Anthony de Mello, a biografia de uma referência da psicologia espiritual

· abril 20, 2019
O padre Anthony de Mello não foi uma figura confortável para a Igreja Católica. Sua perspectiva panteísta, vital e sempre inspiradora não foi bem recebida entre certas esferas da nossa sociedade.

Anthony de Mello foi um sacerdote jesuíta indígena, guia espiritual e psicoterapeuta que alcançou uma notável fama por seus livros, suas palestras e sua singular personalidade. Foi uma figura estranha para muitos e inspiradora para outros. Ele se aproximou de todas as religiões para exaltar o mais bonito e interessante de cada uma, proporcionando-nos, por sua vez, valiosos conselhos sobre crescimento pessoal.

Sua perspectiva sempre foi vital, única e efetiva. Em livros como Redescobrir sua vida, que seria sua última obra, ele afirma que todas as pessoas chegam ao mundo sendo felizes. No entanto, pouco a pouco nos transformamos em prisões pessoais de sofrimento, nas quais deixamos de ser conscientes do nosso potencial. Os nossos próprios pensamentos, afirma, são sempre os nossos piores inimigos.

Por outro lado, algo que De Mello invocava era a necessidade de aceitar nossa natureza espiritual. Ele aceitava absolutamente todas as crenças religiosas, em todas se sentia confortável e as considerava seu lar. Sua perspectiva, frequentemente panteísta, foi algo de que a Igreja Católica não gostou muito. De fato, seus ensinamentos foram proibidos durante o período do papa Ratzinger. No entanto, essa proibição seria levantada mais tarde.

O padre Anthony de Mello é, sem dúvida, um dos escritores que mais vendeu livros de espiritualidade. Seus textos e suas mensagens são um convite ao crescimento pessoal, mas também um exercício revolucionário muito inspirador. Em frases como “pegue uma oração e a agite até que todas as palavras caiam e sobre somente aquilo que incendeie seu coração”, ele nos demonstra a essência de sua personalidade.

Suas principais influências foram o mestre budista Theravada Chah Subhatto e o filósofo J. Krishnamurti. Assim, e embora já tenham se passado mais de trinta anos de sua morte, seus livros continuam sendo vendidos e inspirando as novas gerações. Poucas figuras nos ensinaram de maneira tão ilustrativa a resolver conflitos, a trabalhar a nossa liberdade e felicidade.

“O amor perfeito afasta o medo. Onde há amor não há exigências, nem expectativas, nem dependência. Não exijo que você me faça feliz. Minha felicidade não está em você. Se você me deixar, não sentirei pena de mim mesmo. Gosto imensamente da sua companhia, mas não me apego”.
-Anthony de Mello-

Anthony de Mello

A biografia de Anthony de Mello

Anthony de Mello nasceu em 4 de setembro de 1931 em Mumbai, na Índia. Ele pertencia a uma família católica de classe média. Seu pai, Frank, e sua mãe, Louisa, ambos nativos de um território português chamado Goa, esperavam que o filho mais velho prosperasse no negócio ferroviário ou, melhor ainda, que se formasse na Universidade.

No entanto, Anthony de Mello demonstrou desde cedo uma clara vocação: queria se tornar um sacerdote jesuíta. Foi em julho de 1947 que decidiu finalmente se unir à Companhia de Jesus no seminário de Vinalaya, nos arredores de Mumbai. Posteriormente, a partir de 1952, iniciou sua formação acadêmica. Primeiro, passou três anos em Barcelona, na ​​Espanha, estudando filosofia.

Mais tarde, viajaria para a Universidade de Loyola, em Chicago, para se formar como psicólogo. Então recebeu a influência e a inspiração de Carl Rogers, famoso psicólogo norte-americano, iniciador juntamente com Abraham Maslow da abordagem humanista na psicologia. Assim, ao longo dessa trajetória estudantil, De Mello pôde aprender com diferentes culturas e estudou espanhol, francês, português e marata.

Anthony de Mello e a busca pela espiritualidade em todas as religiões

Foi ao longo dos anos 70 que Anthony de Mello abriu sua mente e seu coração para a prática de meditação vipassana. Nesse momento, ele já começa a mostrar uma aproximação da espiritualidade budista, encontrando nela benefícios que viriam a enriquecer ainda mais tudo aquilo que os jesuítas lhe haviam ensinado.

Na sua visão, todas as religiões poderiam oferecer perspectivas curativas para o ser humano. Portanto, ele as aceitou e se inspirou em todas. Porque, em sua opinião, a resposta espiritual de Jesus Cristo era igualmente válida à apresentada por Confúcio, Lao Tzu e Buda. Desse modo, em livros como O canto do pássaro, publicado em 1982, Anthony de Mello define a espiritualidade da seguinte maneira:

A espiritualidade é o que consegue levar uma pessoa à transformação interior. Portanto, cada um deve encontrá-la à sua maneira. Alguns o farão através do modo tradicional. Outros o farão em outras perspectivas. Afinal de contas, não é espiritualidade se não funciona para você. Um cobertor já não é mais um cobertor se não te mantém quente.

Ao mesmo tempo, outra faceta conhecida desse jesuíta e psicoterapeuta indígena foi sua grande habilidade para realizar retiros espirituais, nos quais orientava e inspirava outras pessoas.  Ele tinha muito carisma e uma personalidade que muitos definiam como arrasadora. No entanto, para alguns ele não passava de um herege.

Pássaros voando saindo de mão

Ele se atreveu a formular ideias e defender posições que os católicos mais tradicionais não conseguiam entender. Era um mestre inter-religioso que apreciava e defendia igualmente o hinduísmo, o judaísmo, o budismo ou o catolicismo, porque todas as fórmulas religiosas eram, para ele, válidas e inspiradoras. Seu carisma sempre o fez ser convincente e arrastou consigo milhares de seguidores.

Um mestre espiritual nos Estados Unidos

Nos anos 1970, ele fundou na Índia a Assessoria Pastoral Sadhana. Posteriormente, dedicaria toda sua vida a introduzir a espiritualidade oriental, através de histórias e exercícios, nos Estados Unidos. Era um curandeiro espiritual e psicólogo que viajou de leste a oeste, ensinando às pessoas um tipo de oração baseada na meditação vipassana.

Suas palestras eram um verdadeiro sucesso. Assim como seus discursos, nos quais ajudava as pessoas a se focarem no presente, a serem mais conscientes de suas emoções, seus pensamentos e suas necessidades. A Universidade de St. Louis, por exemplo, o recebia todos os verões esperando seus cursos, assim como a apresentação de seus livros. Ele escreveu 18 obras no total, um sucesso absoluto de vendas para inspirar milhões de pessoas no mundo todo.

Desenho de Anthony de Mello

Infelizmente, Anthony de Mello morreu de forma repentina aos 55 anos. Um ataque cardíaco lhe tirou a vida em 1987 em Nova York. Desde então, seu legado espiritual e teórico se espalhou ainda mais, cumprindo de algum modo muitos de seus propósitos. Ele nos ensinou a ser mais conscientes de nosso valor e nos convidou, acima de tudo, a “despertar”, a entrar em contato conosco e com aquilo que nos rodeia. Somente assim encontraremos maiores oportunidades para ser felizes.

  • De Mello, Anthony (2008) Redescubrir la vida. Lumen