Amor líquido: a realidade do amor do século XXI?

Amor líquido: a realidade do amor do século XXI?

abril 28, 2017 em Psicologia 964 Compartilhados
Amor líquido: a realidade do amor do século XXI?

Imagine que aparece um senhor idoso, com uma simpática careca, enquanto fuma o seu cachimbo, e lhe diz: “os celulares ajudam a se conectar com os que estão distantes. Os celulares permitem que aqueles que se conectam… mantenham distância”. Esta é uma frase que está na lápide do recentemente falecido Zygmunt Bauman, que criou o termo amor líquido, entre outras “questões líquidas” que talvez definam a nossa realidade.

Sugiro um passeio, a partir de agora, pelo conceito de amor líquido de Zygmunt Bauman. Vamos tentar desmistificar juntos se realmente esta questão é a verdadeira realidade do amor no século em que vivemos. O que você acha?

Quem é Zygmunt Bauman

Antes de continuar, talvez seja uma boa ideia saber um pouco mais sobre o senhor Bauman. Ele foi um exímio filósofo e sociólogo polonês. Infelizmente, faleceu recentemente.

Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman

Contudo, para a posteridade fica o seu enorme trabalho sobre questões tão atuais quanto as classes sociais ou a pós-modernidade. Depois dos anos 50, sob a influência e o eco de acontecimentos tão importantes quanto o holocausto nazista ou a escalada do socialismo, a sua visão girou para assunto atuais e relacionados ao final do século XX e o começo do XXI.

Nos seus últimos anos, o trabalho de Bauman girou em torno da pós modernidade, a globalização, o consumismo e a nova pobreza. Daí surgiu o conceito de modernidade líquida que nos leva à questão que hoje nos interessa: o amor líquido.

O amor líquido no mundo moderno

Bauman definiu o termo liquidez para explicar como vê as sociedades do mundo moderno. Para o sociólogo, a fragilidade do vínculo é a realidade em nossos relacionamentos. Por isso líquido, pela maleabilidade da forma e a facilidade de divisão dos elementos em estado líquido.

Infelizmente, a mente afiada do filósofo polonês estimava a sociedade atual como um mundo ocasional. Grande parte das pessoas que a perfazem procuram a satisfação momentânea: aquele fato pontual que nos alegra durante um minuto. No seguinte já acabou, e segundos depois, já está esquecido.

Segundo o ensaísta, isso acontece porque um dos elementos do amor do relacionamento, o amor próprio, também é líquido. Como podemos gostar de outra pessoa se antes não gostamos de nós mesmos? O que iremos oferecer se não temos nada valioso para oferecer? Com que iremos corresponder se nos oferecerem alguma coisa valiosa? A nossa falta de autoestima nos leva a ter relacionamentos que se diluem em questão de segundos.

“Se vai, como a água que escorre pelas minhas mãos, vai embora.”
-Manuel Alejandro-

Por isso, com a poética singular de Bauman, o termo amor líquido, e tudo que reflete na nossa atual realidade, escapa das mãos porque não somos capazes de solidificá-lo e agarrá-lo com a força necessária, nem sequer o amor para consigo mesmo. Vivemos em um mundo efêmero do instante como colecionadores de eventos líquidos. Cada dia fica mais difícil criar uma realidade sólida formada pelo amor próprio e relacionamentos verdadeiros que durem no tempo com a consistência necessária.

A necessidade do amor próprio para estabelecer relacionamentos verdadeiros

Para Bauman, os humanos modernos precisam de compromissos fortes. E o primeiro precisa ser consigo mesmo. Sem amor próprio, sem responsabilidade pessoal, sem capacidade para transcender, raras vezes estaremos dispostos a assumir relacionamentos sólidos.

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O ensaísta considerou que atualmente, mais do que relacionamentos, estabelecemos conexões. Assim como falamos no início com a sua frase sobre o celular, a tecnologia nos permite estar em contato. Contudo, não a usamos para aprofundar, mas apenas para conectar.

De forma muito curiosa, neste sentido é possível observar o paradoxo de que quantos menos transcendentes formos pessoalmente, mais individualistas nos tornamos. Além disso, justamente nesse contexto revestimos as necessidades pontuais que nos satisfaçam momentaneamente. Eventos fugazes com começo e final, inclusive passando do real ao virtual.

Como tingir o amor líquido de realidade

O amor líquido atual é cada dia mais irreal. As relações estabelecidas são imateriais e sem conteúdo e compromisso. Contudo, não podemos nos deixar levar pelo desânimo e a temporalidade. Por sorte, temos uma ferramenta poderosa com a qual poderíamos lutar contra a imaterialidade do amor líquido. Chama-se educação. Mas para usá-la e obter resultados, é preciso começar desde a infância.

É preciso formar crianças com segurança, com uma alta autoestima, conscientes de si mesmos e da necessidade de estabelecer relacionamentos reais e duradouros. Crianças livres, com capacidade de pensar e segurança em cada projeto que empreendem.

“Amar significa abrir a porta para esse destino, a mais sublime das condições humanas onde o medo se funde com o gozo em uma liga indissociável, cujos elementos já não podem ser separados.”
-Zygmunt Bauman-

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Do contrário, nossos filhos, assim como muitos de nós, estarão presos ao amor líquido da realidade líquida em um mundo líquido. Pelo menos , assim pensou Zygmunt Bauman. Qual é a sua opinião?

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