Benefícios de um retiro de silêncio de 10 dias

· fevereiro 26, 2019
Os benefícios de um retiro de silêncio de 10 dias são inúmeros. Aprendemos a estar com nós mesmos, assim como a valorizar a simplicidade da vida e a nos importar muito mais com os outros.

Eu poderia escrever dezenas de artigos sobre os benefícios de um retiro de silêncio de 10 dias. Poderia passar horas e horas falando sobre o que um retiro espiritual fornece. Tantas coisas poderiam ser ditas… mas vou dizer apenas algumas.

Mostrarei aquelas que podem ser compartilhadas, porque a grande maioria é pessoal e individual. São experiências tão profundas ​​que, por mais palavras que usemos, são impossíveis de transmitir. Além da impossibilidade de transmissão através do meio oral ou escrito, pertencem à esfera interna, do privado.

Quando fiz meu primeiro retiro de 7 dias, dois anos atrás, um dos primeiros impulsos ao sair foi falar sobre a experiência. Naquele momento percebi que nem todos estão preparados para entender o que, para alguns, pode ser uma experiência transformadora. Desde então, não falo muito a respeito, a menos que me perguntem, ou o faço muito superficialmente.

De fato, ao sair do meu último retiro, uma das primeiras coisas que me perguntaram foi: “Dez dias sem falar com ninguém e sem usar o celular?”, “Sim”, respondi, “Como você é estranho”, me responderam.

O que é um retiro?

Um retiro consiste basicamente em se retirar da vida. Dito assim, parece um pouco sombrio, mas vamos explicar melhor.

No dia a dia nos deparamos com situações que provocam raiva, assim como pessoas que nos irritam. Enfrentamos acontecimentos que nos entristecem. Em resumo, devemos enfrentar, de maneira mais ou menos contínua, situações que criam desconforto. Por outro lado, também somos vítimas de apegos que, em um extremo grave, poderiam ser classificados como vícios.

Portanto, um retiro consiste em afastar-se temporariamente do que nos causa tanto desconforto para aprender a estar com nós mesmos. Isso é feito com a ajuda dos ensinamentos de um professor altamente qualificado, que orienta e estabelece algumas orientações a seguir.

Os benefícios da meditação

Os primeiros momentos

Sendo meu terceiro retiro, eu já tinha alguma experiência, mas os primeiros momentos são sempre diferentes. Além disso, este retiro consistia no final do curso para ser um instrutor em meditação budista, então eu senti uma grande responsabilidade.

Entre um retiro e outro, a vida continuou e seguimos acumulando experiência. Ao atravessar a porta do centro de retiro você sabe que, apesar de estar acompanhado de outros participantes, ficará sozinho com a sua mente. Sem celular, sem computador, sem Internet, sem contato com o exterior.

Em nosso dia a dia, evitamos constantemente nossos pensamentos mais desconfortáveis. Nós não toleramos pensar sobre o que nos causa dor e é por isso que sempre recorremos ao celular ou a qualquer outra atividade para nos distrair. Em um retiro você está sozinho diante do perigo: sua mente e seus pensamentos.

Meditação e pensamentos em um retiro de silêncio

Meditação

Ao se tratar de um retiro de silêncio de final de curso de Instrutor em Meditação Tibetana, meditávamos entre 5 e 6 vezes por dia como uma prática, além das meditações individuais que cada um quisesse fazer. Nós também recebíamos ensinamentos. Este era nosso único estímulo auditivo, as palavras do professor algumas horas por dia. Para o restante, silêncio.

Ao meditar, você se torna consciente da quantidade de pensamentos que às vezes passam pela sua mente. Pensamentos que você achou que foram superados e outros mais atuais. Alguns permanecem em sua mente como um punhal nas costas.

Você se senta de pernas cruzadas, respira profunda e lentamente e deixa o pensamento passar, observando-o sem julgar. No entanto, quando termina a meditação, ele volta novamente.

Pensamentos

Os pensamentos que parecíamos ter sob controle começam a emergir, a surgir como a lava de um vulcão completamente fora de controle. Aparece a ponta de um pensamento e, no dia a dia, nós o escondemos.

No retiro, não apenas a ponta do iceberg aparece, mas todo o gelo começa a emergir e, pouco a pouco, você vê seu tamanho: enorme! Você percebe que muitos pensamentos são como o iceberg que afundou o Titanic: por fora acredita que não o afetam tanto, mas disfarçadamente estão ferindo seu interior de tal forma que, gradualmente, estão afundando sua saúde emocional, seu ânimo, sua autoestima… Parabéns, você está começando a enfrentar seus próprios demônios!

“Em um retiro de silêncio, todo pensamento perturbador parece se tornar um dragão feroz, mas devemos saber que ele é fruto de nossas mentes e manter a calma”.

Mulher praticando o silêncio

Não é raro que os participantes tenham ataques de ansiedade, tremores, sudorese, vontade de chorar, palpitações, hiperventilação, etc. Esses sintomas não são descritos para assustar, e sim pelo contrário, para que saibamos tudo o que acontece quando realmente encaramos nossa mente, para que saibamos o quanto escondemos de nós mesmos. Quando temos que encarar, nem sabemos por onde começar.

De alguma forma, essa ansiedade também poderia ser explicada como uma síndrome de abstinência da vida cotidiana. Estamos acostumados a uma certa rotina, a ir daqui para lá, mas em um centro de retiro você tem um cronograma definido. Não tem acesso à tecnologia, não pode sair do seu quarto no meio da noite e ir para a geladeira para tomar um sorvete.

Esses são hábitos que devemos eliminar para adotar um cronograma e comportamento diferentes, e isso pode causar algum desconforto. Além disso, ao se tratar de um retiro de silêncio, também não podemos falar. Tudo é diferente.

Mas… quais são os benefícios de um retiro de silêncio de 10 dias?

O curioso é que os benefícios do retiro de silêncio não começam a ser sentidos até que você retorne à vida diária. Estando lá você sente tranquilidade, serenidade. Mesmo que você tenha estado emocionalmente agitado por alguns dias, tudo volta ao normal.

A mente está muito mais calma, você não precisa falar, não precisa de muito estímulo externo para ser feliz. Você é suficiente consigo mesmo e pouco mais.

Você sai do centro de retiro a caminho de casa e começa a ser invadido pelo ruído do ambiente: carros, pessoas falando, gente gritando, batidas… Começa a estar consciente do ruído excessivo pelo qual estamos envolvidos e que nos provoca um estado de estresse quase de forma inconsciente.

Aqueles que moram sozinhos têm essa vantagem, mas quando se vive com mais pessoas em casa, um está com a TV ligada, outro o computador, outro com o celular, e quase todos estão vendo coisas que não fornecem nada realmente útil.

“Nosso corpo e nossa mente têm a capacidade de curar a si mesmos se lhes permitirmos descansar”.
-Thich Nhat Hanh-

Quando você começa a se relacionar com as pessoas novamente, percebe que muitas das conversas são puramente sociais, ou seja, para preencher uma lacuna, e não contribuem para o crescimento. Isso não significa que elas sejam negativas, mas vale uma reflexão.

Falamos um pouco sobre o país, sobre os amigos, sobre esportes, mas… melhoramos como pessoas? Depois de dez dias intensos dedicados ao desenvolvimento interior, você se torna consciente da quantidade de informação supérflua usada apenas para falar.

Você aprende a apreciar o simples, o que realmente dá valor às nossas vidas. Quando você visita um shopping, observa apenas a opulência, o consumismo e o materialismo. Abrimos os olhos e percebemos que desde pequenos nos ensinaram a buscar a felicidade nas coisas externas, mas que ela está dentro de nós. Felizmente, podemos aprender a cultivá-la.

Fase da caverna, do vale e do cemitério

A questão do retorno ao dia a dia é um aspecto importante, uma vez que muitos podem ficar obcecados em falar apenas sobre o que os ajuda em seu desenvolvimento interior. No entanto, o ideal é alcançar o equilíbrio. Não deixar de lado nossos amigos ou nossa família, mas também não deixar de lado, por exemplo, nossas práticas meditativas.

Lama Rinchen Gyaltsen conduziu o curso de treinamento em meditação e sempre falava das três fases do caminho espiritual:

  • Fase da caverna.
  • Fase do vale.
  • Fase do cemitério.

A primeira fase consiste em se afastar de tudo que o afeta negativamente ou cria apego e se preparar. É um treinamento mental.

Quando acreditamos que estamos prontos, descemos ao vale para “lidar” com o dia a dia e ver até onde evoluímos.

Finalmente, a fase do cemitério já estaria um pouco desatualizada. Antigamente, na Índia, os cemitérios eram lugares onde era possível ver corpos podres. Então dizia-se que se alguém fosse capaz de meditar em um cemitério, seu nível de evolução era realmente alto.

Felizmente, não precisamos ir meditar em um cemitério e, se quisermos fazê-lo, hoje em dia, pelo menos no Brasil, não teremos corpos à vista.

Muitos, quando saem do retiro, fingem que tudo permanece tão calmo quanto na “caverna”, mas isso é muito difícil e pouco realista. Todos os dias nos bombardeiam com centenas de estímulos e temos que enfrentar diferentes situações e contratempos.

No entanto, também não é saudável ser levado pelo vórtice insano e extremamente materialista da fase do vale. Assim, o ideal é saber interagir com o nosso ambiente, sendo capazes de manter uma certa calma e não deixar nossas práticas pessoais de lado.

Vela em retiro de silêncio

Recomendações para fazer um retiro de silêncio

Primeiramente, é aconselhável começar com um retiro curto de 2 ou 3 dias. Acima de tudo, é preciso ser algo guiado. Os três retiros que fiz (7 dias, 3 dias e 10 dias) foram orientados. Eu comecei diretamente com um de 7 dias que mudou a minha vida, mas que poderia causar um certo grau de ansiedade para muitos.

Por outro lado, é importante conhecer o centro, isto é, buscar referências, tentar encontrar pessoas que participaram, consultar o site, ver quem são os mestres… Esta informação nos dará garantias sobre o local onde será feito o retiro.

Outro aspecto importante é saber que nem todos os retiros são de silêncio. Muitos são de práticas meditativas, mas não exigem silêncio, embora seja verdade que, de alguma forma, talvez inconscientemente, as pessoas tendam a falar menos.

Agora, é essencial saber que, se fizermos um retiro silencioso, podemos sentir ansiedade e desconforto por alguns dias. É uma fase muito normal. Neste caso, se não soubermos o que fazer, é melhor consultar o professor e ele nos dará as instruções para melhorar nossa situação. Acima de tudo, não devemos nos assustar.

Comentários finais

Muitas pessoas me dizem que jamais fariam um retiro de silêncio, mas eu gostaria de recomendar a experiência, mesmo que seja apenas um fim de semana. Gastamos muito dinheiro em caprichos, investimos muito tempo em tarefas vazias; que mal poderia surgir de investir um pouco de dinheiro e tempo em algo tão benéfico quanto o desenvolvimento interior?

“Os tigres, leões, elefantes, ursos,

as cobras e todos os tipos de inimigos

os vigilantes seres dos infernos,

os espíritos malignos e demônios:

apenas amarrando a mente,

todos eles também serão amarrados.

Apenas controlando a mente,

todos eles também estarão controlados”.

-Shantideva-

  • Pagis, M. (2015). Evoking equanimity: Silent interaction rituals in Vipassana meditation retreats. Qualitative Sociology38(1), 39-56.
  • Monk-Turner, E. (2003). The benefits of meditation: experimental findings. The Social Science Journal40(3), 465-470.