Ahimsa, um conceito de paz integral

· novembro 26, 2018

O termo ahimsa vem do sânscrito e se refere a um conceito que advoga pela não violência e pelo respeito pela vida. Dessa forma, o conceito implica não somente não matar, mas também não causar dor física nem emocional a qualquer ser vivo, seja através dos pensamentos, de palavras ou de ações.

A primeira aparição desse termo data do século V antes de Cristo, no contexto da filosofia indiana. Mais especificamente, apareceu pela primeira vez nas escrituras hinduístas Upanishads. No entanto, é utilizado também no budismo e no jainismo.

Ahimsa também se relaciona com o respeito ao espírito, à natureza e às culturas. Ou seja, prega levar uma vida em paz com tudo aquilo que nos rodeia. De um modo geral, esse termo representa a busca da coerência entre o que dizemos, pensamos e fazemos em relação ao ato de dar amor e estar em harmonia com o mundo. Vejamos a seguir.

O conceito de ahimsa no Ocidente

Mahatma Gandhi foi o precursor desse conceito no ocidente, incorporando-o à cultura. Ele o considerava como o denominador comum de todas as religiões, inclusive da religião islâmica. Com o passar do tempo, no entanto, foram muitos líderes que advogaram pelos direitos civis e que também implementaram esse conceito como parte de sua doutrina.

Mahatma Gandhi

Mais precisamente, Martin Luther King, o maior representante dos direitos civis da população afro-americana, foi muito influenciado por esse conceito. Ele se tornou uma bandeira dos protestos pacifistas contra a violência e a pobreza a nível mundial.

A inclusão do termo ahimsa no ocidente, no entanto, só se concretizou graças a diferenças práticas como a ioga e a meditação. Desse modo, muitos ocidentais começaram a procurar outros novos conceitos, pois se sentiram atraídos pela cultura oriental como um todo. Na verdade, a comunicação não violenta (CNV)  desenvolvida por Rosenberg é um desses exemplos de conceitos trazidos da cultura oriental.

O significado de ahimsa para Mahatma Gandhi

A ideologia de Mahatma Gandhi sobre a não violência vem da sua inclinação para a doutrina hinduísta e para o jainismo.

“Literalmente, ahimsa significa não violência para com a vida, mas tem também um significado muito mais amplo. Significa também que uma pessoa não pode ofender outra pessoa, devendo ter compaixão pelo outro, inclusive quando se trata de um inimigo. Para aqueles que seguem essa doutrina, inimigos não existem. Para quem acredita na eficácia dessa doutrina até as últimas consequências, quando alcançamos a meta da paz, o mundo está em nossas mãos. Se expressarmos nosso amor – ahimsa- de tal modo que ele marque para sempre nosso inimigo, o nosso inimigo devolverá esse amor.”

-Mahatma Gandhi-

Desse modo, para Gandhi, ahimsa indica, é claro, não matar, mas também faz referência à capacidade humana de não fazer nenhum mal ao outro, absolutamente nenhum. Não causar nenhum tipo de dor, inclusive dano psicológico. Para isso, deve haver um estado de consciência absoluta.

Dessa forma, o conceito afirma que quem praticar o ahimsa precisa ter uma mente, fala e mãos absolutamente pacíficas. Por outro lado, é válido também destacar que para o hinduísmo o objetivo fundamental da não violência é evitar o acúmulo de um karma negativo. Por isso, o indivíduo deverá praticar um estado de paz interno integral consigo mesmo, e também com o ambiente que o rodeia.

Ao compartilhar, então, um respeito absoluto pela vida, o que acontece é o estabelecimento de uma veneração incondicional pela natureza. O indivíduo estará em paz consigo mesmo, com o outro e com o ambiente em que vive. É um princípio de igualdade, respeito e equilíbrio, no qual não importa nada mais além da vida em qualquer uma de suas formas e origens.

A importância de cultivar a paz interior

Ahimsa como prática global e humanística

Pensar no outro e não lhe causar nenhum mal é um princípio de igualdade suprema entre todos os seres. Podemos relacioná-la com uma prática cultural e humanística. Podemos também estabelecer um respeito em relação a todas as culturas, tratando-as como iguais. Desse modo, o etnocentrismo não teria nenhuma razão para existir.

Por muito tempo, ao longo da história da humanidade, a violência com outras culturas foi justificada por considerá-las inferiores. Desse modo, o etnocentrismo estabelecido através de uma noção falsa de superioridade, além de ser uma forma de dominar, encobriria razões falsas, com fins e bases colonialistas.

Estabelecer novos parâmetros de igualdade cultural é uma modo de reduzir o nível de sofrimento e maus-tratos reproduzidos por séculos em diferentes escalas: social, econômica, política, educativa, psicológica e, obviamente, cultural.

Pensar no outro como diferente, mas ao mesmo tempo igual a nós, com os mesmos direitos em relação à vida, é um princípio de equidade que deve ser levado em consideração de maneira integral se queremos alcançar o que o ahimsa defende: a paz integral sobre a superfície da Terra.