O que acontece com o cérebro antes da morte?

setembro 14, 2019
São muitas as pesquisas que tentaram lançar luz sobre esse assunto. No entanto, somente em 2018 começamos a entender o que acontece com o nosso cérebro quando morremos.

Um dos grandes mistérios da humanidade é saber o que acontece com o cérebro antes da morte. Embora cientistas do mundo todo tenham tentado encontrar a resposta, as conclusões sobre o que acontece com o nosso cérebro quando morremos ainda não são claras.

Em 2018, cientistas da Universidade Charité, em Berlim (Alemanha) e da Universidade de Cincinnati (Ohio, EUA), tentaram encontrar a resposta para essa pergunta. Eles o fizeram tentando descobrir o que acontece com o cérebro quando sua energia se esgota e ele deixa de receber sangue.

Eles fizeram registros com tiras de eletrodos em pacientes que haviam sofrido algum tipo de lesão cerebral devastadora, como um acidente vascular cerebral.

Com isso, obtiveram resultados que não servem apenas para esclarecer os derrames, mas também para fornecer uma visão fundamental sobre a neurobiologia da morte.

O que acontece com o cérebro antes da morte?

A neurobiologia da morte

O cérebro é o órgão do corpo mais vulnerável à hipóxia e à isquemia. A hipoxia refere-se à ausência de oxigênio do sangue que o órgão específico recebe.

Enquanto isso, a isquemia é definida como a parada ou redução da circulação sanguínea pelas artérias de uma determinada área, o que provoca insuficiência celular devido à falta de oxigênio na parte do corpo afetada.

As células do cérebro que mostram uma maior vulnerabilidade à hipóxia e à isquemia são:

  • Neurônios piramidais neocorticais das camadas III, IV e V.
  • Neurônios piramidais CA1 do hipocampo.
  • Os neurônios do estriado.
  • Neurônios cerebelares de Purkinje.

Quando a circulação do sangue no cérebro é interrompida, em menos de dez minutos se desenvolve uma lesão irreversível nesses neurônios. Isso ocorre, por exemplo, após uma parada cardiorrespiratória.

O que acontece com o cérebro antes da morte?

Até o estudo liderado por Jens Dreier, contávamos apenas com suposições de estudos realizados com eletroencefalograma (EEG). Algumas das noções que foram levadas em consideração sobre esses estudos em seres humanos são:

  • A morte cerebral ocorre quando o EEG é silenciado.
  • Os neurônios do córtex cerebral podem permanecer polarizados por vários minutos enquanto o “silêncio elétrico” ocorre.

O experimento

O que os pesquisadores deste estudo fizeram foi analisar o que acontecia na fisiopatologia dos pacientes durante a hipoxia-isquemia abrupta ao serem retirados os tratamentos de suporte à vida.

Os pacientes foram submetidos ao neuromonitoramento com eletrodos intracranianos durante o tratamento intensivo. Eles haviam sofrido:

  • Uma hemorragia subaracnóide aneurismal (SAHH).
  • Um acidente vascular cerebral maligno hemisférico (MHS).
  • Uma lesão cerebral traumática.

O neuromonitoramento foi realizado durante o processo de morte após o cumprimento de uma ordem de não reanimação.

Conclusões sobre o cérebro antes da morte

Conclusões sobre o cérebro antes da morte

Em pacientes com lesão cerebral aguda, o experimento mostrou que os estados persistentes de silêncio elétrico no córtex são induzidos, em muitos casos, pela despolarização prolongada.

A despolarização prolongada é uma onda de despolarização quase completa das células neuronais e da glia acoplada a uma resposta de vasoconstrição e dilatação vascular. Ocorre em:

  • Enxaquecas com aura.
  • Hemorragia subaracnóideas.
  • Hemorragias intracerebrais.
  • Traumatismos cranioencefálicos.
  • AVCs isquêmicos.

Ocorre a produção de um padrão de propagação pelo qual a despolarização prolongada pode invadir o tecido. Aparentemente, essa despolarização é evidente apenas com o neuromonitoramento realizado a partir das técnicas de neuroimagem.

Em conclusão, os cientistas puderam determinar que o cérebro humano responde à isquemia cerebral aguda com um padrão patológico específicoDeterminados tipos de neurônios tentam impedir que o cérebro morra, criando desequilíbrios elétricos entre eles.

Quando o cérebro deixa de receber oxigênio através da interrupção da recepção de sangue, os neurônios tentam acumular os recursos restantes. Ocorre uma “depressão não dispersa” seguida da despolarização prolongada, também conhecida como “tsunami cerebral”.

Em resumo, a despolarização prolongada marca o início de alterações celulares tóxicas que levam à morte. No entanto, não se trata de um marcador de morte como tal, pois essa despolarização pode ser revertida.

Ainda há muito a investigar sobre isso, portanto, mais pesquisas serão necessárias no futuro.

  1. Dreier, J. P., Major, S., Foreman, B., Winkler, M. K., Kang, E. J., Milakara, D., … & Andaluz, N. (2018). Terminal spreading depolarization and electrical silence in death of human cerebral cortex. Annals of neurology, 83(2), 295-310.
  2. Ayad, M., Verity, M. A., & Rubinstein, E. H. (1994). Lidocaine delays cortical ischemic depolarization: relationship to electrophysiologic recovery and neuropathology. Journal of neurosurgical anesthesiology, 6(2), 98-110.
  3. Somjen, G. G. (2004). Irreversible hypoxic (ischemic) neuron injury. In Ions in the Brain (pp. 338-372). Oxford University Press, New York.