Autoempatia: como se conectar afetuosamente com nós mesmos

07 Abril, 2021
Ame-se e cuide de si mesmo como você faz com os outros. Reconheça as suas próprias necessidades levando em consideração as dos outros...  Você pratica a autoempatia? Saiba por onde começar.

Como você está hoje? O que você está sentindo agora? Que necessidades, sentimentos e desejos existem em sua mente? A autoempatia é um exercício de bem-estar e saúde psicológica que costumamos negligenciar. Olhar para dentro de nós é o primeiro passo para qualquer tipo de empatia externa e, por sua vez, o ponto de partida para qualquer relacionamento enriquecedor consigo mesmo e com os outros.

Agora, por que às vezes deixamos de lado essa competência tão decisiva? Ao longo de nossas vidas, sempre fomos lembrados da importância da preocupação empática. Ou seja, poucas coisas são tão importantes quanto saber entender quem temos diante de nós, ter a capacidade de nos colocar no lugar do outro para entendê-lo e, então, agir de acordo.

No entanto, poucos nos explicaram que a melhor forma de praticar essa arte é partindo da autoconsciência emocional. Somente o eu empático que é capaz de ler as próprias necessidades e emoções e responder em harmonia de acordo com esse universo pessoal é capaz de alcançar a felicidade.

Jovem com óculos e luzes

O que é a autoempatia?

A autoempatia é a capacidade de se conectar com você mesmo de uma forma atenciosa e respeitosa. É importante focar nessas duas últimas dimensões: “afeto” e “respeito”. Porque, embora seja verdade que todos nós praticamos a conversa interior e temos a capacidade de nos conectar com o nosso ser, nem sempre o fazemos de maneira adequada. Estamos, por exemplo, muito inclinados a alimentar o diálogo negativo.

Somos também definidos por uma tendência sutil à crítica, ao desgaste, àquela autocomunicação que nos enche mais de ruído do que de calma, que inflama preocupações e que não oferece soluções. Assim, essa falta de autoempatia válida e enriquecedora nos leva a alimentar estados de estresse e ansiedade. Também somos aquelas pessoas acostumadas a dar aos outros mais do que oferecemos a nós mesmos.

Assim, embora Daniel Goleman não tenha falado sobre a autoempatia em seu livro Inteligência Emocional, incluiu esta competência no que se conhece como “autoconsciência emocional”. Trata-se de monitorar seus próprios estados internos, preferências, intuições, necessidades e cada emoção que surgir.

Vamos entender como fazer isso a seguir.

Chaves para desenvolver a autoempatia

Godfrey T. Barrett-Lennard é um professor de psicologia na Universidade Murdoch (Austrália) que conduziu pesquisas sobre este tópico. Algo que ele explica neste trabalho é que a tarefa de todo terapeuta durante a psicoterapia é treinar a pessoa na competência básica e essencial que é a autoempatia.

A razão é que muitas pessoas passam boa parte de suas vidas negligenciando a forma como se sentem. São muitas as pessoas que se diluíram em seu ambiente imediato (parceiro, filhos, etc.) e que não sabem mais acessar a si mesmas, suas emoções, pensamentos, desejos, deficiências… Portanto, não devemos deixar essa tarefa de lado. Restaurar a empatia consigo mesmo é um assunto prioritário.

Essas seriam as chaves para conseguir.

Observe sem julgar, atenda-se com abertura

A autoempatia exige que você perceba e reconheça que está ali, que há uma parte de você que sente, sofre, está animada, triste e esperançosa. Implica que você seja capaz de se observar sem fazer julgamentos, sem se criticar por experimentar certas coisas, sem se repreender porque hoje você se sente irritado, preocupado ou com medo.

Atender-se de forma aberta e contínua (sem deixar para depois) aumentará a sua capacidade de gerar mudanças que o aproximam do bem-estar.

Fale consigo mesmo como se você fosse seu melhor amigo

Se você não falar consigo mesmo com respeito, quem o fará? Se você não consegue se comunicar consigo mesmo de maneira amorosa, como pode esperar que os outros o façam? Esteja ciente disso: a autoempatia exige que você fale consigo mesmo como se fosse o seu melhor amigo.

A autoconsciência emocional é nutrida pela compreensão e pela capacidade da escuta absoluta a partir da qual nos aceitamos como somos. Sem filtros, sem rachaduras ou vergonha.

Perdoe-se hoje, amanhã e sempre

A autoempatia, para ser útil, autêntica e significativa, não deve partir da rejeição ou da críticaVocê pode estar com raiva de si mesmo porque no final sempre acaba cometendo os mesmos erros. É possível que se machuque ter deixado oportunidades para trás, que você se sinta incomodado com a sua própria pessoa por não ter sido corajoso o suficiente para certas coisas…

Esses sentimentos de auto-rejeição o impedem de exercer uma autoempatia saudável e restauradora. Portanto, é sempre um bom momento para começar a perdoar a si mesmo como merece. Ofereça-se o seu perdão por cometer erros todas aquelas vezes na sua vida; afinal, você não tinha experiência. Perdoe-se por permitir que certas pessoas o machuquem, porque ninguém tem uma bola de cristal para saber o que iria acontecer.

Dê a si mesmo o perdão que você merece para se curar conforme você precisa, e tenha empatia com você mesmo como deveria.

Perdoe-se hoje, amanhã e sempre

Autoempatia: a vida é um desafio e eu aceito as minhas luzes e sombras

Raiva, ira, medo, decepção, angústia, preocupação… A vida é um desafio contínuo e sempre nos colocará à prova. Em circunstâncias adversas, é normal sentir emoções complicadas. Negligenciar essa anatomia interna, desviar o olhar do que você sente, pensa, precisa e se preocupa o levará ao desamparo, a perder o controle e a aumentar a quantidade de estresse e ansiedade.

A autoempatia é tolerar todos aqueles oceanos turbulentos que às vezes navegam dentro de você. Aceitar o que sente e dar a si mesmo o amor de que precisa é uma forma catártica e ideal de começar a gerar mudanças, de partir desse ponto de partida em direção ao equilíbrio e à calma.

Alfred Alder disse que a empatia era a capacidade de olhar com os olhos do outro, ouvir com os ouvidos do outro e sentir com o coração do outro. Pois bem, lembremo-nos sempre de que não é possível fazer nada disso com autenticidade e competência se antes não formos capazes de nos olharmos com curiosidade, de nos ouvirmos com franqueza e de fazermos bater o nosso coração pelo amor a nós mesmos.

  • Barrett-Lennard, G. (1997). The recovery of empathy: Toward others and self. In Bohart, A. & Greenberg, L. , Empathy reconsidered: New directions in psychotherapy (pp. 103–121). Washington, DC: American Psychological Association Press. doi:10.1037/10226-004
  • Neff, K. D., & Dahm, K. A. (2015). Self-compassion: What it is, what it does, and how it relates to mindfulness. In Handbook of mindfulness and self-regulation (pp. 121-137). Springer, New York, NY.
  • Sherman, N. (2014) Recovering lost goodness: Shame, guilt, and self-empathy. Psychoanalytic Psychology 31: 217–235.