Afantasia: a mente cega ou viver sem imagens mentais

maio 15, 2020
Uma pequena parte da população vive sem saber o que é sonhar com imagens. Tampouco podem evocar em sua memória o rosto daquela pessoa que amam ou a casa onde cresceram. Afantasia ou mente cega é um tipo de déficit neurológico tão impressionante quanto curioso.

A afantasia afeta 3% da população, e aqueles que sofrem com ela não sabem o que é a imaginação visual. São pessoas que vivem em um vazio sem forma, em uma mente cega onde não há imagens, rostos ou cenários. Esses homens e mulheres não sabem o que é sonhar, nunca escaparam mentalmente para um cenário de paz onde acalmar o estresse ou se perder em universos paralelos nos quais as possibilidades são infinitas.

Essa condição pode parecer estranha para nós. No entanto, muito além do particular está o dramático ou, para dizer o mínimo, o triste. As pessoas que sofrem dessa condição não conseguem se lembrar de como era o pai falecido ou de uma pessoa significativa que não veem há muito tempo. Poderíamos dizer, no entanto, que aqueles que nasceram com essa característica peculiar não conseguem sentir falta de algo que nunca conheceram.

Viver em uma mente cega pela afantasia os coloca em um espaço onde eles se sentem continuamente estranhos. Já muito cedo, a criança com essa deficiência neurológica sabe que algo está acontecendo com ela, porque não sabe o que é sonhar ou ter pesadelos. Eles não conseguem se lembrar visualmente das coisas que viram, por exemplo, naquela tarde no parque, naquele dia na praia. Isso não existe visualmente em suas mentes, e algo assim gera estranheza quando percebem que os outros conseguem se lembrar.

Estamos diante de uma realidade tão particular quanto interessante, que vale a pena investigar.

Afantasia

Afantasia: o que é e por que ocorre?

Os neurologistas definem a afantasia como um tipo de cegueira mental. Esse termo nos impressiona. No entanto, como é a vida de alguém com essa condição? Talvez seja muito limitada? Além do mais, qual é a sua origem? Estamos diante de uma alteração neurológica que começou a ser estudada mais exaustivamente desde 2016.

Sabíamos de sua existência desde 1840, quando Sir Francis Galton, renomado psicólogo, antropólogo, explorador e geneticista britânico, descreveu vários casos, inclusive fornecendo uma análise estatística. Já naquele momento, ele estimou que de 2 a 3% da população poderia não ter essa faculdade de criar imagens mentais.

Tivemos que esperar até 2016 para que a comunidade científica se interessasse novamente pela afantasia, e isso foi feito pelo Dr. Adam Zeman, psicólogo cognitivo da Universidade de Exeter, que finalmente cunhou o termo. Nesse mesmo ano, Blake Ross, cocriador do Firefox, publicou um ensaio descrevendo a sua própria experiência com essa nova condição neurológica. Como resultado de seu trabalho, a afantasia começou a viralizar nas redes sociais e atraiu o interesse de mais especialistas.

Qual é a origem da afantasia?

Imagine duas maçãs, uma verde e uma vermelha brilhante. Ao ler isso, 97% de nós (de acordo com dados estatísticos) visualizaremos essa imagem quase instantaneamente. No entanto, aqueles que sofrem de afantasia serão incapazes de realizar esse processo neurológico porque as suas mentes não enxergam, porque no seu universo cerebral não há imagens.

Segundo os pesquisadores, isso pode ser uma falha na criação de padrões para tudo o que vemos. Cada estímulo visual gera um impacto em nosso cérebro, uma impressão que origina um tipo de padrão, uma sequência, uma forma. Assim, quando nos lembramos de algo, é comum que esses mesmos padrões apareçam quase instantaneamente, criando imagens mentais.

As pessoas com afantasia não criam padrões visuais; portanto, há uma falha nesse processo. Tudo que elas veem ou já viram não gera nenhuma imagem no cérebro. É como sofrer de uma cegueira parcial, onde os nossos olhos internos não compreendem o que está do lado de fora e não conseguem introduzi-lo no interior.

Menina com blusa de frio

Como vivem as pessoas que sofrem desta condição neurológica?

A vida com afantasia não é limitada. Você pode se relacionar, ser autônomo em todos os aspectos da sua vida, trabalhar e ter sucesso como todo mundo. No entanto, essas pessoas sabem que existe algo diferente com elas.

Além disso, algo que o próprio Dr. Adam Zeman ressalta é a reação positiva de alguém que, finalmente, recebe um nome e uma explicação pelo que sempre sofreu e não sabe muito bem como definir.

  • Desse modo, quem sofre de afantasia basicamente experimenta uma incapacidade de se lembrar por imagens. Eles não conseguem se lembrar de rostos, e isso geralmente lhes causa desconforto.
  • Enquanto a maioria de nós passa boa parte do tempo imersa em pensamentos imaginários, passando de uma imagem para outra, eles nem conseguem sonhar com imagens. Aqueles que sofrem mais com essa condição são pessoas que sofrem de afantasia adquirida. Ou seja, é muito comum que, como resultado de um acidente ou lesão cerebral, as pessoas acabem desenvolvendo essa deficiência; nesse caso, a realidade é mais complexa.
  • Por outro lado, verificou-se que esse déficit neurológico também está relacionado à prosopagnosia (dificuldade de reconhecer rostos) e a problemas de orientação.

Até hoje, não existe tratamento para a afantasia. Embora seja verdade que conviver com ela não limita nenhum aspecto do dia a dia, é curioso saber que os diagnosticados afirmam que se sentem diferentes e sabem que há algo errado que lhes faz falta. Afinal, nada é tão livre e reconfortante quanto pensar em imagens, quanto a capacidade de imaginar…

  • Zeman, Adam; Dewar, Michaela; Della Sala, Sergio (January 2016). “Reflections on aphantasia”. Cortex. 74: 336–337. doi:10.1016/j.cortex.2015.08.015.