Analfabetismo emocional: quando falta coração em nosso cérebro

Analfabetismo emocional: quando falta coração em nosso cérebro

Abril 27, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Analfabetismo emocional: quando falta coração em nosso cérebro

Há muitas pessoas que sofrem de analfabetismo emocional. São hábeis no domínio de diversas competências, dispõem de intermináveis títulos e diplomas, mas fazem a mesma gestão emocional que uma criança de três anos. Esse aprendizado não vem de fábrica e é, querendo ou não, um assunto pendente do qual devemos dedicar mais recursos.

A maioria de nós sabe quais são os princípios de uma boa saúde física, ou seja: uma dieta balanceada e o mais natural possível, exercícios, dormir todas as noites pelo menos de 7 a 9 horas e fazer exames médicos regulares para nos assegurar de que tudo está bem.

“Quando escuta com empatia outra pessoa, você dá a essa pessoa ar psicológico”.
-Stephen R. Covey-

No entanto, se há algo negligenciamos de forma quase alarmante é o que está contido entre os nossos ouvidos: o cérebro. Porém, não nos referimos ao conjunto de células nervosas, estruturas e convoluções. Devemos focar a atenção nos indicadores de nossa saúde emocional, ou seja, na capacidade de sentir a vida e os nossos relacionamentos, no estado dessa capacidade de aprender, controlar e modificar nosso humor e o dos outros.

O ser humano é muito mais que uma série de competência linguísticas, matemáticas ou tecnológicas. Somos, acima de tudo, seres sociais e emocionais, dimensões estas muitas vezes negligenciadas e até subvalorizadas nas instituições de ensino. Porque, vamos admitir, de pouco serve sabermos resolver uma equação de segundo grau se somos incapazes, por exemplo, de nos comunicarmos com eficácia e de simpatizarmos com aqueles ao nosso redor.

Rostos com letras

O que é analfabetismo emocional?

Sabemos que o termo analfabetismo possui uma conotação negativa. No entanto, não podemos chamar de outra maneira essa realidade psicossocial tão evidente. Daremos um exemplo: atualmente fala-se muito da figura de líderes transformadores, de pessoas capazes de dinamizar uma organização graças à sua boa gestão da inteligência emocional, da motivação, de seu dom para gerar impacto sobre os outros e criar ambientes onde as pessoas podem fazer uso de sua criatividade.

Às vezes são vendidas ideias que, na realidade, brilham por sua ausência. Assim, é muito comum nos depararmos com diretores ou líderes empresariais incapazes não apenas de inspirar os outros, mas com uma falta de capacidade de controlar suas emoções, sua frustração, sua raiva… São como crianças de 3 anos irritadas por não obterem aquilo que desejam, situadas completamente no pensamento egocêntrico definido por Piaget em sua época.

Vejamos, no entanto, quais dimensões caracterizam o analfabetismo emocional.

  • Incapacidade de entender e gerenciar as próprias emoções.
  • Dificuldade para entender as emoções dos outros.
  • A falta de autoconsciência geralmente os coloca em áreas muito sensíveis. Reagem de maneira excessiva diante de qualquer problema, se sentem sobrecarregados e superados por qualquer dificuldade, seja pequena ou grande.
  • Não têm empatia, são incapazes de se situar aos olhos dos outros, de compreender realidades diferentes das deles.
  • Suas habilidades sociais são muito rígidas e, embora às vezes possam se desenvolver, lhes falta sensibilidade, assertividade e uma  proximidade autêntica com a qual se criam laços significativos, e não apenas relacionamentos motivados por interesses pessoais.
  • Por outro lado, os custos do analfabetismo emocional podem ser enormes: pensamento polarizado, repressão, racismo ou sexismo, narcisismo, necessidade obsessiva de ter razão.

Coruja brava

Além disso, há um dado não menos importante que é importante lembrar. O analfabetismo emocional, isto é, a falta de recursos psicológicos e mecanismos emocionais para administrar melhor as dimensões como a tristeza, a raiva, o medo ou a decepção, nos torna muito mais vulneráveis a uma série de transtornos mentais. 

Assim, condições como a depressão ou os estados de ansiedade crônica são muito comuns em perfis com pouca ou nenhuma capacidade para gerenciar os estados internos.

A importância de ensinar a inteligência emocional

Sabemos que já é como um slogan: Devemos ensinar a inteligência emocional, devemos nos capacitar nessas habilidades, sermos mais aptos em matéria de emoções.” Temos ouvido isso até não poder mais, temos lido livros, temos feito cursos e dizemos que sim com a cabeça toda vez que somos lembrados da importância de ter uma maior competência nesta habilidade.

No entanto, as lacunas ainda existem. Assim, e embora em alguns currículos educacionais de certas escolas já apareça este objetivo, não podemos ignorar algo igual ou mais importante. Antes que professores e mestres eduquem as crianças no domínio de seus pensamentos e emoções, eles também devem ser educados previamente.

“Seu intelecto pode estar confuso, mas suas emoções nunca mentirão para você”.
-Roger Ebert-

Muitas vezes nós mesmos atingimos nosso estágio adulto com um mundo de inseguranças. Também nos levantamos todos os dias conscientes de que nos faltam ferramentas para dominar nossas emoções, assim como certas habilidades para enfrentar melhor a adversidade. Desta forma, se não começarmos em primeiro lugar por nós mesmos nos conscientizando de nosso analfabetismo emocional, dificilmente teremos o talento para motivar os menores, para treiná-los em empatia, assertividade ou em habilidades sociais.

Crianças brincando

Uma boa “alfabetização emocional” nos dota de grandes benefícios. Assim, algo que aprendemos em primeiro lugar é que cada emoção tem seu espaço e sua utilidade, que diferenciar entre emoções “negativas” e “positivas” nem sempre é certo, porque, na realidade, os estados que muitas vezes evitamos sentir, como a tristeza ou a decepção, têm seus espaços de conhecimento, sua utilidade e seu significado valioso.

Das emoções, portanto, não se foge. É preciso enfrentá-las para saber o que querem nos dizer. É uma maneira sensacional de autoconhecimento que nos dá forças, que oferece à nossa visão um espectro mais amplo… e ao mesmo tempo flexível. Portanto, não abandonemos ou desprezemos a necessidade de estarmos “atualizados” em termos de emoções. Lidemos com o mundo interior onde podemos reconhecer, expressar, gerenciar e transformar os sentimentos de modo que eles fluam a nosso favor, e não contra…

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