Quais são as habilidades importantes no século XXI?

· março 30, 2018

Há uma pergunta que todos nós já ouvimos quando éramos pequenos. Além disso, quando a ouvimos, o normal é respondermos com esperança, da mesma forma que uma pessoa apaixonada fala do seu amado. A pergunta tem muitas variantes, mas talvez a mais popular seja a mais simples: e você… o que quer ser quando crescer? Quais são as habilidades importantes que você vai precisar ter?

Certamente poucos dos que nos fizeram essa pergunta acreditaram na resposta que demos. Por outro lado, uma boa parte dos que obtiveram algum crédito o perderam quando, poucos dias depois, responderam de forma diferente. Muito diferente, na verdade.

De escritores eles passaram a querer ser astronautas, de locutores a diretores de cinema ou de palhaços a recepcionistas de hotel. Assim, muitas crianças de quatro, cinco, seis ou sete anos foram para a cama sendo advogados e acordando médicos, independentemente do que os outros pensavam.

Novas ideias

A pergunta dos outros vira a nossa própria pergunta

No entanto, há um momento em que essa pergunta deixa de ser feita pelos outros para nós mesmos passarmos a fazê-la… e a resposta nem sempre é fácil. Ou porque é muito clara e o caminho é muito difícil, porque a resposta não é única ou estruturada ou porque não encontramos uma profissão na qual nossa intuição identifique algum tipo de vocação. Claro, há pessoas que sabem muito antes de ter que tomar uma decisão, mas a realidade nos diz que essas pessoas não são a maioria.

Por outro lado, quando somos adultos os outros já não acham muita graça se um dia damos uma resposta e no outro damos outra diferente. De alguma forma seus rostos mudam, seus semblantes ficam sérios e a pressão aumenta. Sua mímica parece dizer: “Já não estamos mais no pátio da escola, então pode parar com essas brincadeiras! Você já experimentou o suficiente, ou deveria ter experimentado. Agora é hora de decidir ‘definitivamente’, colocar uma habilidade em prática, e não várias sem organização”.

Caso a a decisão “definitiva” não seja tomada, os pais (e não só) podem começar a pensar que tiveram o “infortúnio” de ter um “filho muito perdido na vida”. Esta sensação desenhada no rosto das pessoas que importam não é inócua para a pessoa que a recebe. Não é incomum que, mais cedo ou mais tarde, a pessoa adote esse pensamento como seu e interrompa qualquer intenção de continuar testando independentemente suas habilidades.

Ou que não faça isso, mas que tenha muito cuidado em compartilhar qualquer iniciativa que se desvie das intenções que já transmitiu e que os outros aprovaram. Caso contrário, a pessoa sabe que poderá encontrar comentários como: “Você já passou por tanta coisa para conseguir uma carreira em medicina, agora você quer se dedicar a restaurar móveis?”.

E há um paradoxo: com o passar dos anos, as pessoas valorizam mais a estabilidade; no entanto, nos momentos em que a morte nos lembra que nossa vida tem um fim, ansiamos o caráter aventureiro que algum dia, de alguma forma, enterramos.

Engrenagens do cérebro humano

Quais são as habilidades importantes que devemos ter?

As pessoas que pulam de um projeto para o outro, que mergulham em um terreno e depois passam para outro, foram incompreendidas e muitas vezes depreciadas por boa parte da sociedade, que só via a possibilidade de algum tipo de progresso na especialização. Nessa boa porção social estavam as pessoas que, com uma vocação clara, tinham acabado por se tornar especialistas em um campo com base em uma única habilidade, mas sobretudo aquelas que tinham renunciado à sua essência, restringindo cada um desses impulsos para se centrar em um único objetivo.

Quando renunciamos a algo, seja um desejo, uma esperança, benefícios, etc., nos tornamos mais críticos com os que não fazem isso. Por exemplo, os que mais criticam as pessoas que colam em uma prova não costumam ser os que não tiveram a oportunidade de fazer o mesmo, mas os que tiveram e renunciaram à oportunidade. É também por isso que as pessoas que conseguem deixar um ambiente marginal são as mais críticas com as pessoas que permanecem nele. Em muitas ocasiões, de forma injusta e oportunista.

Por isso que as pessoas multipotenciais (aquelas “pessoas perdidas” de que falamos anteriormente) acabam desprezando seu modo de ser. Punindo e desprezando a si mesmas sempre que não alcançam o ponto normativo que estabelece o fim de um projeto. Falamos de autoestimas pisoteadas e lá no chão. Estamos falando de pessoas tristes.

Mas, por quê? Por que alguém não pode abandonar um projeto quando entende que o que já obteve para si é suficiente e não faz mal a ninguém? Por acaso pedimos para uma abelha continuar na mesma flor quando ela já obteve néctar suficiente?

Felizmente este panorama está mudando. As pessoas que participaram em muitos projetos diferentes, que mudaram tantas vezes de empresa e que contam com uma enorme variedade de passatempos são cada vez mais valorizadas. E o são porque essas pessoas têm três qualidades:

  • São capazes de aproveitar as interseções: por conhecerem dois campos, elas são capazes de desenvolver projetos ou fazer contribuições que os especialistas nunca poderiam fazer. Estamos falando de pessoas apaixonadas por matemática e futebol que realizaram uma análise estatística do que acontece em um campo de jogo… ou de pessoas apaixonadas por biologia e literatura que trouxeram essa ciência para a sociedade através de livros de divulgação. Estamos falando de pessoas especializadas em robótica e com uma vocação clara para cuidar das pessoas, porque graças a essa sinergia elas conseguiram colocar a tecnologia a serviço daqueles que mais precisam dela.
  • São capazes de aprender muito rápido: por terem mudado tantas vezes de campo, essas pessoas também tiveram que viver muitos novos começos. Portanto, elas têm muita experiência na hora de mergulhar no desconhecido e romper essa tensão superficial que existe quando fazemos qualquer mudança de meio.
  • São capazes de se adaptar muito rápido. A revista Fast Company define a adaptabilidade como a habilidade mais importante para o desenvolvimento, para prosperar no século XXI. Ao entrarem constantemente em áreas que não são as suas, essas pessoas dificilmente encontram um espaço que seja do seu gosto. De alguma forma, com tantas mudanças, elas criaram estratégias para minimizar o impacto ou a incerteza.

Seja a capacidade de adaptação ou não a habilidade mais importante para ter sucesso no século que habitamos, o que é claro é o crescente valor que as empresas dão à iniciativa. Elas buscam pessoas que saibam como fazer ou que estejam dispostas a aprender. É certo que a especialização continua tendo muita importância, mas não é menos verdade que o fato de uma pessoa ter experiência em vários campos está começando a pesar: isso significa valiosas fontes de ideias para transferir para o campo de interesse e desenvolvimento da empresa.