Billy Elliot: destruir os preconceitos dançando

Billy Elliot entrou para a história do cinema por destruir preconceitos e construir uma sociedade melhor. A partir da perspectiva de uma criança, o mundo dos adultos se torna hostil, mas a sua vontade de perseguir o seu sonho conseguirá derrubar qualquer barreira.
Billy Elliot: destruir os preconceitos dançando

Última atualização: 19 março, 2022

Billy Elliot foi um dos filmes que abriram o novo milênio. No ano 2000, estreava este filme de Stephen Daldry que, sem saber, trouxe à tona um discurso que, mesmo 20 anos depois, ainda é totalmente atual.

Ele abriu o novo milênio porque nos trouxe um discurso que marcaria definitivamente o futuro e romperia com o que veio antes. É verdade que esta não é a primeira vez que vemos filmes sobre a tolerância ou a quebra dos moldes de gênero, mas Billy Elliot foi diferente. Nele, isso era feito a partir do olhar de uma criança que, sem preconceitos, perseguia o sonho de ser bailarino.

O que esse menino não sabia é que a sociedade estaria contra ele, que ele receberia um rótulo que nem sequer o identificava e que o seu amor pela dança traria conflitos até mesmo com a sua própria família. No entanto, o mais interessante nem é tanto observar os preconceitos da sociedade, mas sim a forma como uma criança consegue destruir esses valores obsoletos e ensinar à sua família o poder da aceitação e tolerância, deixando assim os preconceitos de lado.

O sucesso do filme catapultou o seu protagonista, Jamie Bell, para a fama; também inspirou uma música de Elton John, Electricity, e transformou em mito a obra que a inspirou.

Billy Elliot é um filme simples, mas com uma grande mensagem. Ele triunfa pela proximidade, vence pela luta individual e pela aceitação familiar em um mundo cheio de preconceitos. Também traça paralelos entre o sistema opressor e o próprio ambiente familiar.

Graças a um elenco totalmente engajado e uma história simples, porém emocionante, Daldry atingiu o seu objetivo. Ainda hoje, continuamos a reiterar a importância do seu longa-metragem como uma lição de vida e tolerância.

[incorporar]https://www.youtube.com/watch?v=ScWt2ksQdV0[/incorporar]

Billy Elliot: deixando os preconceitos de lado

Billy é um menino que mora em uma área humilde juntamente com a sua família, composta por seu pai, Jackie; seu irmão, Tony; e sua avó. O pai e o irmão representam os valores que muitas vezes associamos à virilidade.

Após a morte de sua mãe, a família fica mergulhada em uma situação bastante complicada e sobrevive com o salário do irmão e do pai que são mineradores. Por sua vez, a avó, apesar da idade avançada, parece às vezes ter delírios da juventude, lembrando do seu passado como aspirante a bailarina.

Billy Elliot é um filme que nos convida a deixar os preconceitos de lado. As crianças nascem livres desses preconceitos e é a sociedade que vai moldando-as até que se adaptem aos padrões estabelecidos. Atualmente, talvez tenhamos progredido um pouco e esses papéis de gênero, felizmente, estão sendo cada vez mais desacreditados. Porém, a verdade é que, no início do milênio, a marca do preconceito ainda estava muito presente na ordem do dia.

Além disso, Billy Elliot não é apenas um filme sobre um menino que quer dançar em um mundo que associa a dança ao feminino, mas sim um filme que nos convida a perseguir os nossos sonhos, independentemente do rótulo que tiverem. Assim, nem o futebol é só para os meninos, nem o balé é só para as meninas.

Diante de um pai que o leva para o boxe, Billy se rebela e decide dedicar o seu tempo à dança, ainda que isso implique a zombaria e a discriminação daqueles ao seu redor.

É especialmente interessante ver como o filme insiste em destruir preconceitos, uma vez que o mais fácil seria dizer que Billy, além de querer ser bailarino, também seria homossexual. Porém, nada poderia estar mais longe da verdade. De fato, Billy forma uma bela amizade com Michael, um menino de sua vizinhança que o apoia em todos os momentos e que, ao contrário de Billy, tem interesse em se vestir de mulher e é homossexual.

Mais uma vez, são os adultos que colocam barreiras, que interrompem a amizade e colocam máscaras no nosso verdadeiro eu. Billy nunca julga Michael. Pelo contrário, diverte-se com ele e aceita a sua homossexualidade sem nem sequer falar do assunto. Mas não porque isso seja tabu, mas sim porque o preconceito não é algo que o define. Para ele, Michael é seu melhor amigo e a amizade está acima de tudo.

Billy aprendendo balé

O contexto histórico e cultural

Embora Billy Elliot tenha sido lançado no ano 2000 e nos fale sobre tolerância, ele também nos apresenta um discurso político e cultural muito interessante.

O pai de Billy é mineirador e estamos nos anos 80, em um vilarejo no condado de Durham, no norte da Inglaterra. Naquela época, Margaret Thatcher era a primeira-ministra do Reino Unido e havia iniciado uma política que abalaria o norte do país, especialmente as classes trabalhadoras.

O governo Thatcher implementou duras medidas econômicas que tiveram como resultado um alto desemprego, mais especificamente nas áreas mais industriais do país. Logo, os mineradores se tornariam o seu alvo, levando a um esforço para privatizar e arrancar o poder dos sindicatos.

Thatcher ganhou infinita inimizade entre as classes trabalhadoras, dando origem à greve dos mineradores de 1984 a 1985, momento em que se passa a ação do filme. Além disso, também insistiu em privatizar e concentrar o poder em Londres.

Essa decisão traria consequências que, até hoje, provocam discordância no Reino Unido. Mas o que é certo é que a greve fracassou e, como consequência, o thatcherismo sairia como o grande vencedor.

O filme, embora tenha como fio condutor a paixão de Billy pela dança, é profundamente marcado pelo movimento minerador que caiu diante do poder de Thatcher.

A importância da greve está presente durante o filme todo, embora às vezes alguns mineiros, como o pai de Billy, tenham que abaixar a cabeça diante do poder e ir trabalhar. Afinal, em uma relação entre opressor e oprimido, o oprimido tem pouco ou nada que possa fazer.

O pai de Billy, muito a contragosto, opta por trabalhar. Uma ação que, vista unicamente a partir da perspectiva da tolerância, parece ser simplesmente uma demonstração do amor de um pai pelo seu filho. Mas, vista a partir do contexto histórico em que a ação se passa, a verdade é que ela nos espanta.

Não vemos mais um pai lutando pelo futuro do filho, mas sim um pai jogando pedras no próprio telhado para dar um futuro melhor ao filho. Um pai que, preconceitos à parte, sabe que o filho não terá um futuro sem a sua ajuda e que, muito a contragosto e diante de uma situação injusta, cede ao opressor porque simplesmente não tem outra escolha.

Vemos essa situação de desigualdade perfeitamente refletida no momento em que Billy e o pai chegam a Londres para fazer as provas de dança. Momento em que fica claro que Billy é avaliado por um júri que parece não vir do mesmo mundo que eles, apesar de estarem a poucos quilômetros de distância.

Uma rica sociedade londrina, diante do norte esquecido. Alguns preconceitos que, aparentemente, não estavam apenas no homem que temia pela virilidade do filho, mas também até mesmo nas esferas mais altas.

Preconceitos que, sem dúvida, podem atrapalhar sonhos e arruinar os desejos de muitos, mas que uma criança se encarrega de destruir dizendo que, quando dança, sente-se como o fogo, como a eletricidade. Porque o seu amor pela dança vai muito além, porque o seu amor pela dança pouco ou nada tem a ver com o lugar onde nasceu, com a sua orientação sexual ou ainda com o tamanho da casa em que mora.

Em resumo, Billy Elliot é uma lição de humanidade que vem pelas mãos daquelas que ainda não foram corrompidas: as crianças.

“Eu não posso explicar. Quando eu danço, eu esqueço tudo. É como se eu desaparecesse. Eu sinto uma mudança no meu corpo todo, como se tivesse um fogo. E eu fico ali. Voando. Como um pássaro. Como a eletricidade.”

-Billy Elliot-