Adelfopoiesis: você sabe do que se trata?

· julho 6, 2018

O casamento homossexual como tal, em nossa sociedade, é uma possibilidade contemporânea. No entanto, não é tão recente assim se nos atentarmos aos exemplos presentes na história até os dias de hoje. Um desses exemplos é a adelfopoiesis, termo como eram conhecidos os casamentos legais entre pessoas do mesmo sexo na Idade Média. 

As relações entre pessoas do mesmo sexo ao longo da história não foram exceção. Embora seja verdade que o costume mais conhecido seja o da pederastia na antiga Grécia, quando professores e alunos mantinham relações que iam além do aprendizado educativo, em outras épocas da história houve casais do mesmo sexo em idade adulta, consolidados e aceitos socialmente.

Dizia GK Chesterton que “os arquitetos sabem tudo sobre o estilo romântico, exceto como construí-lo”. Parece que, em outros tempos, houve pessoas capazes de “arquitetar” relações íntimas entre pessoas do mesmo sexo e permitir que o romantismo imperasse, mesmo que não fosse a dinâmica mais comum nestes tipos de uniões.

Será que isso quer dizer que a homossexualidade e as relações entre pessoas do mesmo sexo sempre foram aceitas? Obviamente que não. Mesmo que conheçamos a adelfopoiesis e outros rituais similares na Roma antiga ou no Império Chinês, nunca foi algo habitual.

“Não procuro, de fato, entender para crer, e sim crer para entender. Então creio nisso, pois se não acreditasse, não entenderia.”
-San Anselmo de Canterbury-

Pintura de homens com rostos unidos

O que é a adelfopoiesis?

Como você pode imaginar, o objetivo principal da adelfopoiesis não era unir duas pessoas no sentido romântico da palavra. No entanto, tanto a nível religioso quanto legal, a relação entre dois homens (mais frequentemente) era reconhecida e, às vezes, também entre duas mulheres, com aceitação por parte da igreja.

Por esta razão, não era considerado um casamento em si, mas uma união que obrigava ambas as partes a cuidar uma da outra. Consequentemente, compartilhavam a vida, os bens, as tarefas, os trabalhos e até mesmo a família. E mais, se uma das partes morria, a outra se comprometia em continuar com os cuidados dos familiares da pessoa falecida.

Como num casamento convencional, as duas pessoas do mesmo sexo prometiam fidelidade até a morte. Entretanto, a prática permitia compartilhar quase tudo, inclusive serem enterrados juntos ao morrer, mas não permitia o amor romântico de forma explícita.

Porém, apesar de não se tratar de uma união romântica, e sim de uma espécie de ferramenta legal, parece que as relações sexuais não eram algo tão estranho nesse tipo de união. Embora não fosse algo contemplado pela adelfopoiesis, era aceita implicitamente, pois o casal podia ter uma união “plena” e “totalmente legalizada”.

Uma prática válida durante muitos anos

Embora a prática não tenha sido muito habitual, foi aceita social e legalmente durante quase toda a Idade Média e inclusive ao longo da Idade Moderna. No entanto, esta união era mais comum no Oriente, não tanto na Europa. Mesmo assim, sabe-se que a Igreja Católica a oferecia e, inclusive, são conhecidos casos de santos que se uniram a outras pessoas através desta prática, como aconteceu com Cosme e Damião. 

Por outro lado, não se sabe com muita certeza o motivo deste ritual ter sido abandonado. Considera-se que a atração romântica entre pessoas do mesmo sexo pode ter sido o motivo, já que realmente nunca foi bem vista.

Ou seja, era legalmente aceitável que duas pessoas do mesmo sexo se unissem para compartilhar a vida, sempre que não houvesse homossexualidade. No entanto, implicitamente, parece que as pessoas sabiam ou intuíam que algo mais acontecia nessas uniões.

Relações homossexuais na Idade Média

A precursora do casamento homossexual

Sem dúvidas, a adelfopoiesis foi vista durante muito tempo como uma antecedente do casamento homossexual. O antigo ritual era celebrado em igrejas, onde os familiares do casal se reuniam diante da cruz e implementavam diversas liturgias.

Existem autores, como J. Boswell, que defendem que a homossexualidade era aceita pela igreja até o século XIII. Por isso, interpretam esse ritual como um exemplo disso. Não podemos nos esquecer de que não há tanta diferença de tempo entre a alta Idade Média e a Idade Clássica. Portanto, não estamos falando de uma hipótese decadente.

“O amor nasce da lembrança, vive da inteligência e morre por esquecimento”.
-Ramón Llull-

Créditos da imagem: wwwww.medievalists.net