É normal ter ansiedade sem motivo?

23 Novembro, 2020
Você já sentiu ansiedade sem poder encontrar um motivo que a justificasse? Neste artigo, vamos explicar por que podemos ser vítimas dessa experiência tão desgastante.

A ansiedade sem um motivo que a justifique é um dos problemas mais comuns vistos nos consultórios dos psicólogos. É normal que, em determinadas ocasiões, nosso corpo seja ativado de alguma forma pelo ambiente para enfrentar a situação. No entanto, há momentos em que nenhum fator causal é identificado para essa ativação.

As pessoas com ansiedade investem tempo e capacidade de análise tentando encontrar uma explicação razoável para a reação do seu organismo, principalmente quando não encontraram um motivo logo de primeira. Isso acaba se transformando em uma incerteza que dá voz para a própria ansiedade. Então, é normal ter ansiedade sem motivo?

“Em nossa sociedade, as pessoas gastam milhões de dólares por ano para se livrar da ansiedade. O custo das visitas aos médicos de atenção primária e da utilização dos serviços de saúde por pessoas com transtornos de ansiedade é o dobro daqueles que não apresentam tais transtornos, embora no caso destes últimos exista a presença de doenças orgânicas.”
– Barlow (2002) –

Mulher sofrendo de ansiedade

Características da ansiedade

A ansiedade pode ser considerada um estado de humor orientado para o futuro, que surge acompanhada de outras emoções, como o medo, a preocupação, etc. Estas características da ansiedade fazem com que a pessoa experimente uma série de sintomas, como os seguintes:

  • Aumento da tensão muscular
  • Micção frequente
  • Sensação de secura na boca
  • Sensação de enjoo ou vertigem
  • Aceleração do ritmo cardíaco
  • Pressão no peito
  • Dificuldade para respirar
  • Nó na garganta
  • Suor excessivo
  • Sensação de falta de controle
  • Etc.

Estes sintomas são o que moldam o que conhecemos como ansiedade no plano físico. Um dos fenômenos que o organismo compartilha com outros animais é o da ativação por vias muito rápidas diante da percepção do perigo – ativação do sistema nervoso simpático. Por exemplo:

“Imagine que você abre a porta da sua casa e dá de cada com um tigre faminto. Logicamente, sua primeira reação vai ser fechar a porta o mais rápido possível para se manter a salvo. Ou seja, seu sistema de ativação gerou um alarme no organismo, o que produziu uma resposta de fuga (ficar a salvo)”.

A diferença entre os animais e os seres humanos é que nós, humanos, derivamos a lógica da solução dos problemas nas sensações internas que são consideradas perigosas – dito de outra forma, podemos perceber o perigo, além da percepção de uma ameaça, observando como nosso corpo está se comportando. Nelas, entra a possibilidade de avaliar emoções, pensamentos e sensações como perigosos por serem desagradáveis. Daí vem a ansiedade sem motivo.

Uma forma lógica de resolver determinados problemas implica a realização de ações para solucionar o motivo do problema. No entanto, há situações nas quais essa lógica não funciona. Um exemplo:

“Se você não gosta da cor de uma parede, a solução pode estar mais ou menos em suas mãos: compre uma tinta nova, faça um teste de como quer a parede e, se você gostar, passe a tinta na parede inteira. Se você tiver sensações de ansiedade, quais estratégias colocaria em prática? Em quanto tempo elas funcionam? O que acontece depois?”

Então, é normal ou não ter ansiedade sem motivo?

A ansiedade, às vezes, pode ser adaptativa e ajudar a controlar os problemas. Entretanto, o excesso de medo ou ansiedade pode dificultar uma ação efetiva. Quando a ansiedade se torna patológica, os indivíduos tendem a associar as sensações desagradáveis com estados anormais, por não mencionar as situações e os períodos do dia nos quais a ansiedade acontece.

Esta associação com circunstâncias nas quais a ansiedade aconteceu previamente cria a sensação da ansiedade aparecer “sem motivo”. E mais, ela acontece não somente nas mesmas circunstâncias associadas, mas também naquelas que compartilham semelhanças de estímulos.

O paradoxo de ter ansiedade sem motivo: o que acontece, então?

As tentativas de solução podem se tornar um problema se não tiverem êxito no controle dos estados de ansiedade. Isso implica entrar em uma espiral na qual as tentativas de controlar a ansiedade estão ancoradas na própria ansiedade, fazendo parte do problema. Isso pode ser explicado com o seguinte exercício:

Imagine agora mesmo um delicioso bolo de chocolate. Imagine sua textura, sua cor, o cheiro de recém saído do forno, seu sabor… concentre-se por alguns segundos no bolo de chocolate. Conseguiu?

Bom, agora tente eliminar o bolo da sua mente. Quando a imagem do bolo aparecer em sua mente, pense numa Ferrari… e continue assim por 30 segundos.

Agora, faça o seguinte jogo dos contrários:

BRANCO ->

NOITE – >

DOCE – >

FERRARI – >

Crise de ansiedade

Ter ansiedade sem motivo é normal. São as tentativas de controle que a transformam em um problema.

Assim como você acabou associando uma Ferrari com um bolo de chocolate, o mesmo acontece com as situações que se associam à ansiedade. Esta é uma das razões pelas quais podemos ter a sensação da ansiedade acontecer sem motivo.

Um dia você está na praia contemplando o pôr do sol, apreciando o momento e, em questão de segundos, sua mente pode te lembrar de que agora mesmo você não está sentindo ansiedade (um pensamento que, de forma paradoxal, pode acabar ativando seu sistema nervoso simpático).

Parece que acontece sem razão. No entanto, o corpo possui memória para as experiências de vida (um fluxo de lembranças que não precisa, necessariamente, passar pela consciência). Além disso, essas experiências não podem ser eliminadas, da mesma forma que um pássaro não pode desaprender a voar.

O importante é reconhecer o estado de ansiedade quando ele aparece, conhecer os sintomas que são característicos e, uma vez que surgirem, ter consciência do que podemos fazer em busca de controle e quais custos isso terá em nossas vidas. Em todo caso, a opção de procurar a ajuda de um especialista sempre é boa, principalmente se a ansiedade for constante e impedir a realização das responsabilidades diárias.

Akiskal, H. S. (1985). Anxiety: definition, relationship to depression and proposal for an integrative model. In A. H. Tuma & J. D. Maser (Eds.), Anxiety and the anxiety disorders. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.

Ayuso, J. L. (1988). Trastornos de angustia. Barcelona: Ediciones Martínez Roca

Miguel-Tobal, J. J. (1996). La ansiedad. Madrid: Santillana

Sociedad Española para el Estudio de la Ansiedad y el Estrés – SEAS (ed.). «Ansiedad normal y ansiedad patológica – ¿Las diferencias individuales en la reacción de ansiedad ante una misma situación indican patología?»