Alucinações hipnagógicas e paralisia do sono

· abril 13, 2019
Você acorda na cama, mas não consegue se mexer. Além disso, você ouve, vê e/ou sente coisas. É isso que acontece com as alucinações hipnagógicas.

As alucinações hipnagógicas são experiências perceptivas vívidas que acontecem no início do sono. Consistem em sonhos muito vívidos que estão associados a fenômenos visuais, táteis e auditivos. As alucinações hipnopômpicas, ao contrário, são experiências similares que ocorrem ao acordar.

O termo pompe (ato de enviar) em referência às alucinações hipnopômpicas foi utilizado pela primeira vez em 1918 por Myer para descrever esses fenômenos durante a transição do sono e do acordar.

A primeira descrição das alucinações hipnagógicas foi feita pelo psiquiatra francês Baillarger em 1846. Esse psiquiatra as chamou de alucinações psicossensoriais. O termo hipno- (sono) e –agogos (induzido) foi introduzido por Maury em 1848 para designar as alucinações ou ilusões que anunciam o sono.

Assim, essas alucinações ocorrem quando o indivíduo acredita estar acordado. A pessoa consegue ver, ouvir e sentir, mas não consegue se mexer. Por isso, as alucinações hipnagógicas estão muito relacionadas com a paralisia do sono.

Alucinações hipnagógicas durante o sono

Incidência e história das alucinações hipnagógicas

A incidência dessas alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas na população geral ocorria em 25-30% das pessoas afetadas pela narcolepsia (2). Em 1957, os autores Yoss e Daly incluíram essas alucinações nos critérios diagnósticos da narcolepsia. Essas alucinações também foram observadas em transtornos de sonolência diurna excessiva; com frequência foram observadas em pacientes com paralisia do sono antes de adormecerem. (3, 4)

Além disso, algumas substâncias psicoativas, como o khat (5) e o haxixe (6), foram relacionadas com a indução de alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas.

Paralisia do sono e alucinações hipnagógicas

A paralisia do sono consiste em uma incapacidade generalizada e transitória de se movimentar ou falar. Ocorre fundamentalmente durante a transição sono-vigília. Nela, ocorrem as alucinações hipnagógicas.

A paralisia do sono e as alucinações hipnagógicas foram características importantes do pesadelo. Foi a cultura popular que enfeitou esses sintomas com interpretações sobrenaturais. Assim, pensava-se que a paralisia do sono e as alucinações poderiam ser causadas pela visita de demônios e espíritos.

Em 1834, o autor Mcnish definiu pela primeira vez o pesadelo:

“A imaginação não consegue conceber os horrores que [o pesadelo] gera com frequência… Tudo o que é horrível, repugnante ou assustador no mundo físico ou moral aparece nele em uma assustadora matriz; … Em um momento pode ter a consciência de um demônio maligno ao seu lado; depois, para evitar a visão de um objeto tão atroz, fechará os olhos, mas ainda assim, o ser assustador mostra sua presença; porque seu hálito gelado pode ser sentido se espalhando pelo seu rosto, e ele sabe que está cara a cara com um demônio. Depois, se olha para cima, contempla olhos horripilantes que o fulminam com o olhar e um aspecto do inferno que lhe sorri com uma malícia ainda mais infernal. Ou mesmo, pode ter a ideia de uma monstruosa bruxa rondando seu peito, imóvel e maligna”.

A citação anterior é uma descrição de um pesadelo escrita há mais de um século. Ao ler esse e outros relatos semelhantes, torna-se evidente que o termo sofreu uma mudança em seu significado durante os últimos 150 anos aproximadamente. Mais recentemente, esse termo tem sido utilizado para designar sonhos muito vívidos, de conteúdo desagradável, e que produzem uma significativa sensação de medo no indivíduo, chegando a acordá-lo muitas vezes.

Paralisia do sono

Íncubo: o demônio noturno

Em seu livro On the Nightmare, Jones explica que a palavra pesadelo originalmente significava “fanático da noite” ou “íncubo noturno”. Esses demônios noturnos se tornaram responsáveis pelas experiências de sonhos assustadores.

Um íncubo é um demônio que, segundo a mitologia popular europeia da Idade Média, ficava por cima das mulheres que dormiam. A lenda conta que a intenção do demônio era ter relações sexuais com as mulheres sobre as quais pousava. Seu objetivo, às vezes, podia ser ter filhos com a mulher violada, como é contado na lenda de Merlin (8). Sua contraparte feminina, que pousa sobre homens dormindo, se chama súcubo.

Os íncubos visitavam as pessoas à noite e se sentavam ou se deitavam sobre seu peito, paralisando-as. Jones afirma que essa crença era quase universal em todas as idades e culturas. Dessa forma, parece que as alucinações hipnagógicas das quais falamos são consideradas, de certo modo, o berço do surgimento dos demônios noturnos.

Esse tipo de alucinação, além da paralisia do sono, é estudada atualmente como sintoma dentro da narcolepsia. No entanto, parece que esses fenômenos também podem ocorrer em indivíduos saudáveis. (9)

  1. Ohayon, M. M., Priest, R. G., Caulet, M., & Guilleminault, C. (1996). Hypnagogic and hypnopompic hallucinations: pathological phenomena?. The British Journal of Psychiatry169(4), 459-467.
  2. Broughton, R. (1982) Neurology and dreaming@ Psychiatric Journal of the University of Ottawn, 7,101-110.
  3. Goode, G. B. (1962) Sleep paralysis. Archives of Neurology, 6, 228-234.
  4. Hishikawa, Y. (1976). Sleep paralysis. Advances in sleep research3, 97-124.
  5. Granek, M., Shalev, A., & Weingarten, A. M. (1988). Khat‐induced hypnagogic hallucinations. Acta Psychiatrica Scandinavica78(4), 458-461.
  6. Baillarger, M. (1846). Des hallucinations psycho-sensorielles. Ann Méd Psychol7, 1-12.
  7. Liddon, S. C. (1967). Sleep paralysis and hypnagogic hallucinations: Their relationship to the nightmare. Archives of general psychiatry17(1), 88-96.
  8. Lacy, N. J., Ashe, G., Ihle, S. N., Kalinke, M. E., & Thompson, R. H. (2013). The New Arthurian Encyclopedia: New edition. Routledge.
  9. Martínez-Rodríguez, J. E., & Santamaría, J. (2005). Narcolepsia e hipersomnia idiopática. Rev Méd Univ Navarra49(1), 35-40.