Amor e vício: características comportamentais

Pode parecer estranho, mas o fato é que tanto o amor quanto o vício, ao menos em cocaína, compartilham a síndrome de abstinência. Quando terminamos um relacionamento, ocorre uma síndrome de abstinência em relação à pessoa amada.
Amor e vício: características comportamentais

Última atualização: 08 Abril, 2021

Todos nós estamos familiarizados com o amor, de uma forma ou de outra. O entendimento disso pode variar, dependendo da cultura. A neurologia do prazer está nas bases dessa experiência. Porém, ao contrário do que costumamos pensar, o amor está mais vinculado ao sistema motivacional do que às emoções (1). Sendo assim, o que o amor e o vício têm em comum?

Os comportamentos observados durante o amor e durante o vício podem ser explicados pela neuroquímica cerebral. Sendo assim, o amor está atrelado a determinadas funções do sistema nervoso central, com núcleos e neurotransmissores específicos. Eles têm como único propósito o apego aos parceiros para a reprodução e o cuidado da prole (2).

Amor e vício: comuns no cérebro

A química do amor romântico

Quando ficamos atraídos por outra pessoa, o que ocorre em nossos cérebros é um tipo de necessidade de gratificação sexual. Este processo é influenciado, obviamente, pelos hormônios (especificamente, os estrogênios e os androgênios).

Casal bem próximo

Em seguida, vem o amor romântico. Ele pode ser definido como o processo de atenção por um par específico para o acasalamento. Somado a isso está a necessidade de união sentimental com o par (1). Nessa etapa, observa-se:

  • Um aumento de dopamina e norepinefrina;
  • Redução da serotonina.

Por último, há a etapa que relaciona o apego ao par com a finalidade de cuidar da prole. Nesta fase, ocorre uma importante união sentimental, bem como um sentimento de conforto. Essa atitude é influenciada pelos neuropeptídeos abaixo:

Comportamentos durante a paixão

Alguns dos comportamentos que podem ser observados durante a paixão são os seguintes:

  • Dependência emocional;
  • Medo de rejeição;
  • Ansiedade de separação;
  • Empatia;
  • Reajuste de prioridades cotidianas para estar disponível para o par;
  • Desejo sexual pelo par;
  • Desejo de união emocional;
  • Paixão;

Todos estes comportamentos podem ser explicados pela neuroquímica. Vejamos o que ocorre:

  • Quando a dopamina aumenta, a atenção também o faz. Com isso, cresce a tendência de considerar a pessoa amada como única. Isso pode provocar:
    • Euforia;
    • Perda de sono e de apetite;
    • Tremores;
    • Aumento na frequência respiratória;
    • Ansiedade;
    • Pânico;
    • Medo;
    • Alterações de humor;
    • Desespero caso a relação termine.

Aparentemente, todos esses comportamentos também podem ocorrer na dependência de drogas, como cocaína ou anfetaminas. 

  • Quando a norepinefrina aumenta, há uma fixação nas qualidades positivas da pessoa amada. Com isso, as qualidades negativas são subestimadas.
  • A diminuição da serotonina gera pensamentos obsessivos com relação à pessoa que amamos. Isso também ocorre com frequência durante os transtornos obsessivos.

Comum no amor e no vício: síndrome de abstinência à cocaína e à paixão

A síndrome de abstinência ocorre por dois tipos de dependência (1):

  • Dependência física: desencadeada por um estado de adaptação no organismo que causa alterações físicas, uma vez em que a administração de cocaína é interrompida;
  • Dependência psíquica: causada pelos estados de satisfação e bem-estar ocorridos durante o uso de cocaína, que induz os indivíduos a repetirem o uso para manterem esses estados, ou evitar sintomas de abstinência.

Os autores Glawin & Kleber (1986) estabeleceram três fases na síndrome de abstinência por cocaína:

  • Fase 1 – Crash: pode durar de nove horas a quatro dias. É um estado de grande abatimento que causa depressão, anedonia, insônia, irritabilidade, ansiedade e um desejo irresistível de usar novamente.
  • Fase 2 – Abstinência: de uma a dez semanas. É iniciada a partir do 5º dia após o último consumo de cocaína. Causa anedonia, disforia, ansiedade, irritabilidade, intensas sensações de tédio e avidez. 
  • Fase 3 – Extinção: De duração indeterminada. O estado afetivo básico é recuperado com uma resposta anedônica normalizada.
Casal deitado junto

Pode parecer estranho, mas o fato é que tanto o amor quanto o vício, ao menos em cocaína, compartilham a síndrome de abstinência. Quando terminamos um relacionamento, ocorre uma síndrome de abstinência em relação à pessoa amada.

Assim, pode-se dizer que as etapas do amor podem ser comparadas às etapas de um vício. Acontece que os nossos comportamentos durante os vícios e no amor são muito parecidos, chegando ao ponto de apresentarem as mesmas bases neuroquímicas e comportamentais. A síndrome de abstinência à cocaína é a que mais se assemelha à perda de uma pessoa amada. Sendo assim, temos embasamento científico para respaldar a hipótese de que o amor se assemelha a um vício.

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  • Maureira, F. (2009). Amor y adicción: comparación de las características neurales y conductuales. Revista Chilena de Neuropsicología, 4(2), 84-90.
  • Fisher, H.; Aron, A.; Mashek, D.; Li, H. and Brown, L. (2002) The neural mechanisms of mate choice: a hypothesis. Neuroendocrinology Letters, 23: 92-97.
  • Gawin, F. H., & Kleber, H. D. (1986). Abstinence symptomatology and psychiatric diagnosis in cocaine abusers: clinical observations. Archives of general psychiatry, 43(2), 107-113.