Os benefícios de ler durante uma viagem

fevereiro 6, 2019
Embora nem todas as pessoas consigam se concentrar durante o trajeto, ler durante uma viagem é uma forma sensacional de aproveitar o tempo, contextualizar leituras e de potencializar nossa saúde cerebral e reserva cognitiva. 

Mais que um prazer, ler durante uma viagem é uma necessidade. É descansar a cabeça no vidro do metrô, do trem ou do ônibus para mergulhar em outros mundos, em outras vidas. Estes mares de letras nos permitem diminuir distâncias, nos distanciar do barulho e da rotina para dar sentido ao tempo e iniciar, assim, nossas jornadas de trabalho com o ânimo renovado.

Ray Bradbury dizia em um de seus livros que neste mundo é preciso escrever e ler de forma compulsiva para que a realidade não nos destrua. Cabe dizer, no entanto, que não é necessário alcançar tal extremo. Trata-se apenas de transformar uma ideia em realidade: este hábito nos permitiria, sem dúvida, criar um mundo muito melhor, mais empático, mais sensível e instruído.

Quem usa o transporte público com frequência e, além disso, é um bom observador, provavelmente notou uma realidade que vem nos acompanhando há anos. Os usuários destes meios se dividem em três tipos: primeiro há aqueles que se limitam a abstrair seu olhar ao infinito (e consequentemente seus pensamentos), enquanto esperam sua parada chegar.

Por outro lado, existem aqueles que, quase sem pestanejar, mergulham no universo infinito de seus smartphones. Por último, existem aqueles que são leitores admiráveis e incansáveis que, seja com seus dispositivos eletrônicos ou livros tradicionais em papel, aproveitam o tempo do trajeto para ler algumas páginas, um capítulo, seja de pé ou, se tiverem sorte, sentados.

Os benefícios desta prática, desta fidelidade leitora, são imensos. Vejamos mais sobre isso a seguir.

“Para viajar longe, não há melhor espaçonave do que um livro”.
-Emily Dickinson-

Quadro de Augustus Leopold Egg

Ler durante uma viagem: momentos de saúde, sabedoria e qualidade

O quadro da imagem acima pertence a Augustus Leopold Egg. Foi um artista de breve trajetória devido a sua morte, mas esta obra adquiriu uma fama destacável: The Travelling Companions (1862). Amigo íntimo de Charles Dickens, deixou ao mundo esta simbólica e fascinante pintura que evoca o passado e o futuro através de duas jovens que viajam em um trem.

A da esquerda, adormecida, com as mãos entrelaçadas e situada em uma paisagem marítima representa a classe média vitoriana mais velha. Diante dela, outra jovem segura um livro, está imersa em sua leitura e, ao seu lado, vemos um cenário montanhoso onde pode ser apreciado um núcleo urbano. Da mesma forma, esta jovem está situada em harmonia com a própria direção do trem (a outra está de costas)  representando, assim, a outra classe média vitoriana na qual as mulheres estão despertando e ocupando posições de maior transcendência social.

Poucas imagens são, sem dúvida, tão simbólicas em relação ao que a leitura pode nos oferecer. Isso pode ser resumido em poucas palavras e também em qualquer meio de transporte:   progresso, avanço, conquistar novos horizontes, etc.

Ler durante uma viagem, outro tipo de imersão

A leitura é portátil. Não é necessário estar na cama ou no sofá para apreciar um livro. Ler durante uma viagem é um modo sensacional de aproveitar o tempo, de fazer destes intervalos de inatividade espaços de grande ativação para o nosso cérebro.

Estudos como o realizado pela Dr. Maja Djikic, psicóloga da Universidade de Toronto, revelam que a leitura nos oferece um botão de pausa único para treinar e fortalecer nosso cérebro. É um tempo aproveitado no qual investimos em saúde cerebral para melhorar nossas funções executivas, reduzimos o estresse e ganhamos novos conhecimentos para fortalecer nossa reserva cognitiva.

Homem lendo no trem

O conteúdo é mais impactante

Ler durante uma viagem proporciona um contexto singular para a própria leitura. Não falta quem, por exemplo, leve consigo uma série de livros específicos quando viaja a determinados destinos. Poucas coisas são tão prazerosas como levantar o rosto e estar, às vezes, nos mesmos países, cenários ou contextos do último livro que lemos.

Embora não seja necessário visitar os lugares exatos dos nossos livros para experimentar as sensações que o autor nos transmite, estar fora dos muros da nossa casa proporciona novos ingredientes à leitura: sons, luzes, rostos, sensações, etc. Estas experiências tornam o processo de leitura muito mais interessante.

Melhora a capacidade de concentração

A verdade é que nem todas as pessoas conseguem se concentrar em sua leitura enquanto viajam. Muitas vezes, os ônibus ou metrôs se destacam porque não possuem a calma, por exemplo, de uma biblioteca. Nosso mundo urbano é uma criatura barulhenta, frequentemente incômoda e incrivelmente variada quanto aos tipos de sons.

Por essa razão, é interessante saber que quem se habituou a este exercício desenvolveu habilidades adaptativas de concentração e foco. A competência tão sofisticada de ler, compreender e transcender a própria leitura – para visualizar estes mundos e estas tramas – é um valor que pode ser aplicado em qualquer outro âmbito.

Mulher lendo em trem enquanto viaja

Para concluir, cabe sinalizar algo que os especialistas advertem: não é aconselhável ler quando há um movimento excessivo no meio de transporte em que estamos. Isso não é bom para os nossos olhos. Mas além desse detalhe, nunca é demais levar um livro conosco quando estivermos a caminho do trabalho ou quando formos viajar.

É uma forma sensacional de aproveitar o trajeto, de ter outro tipo de viagem em um meio de transporte mais interessante, apaixonante e produtivo. O único perigo que corremos com isso é, talvez, passar da parada. No entanto, o resto são só benefícios.