Aos meus pacientes, que nunca param de me ensinar

Nossos pacientes não vêm ao consultório com o propósito de nos ensinar algo, mas acabam fazendo isso implicitamente com sua clareza, seu comprometimento, seus processos e sua capacidade de tomar as decisões necessárias. Como todo bom professor, nossos pacientes nos ensinam pelo exemplo.
Aos meus pacientes, que nunca param de me ensinar

Última atualização: 05 Agosto, 2021

A psicoterapia é um processo vivencial e dialético, no qual o terapeuta e os pacientes se influenciam mutuamente, com aprendizagem e transformação mútuas. Não apenas o paciente pode mudar, aprender e se transformar, mas nós, terapeutas, também podemos fazer isso em maior ou menor grau (Araya, 2016).

A psicoterapia é um encontro humano muito especial que implica abertura e dedicação por parte do paciente e do terapeuta, podendo ser entendida como um processo em que o terapeuta se coloca a serviço do paciente, de forma que ambos possam ser transformados.

É interessante esclarecer o que significam os ensinamentos dos nossos pacientes. Na verdade, quando expressamos a um paciente o quanto o admiramos por sua coragem ou capacidade de decisão, e quão valioso seu exemplo é para nossa própria vida, surge nele um olhar de perplexidade e espanto, como se ele não acreditasse que também está nos ensinando e que também estamos crescendo (Araya, 2016).

A maioria das pessoas que vem para consulta faz isso estimulada pelas necessidades de melhorias internas  que, por sua vez, surgem depois de períodos de instabilidade. Os pacientes que procuram a terapia geralmente o fazem quando estão perto de perder o controle ou chegando ao fundo do poço. É quando os psicólogos percebem a grande força e valor dessas pessoas que, em vez de se perderem em desculpas, se confrontam.

“A psicologia não pode dizer às pessoas como devem viver suas vidas. No entanto, pode fornecer um significado para uma mudança pessoal e social eficaz. “
-Albert Bandura-

Jovem fazendo terapia

Aos meus pacientes, que me ensinam todos os dias

Nossos pacientes não vêm ao nosso consultório com o objetivo de nos ensinar algo, mas o fazem indiretamente através da sua clareza, seu comprometimento com seus próprios processos e com sua capacidade de tomar as decisões necessárias. Como qualquer bom professor faria, nossos pacientes nos ensinam pelo exemplo (Araya, 2016).

Meus pacientes me ensinaram, sem saber, que eu não tinha ouvidos para ouvir o que eu não havia experienciado. Eles me mostraram que o que uma pessoa pensa de si mesma é o que suas circunstâncias determinam, ou melhor, indicam. Eles me fizeram ver que muitas vezes o medo que temos do fracasso é consequência do quão severos somos com nós mesmos quando caímos ou falhamos.

Meus pacientes me ensinaram que você pode viver com ansiedade (ajustando-se conforme as situações e os mecanismos disponíveis) e que os pensamentos podem ser comparados a nuvens que derramam chuvas de palavras. Meus pacientes me ensinaram que o pânico pode nos paralisar, mas que isso ocorre somente quando não sabemos ouvir a nós mesmos.

Eles também me ensinaram que a depressão pode tirar nossos desejos e expectativas sobre o mundo, mas que nós temos as forças necessárias para sair dela e entender que, se as oportunidades não nos visitam, então podemos construir uma porta que leve até elas.

Em última análise, os pacientes me ensinaram a abrir espaço para a dor e a entender que, no final das contas, só possuímos aquilo que não podemos perder em um naufrágio.

“A percepção define a nossa realidade. O olho vê o que a mente está pronta para entender.
-Henri Bergson-

Homem fazendo terapia

O desejo de curar constitui metade da nossa saúde

A utilidade da psicoterapia não se restringe apenas à preocupação de “alcançar a felicidade”, porque isso é um conceito muito genérico e ilusório. Nossos pacientes nos ensinam a dar atenção a um propósito muito específico: aprender a nos controlar melhor e a não nos sentirmos mal.

A psicoterapia é o tratamento que visa a mudança de pensamentos, sentimentos e comportamentos. É realizada por um profissional que tenha formação e competências necessárias para facilitar essa mudança e o paciente/cliente que necessita de ajuda para o alívio de sintomas que produzem graus relevantes de sofrimento.

Não se trata de fazer os pacientes felizes, mas de ajudá-los a ter controle sobre suas vidas, além do conhecimento e da habilidade para melhorar seu bem-estar dentro dos contextos em que se encontram. Como disse o pai da logoterapia, Viktor Frankl, cada época tem suas neuroses e todas precisam da sua própria psicoterapia.

“Conheça todas as teorias. Domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas mais uma alma humana”.
-Carl Gustav Jung-

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  • Araya, C., & Brito, R. (2016). Lo que nuestros pacientes nos enseñan. Rev GPU12(1), 24-34.
  • Vitola Cervantes, K. S. (2017). Comprendiendo a Ariadna en su propio laberinto: un estudio de caso sobre las vivencias de un terapeuta en su intención de curar a un paciente farmacodependiente (Master’s thesis, Universidad del Norte).