por trás da raiva?

Tenho escutado por anos amigos e conhecidos defenderem que expressar a raiva é positivo, que devemos liberar tudo que sentimos para ficarmos mais calmos. Mas isso é verdade? Devemos falar para outra pessoa a primeira coisa que nos vem à mente de qualquer jeito? Para conhecer melhor essa emoção, vamos analisá-la minuciosamente, porque nem tudo é como parece.

O que é a raiva?

Geralmente, sentimos raiva quando consideramos que alguém provocou uma ofensa à nossa identidade pessoal de forma intencional. Isso nos dá a impressão de sofrer uma humilhação. Assim, não se trata apenas de não ter conseguido algo que havíamos proposto, mas requer a conotação de ter sofrido um insulto ou injúria, ou pelo menos sentir isso.

Também podemos sentir raiva quando observamos injustiças sociais. Se andarmos pela rua e testemunharmos o abuso psicológico de um pai ou mãe com o filho, podemos sentir raiva ou muita indignação.

“Qualquer um pode ficar com raiva – isso é fácil, mas ficar com raiva da pessoa certa, no nível certo, no ponto e no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa – isso não está dentro do poder de todos e não é fácil”.
-Aristóteles-

Casal discutindo com raiva

Muitos de vocês devem estar pensando: “Eu conheço pessoas que sentem muita raiva quando a impressora falha”. Neste caso, curiosamente, há também um processo de humilhação. Por que isso? Há pessoas tão negativas que interpretam grande parte do que acontece em suas vidas como um ataque, venha de onde vier. Se a impressora não funcionar, seu pensamento pode ser algo como “a vida está rindo de mim, e agora mostra isso fazendo a impressora falhar”.

Dessa forma, percebemos que não precisamos de um agente físico e externo que nos submeta à humilhação, mas que basta interpretar a intencionalidade de algo estranho a nós para nos enfurecermos. Este aspecto é especialmente importante porque nos faz focar em nós mesmos. Os outros nos incomodam ou nós mesmos nos incomodamos?

Raiva e ego

Quando reagimos com raiva, de alguma forma tentamos proteger ou aumentar nossa autoestima. Assim, quando sentimos que nosso ego está ameaçado, nossa resposta pode ser de raiva diante da situação.

Se reagimos com raiva quando alguém buzina no trânsito, geralmente interpretamos que está nos recriminando por algo errado em nossa condução. Dessa maneira, sentimos nossa identidade ameaçada por pensar que nossos modos de ser e agir estão errados.

Aristóteles, filósofo grego, defendia que “é uma covardia, digna apenas de um escravo, sofrer um insulto e deixar que impunemente sejam atacadas as pessoas de seu afeto”. A partir dessa afirmação, uma justificativa bastante simples para liberar a raiva é revelada. Vale a pena reagir de maneira irada diante de um insulto? Às vezes investimos muita energia em tarefas que não requerem o mínimo esforço.

Em uma certa ocasião, os discípulos de Buda se aproximaram dele e, preocupados, perguntaram: “Mestre, não importa aonde vamos, os outros riem de nós e nos insultam, como é possível que isso não o afete em nada?” Diante disso, Buda respondeu: “O insulto pode sair deles, mas nunca chega a mim”.

Este valioso ensinamento de Buda se opõe ao argumento aristotélico da covardia. O primeiro implica sofrimento, o segundo implica paz e serenidade; com qual você fica?

Raiva e ação

Ao sentir nossa identidade pessoal atacada, experimentamos uma ativação fisiológica acompanhada pela tendência a atacar quem consideramos responsável pelos danos. Esse ataque pode ser tanto físico quanto verbal. A resposta dependerá do nosso grau de controle e interpretação da situação.

Em outras ocasiões, quando a pessoa que sentimos ter nos ofendido é nosso chefe, a forma de expressar a raiva pode ser um menor desempenho no trabalho. Sabemos que, se reagirmos agressivamente, as consequências poderão ser piores, como a demissão. Assim, em situações em que podemos colocar em perigo algum aspecto de nossas vidas, optamos por tomar ações mais indiretas.

Uma vez que tenhamos descarregado toda a nossa raiva sobre alguém, uma emoção que geralmente aparece é a culpa. Quando reconsideramos a situação, em muitas ocasiões nos sentimos culpados porque percebemos que nos excedemos. Desta forma, a culpa age para nos fazer reconsiderar se nossa reação foi a mais adequada.

Finalmente, iremos mencionar aquelas pessoas que sempre parecem estar com raiva. Nesse caso, poderíamos estar falando sobre um traço das mesmas, ou seja, quando isso se torna um modo de vida. Seus padrões mentais se configuram de tal forma que só sabem reagir assim.

Homem com raiva socando a parede

Como lidar com a raiva

Não há nada melhor para começar a acalmar a raiva do que fazer algumas respirações diafragmáticas. Enquanto isso, podemos refletir se aquela pessoa que consideramos culpada pelo nosso estado realmente tinha intenção de nos ofender.

Em muitas ocasiões, reagimos porque estamos saturados de exigências, porque tivemos um dia ruim e qualquer coisa nos ativa emocionalmente. Portanto, entender ou pelo menos considerar a possibilidade de que os outros também podem ter esses dias ruins nos ajudará a entender seu modo de reagir e a não levá-los tão a sério.

Se nosso chefe fala mal de algo que fizemos, ele pode ter falado da mesma forma com outro funcionário. Então, não devemos tomar a crítica como algo pessoal, mas como uma maneira de reagir da outra pessoa que nos pegou pelo caminho.

Embora pareça que os outros têm controle sobre nossos estados emocionais, o poder sobre a raiva está em nossas mãos. Nós decidimos se ficamos ou não com raiva. Deixar algo tão valioso quanto a felicidade nas mãos de outra pessoa é, sem dúvida, um preço muito alto.

Finalmente, convido-lhe a se ver como agente ativo diante de um insulto, e não como uma pessoa passiva que simplesmente reage. O poder está em suas mãos.