Albert Camus: a biografia do inesquecível autor de “A Peste”

Albert Camus partiu desse mundo muito cedo e de forma dramática. No entanto, seu legado permanece como um refúgio literário onde podemos descobrir como o absurdo se entrelaça com a esperança, demonstrando a capacidade de superação do ser humano.
Albert Camus: a biografia do inesquecível autor de “A Peste”

Última atualização: 10 Março, 2021

Hoje vamos expor uma breve biografia de Albert Camus, o segundo escritor mais jovem da história a obter o Prêmio Nobel de Literatura. Seu trabalho imenso, reflexivo e inspirador engloba o cerne da consciência humana de toda uma época. Obras como A Peste e, principalmente, O Estrangeiro, são romances imortais que representam o ápice do existencialismo — gênero no qual o absurdo da vida se entrelaça à dor e ao peso do passado.

Através da história literária, é comum lembrar da morte de Camus, em janeiro de 1960, como uma das mais inesperadas. Poucos dias antes de falecer, o autor nascido em um bairro de Argel comentou com alguns amigos que não havia desfecho mais absurdo para a vida do que falecer em um acidente de carro. Curiosamente, este seria o final de sua própria vida; ele era o passageiro no carro de seu editor literário. O pneu explodiu e o carro se lançou contra uma árvore.

Camus, que se definia como um “absurdista”, pois descrevia o duro absurdo da sociedade do século XX, terminou a vida da mesma maneira, deixando um vazio precipitado no mundo literário. Ele tinha 47 anos e havia recebido o Nobel apenas três anos antes. Foi uma das figuras de maior destaque da cena literária francesa, além de amigo e eventual antagonista intelectual de Jean-Paul Sartre.

“Qualquer homem, ao virar uma esquina, pode experimentar a sensação do absurdo, pois tudo é absurdo.”
-Albert Camus-

Albert Camus diante de paisagem

A biografia de Albert Camus

Boa parte da obra de Camus é tingida pelas marcas das Guerras Mundiais e de como esses absurdos marcaram grande parte do século XX. As raízes desses sentimentos também podem ser encontradas em seu próprio histórico familiar.

Nascido em 1913 na Argélia, ele perdeu o pai muito cedo em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Por consequência dessa perda, o Estado lhe ofereceu uma bolsa de estudos que lhe permitiu se formar em Filosofia e Letras.

Sua vida em Argel foi humilde e, desde cedo, se interessou por Nietzsche e André Gidé, passando horas diante de livros em bibliotecas, o que despertou uma grande paixão pelas Letras e pela Filosofia. Durante a adolescência, ele descobriu que sofria de tuberculose algo que limitou sua dedicação a outra de suas paixões: o esporte. 

Além do esporte, a doença também comprometeu outra de suas aspirações: a docência. Ele foi rejeitado como professor, e também como soldado, quando tentou se alistar em 1939. Nessas circunstâncias, Camus escolheu outra área profissional, o Jornalismo, e com o tempo, acabou se tornando correspondente do Argel Républicain.

Camus, o jornalista

Albert Camus se tornou um jornalista de voz própria, reacionária e idealista. Tanto que, devido ao tom reacionário de seus artigos, o governo acabou proibindo seu jornal em 1940. Nesse mesmo ano, sua vida mudou por completo quando se casou com Francine Faure.

Foi então que ele se mudou de Argel para Paris, tornando-se o chefe de um jornal clandestino, o Combat. Neste jornal, ele denunciou os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki.

Durante essa época como diretor do jornal, Camus escreveu e publicou sua principal obra: O Estrangeiro. Nas páginas deste livro, ele destrincha sua filosofia do absurdo e de um mal-estar situado entre a melancolia e a ironia existencial que caracterizavam aqueles anos, de acordo com boa parte dos filósofos daquela época.

Em 1943, ele começou a trabalhar para uma das mais importantes editoras francesas: Gallimard. Na mesma época, assim que os alemães deixaram Paris, ele continuou com suas publicações esquerdistas, independentes e reacionárias.

Além de escrever seus artigos, Camus ocupava suas noites com sua produção literária, dando forma a obras igualmente importantes como Le malentendu e Calígula. Posteriormente, viria um de seus livros mais notáveis: A Peste.

Pintura de Albert Camus

Albert Camus e Jean-Paul Sartre

A história entre Camus e Sartre foi um espetáculo de admirações, hostilidades e disputas contínuas a respeito de como enxergar o existencialismo. Ambos figuravam entre os mais influentes intelectuais na França dos anos 40 e 50 e representavam, igualmente, o existencialismo francês e a ideologia de esquerda.

Por um lado, Sartre defendia que toda pessoa deveria ter um compromisso político com os demais. Ele pensava o mesmo sobre a Literatura e a Filosofia, ressaltando que ambas eram subordinadas ao contexto histórico e popular. Por outro lado, Camus divergia em vários aspectos; por exemplo, para ele, a Literatura se estendia para além da Filosofia e do idealismo político. Escrever, para Camus, era reflexo de uma liberdade em si que não deveria estar subordinada a coisa alguma.

A história de um amor secreto

Ainda em Argel, quando trabalhava como redator no jornal Combat, Camus iniciou uma relação afetiva com María Casares, uma atriz galega que era filha do político Santiago Casares Quiroga. Essa relação continuou mesmo depois que ele se casou e teve filhas gêmeas.

Camus e Casares basicamente tiveram uma relação de correspondência que durou quase duas décadas. Este amor ficou registrado numa coleção imensa de cartas que refletia toda admiração, desejo, existencialismo, poesia, paixão e ternura intelectual de uma das histórias afetivas mais bonitas na história da Literatura. A última correspondência entre os dois é datada de 30 de dezembro de 1959. Camus viria a falecer no dia 04 de janeiro de 1960.

Camus e sua esposa

Quando analisamos a biografia e a vida de Albert Camus, vemos que ela foi permeada pelo mesmo absurdo que ele se dedicou a retratar em suas obras. Essencialmente, o contraditório também molda a magia das nossas existências, pois é nele que encontramos um refúgio de superação pessoal independentemente de quaisquer dificuldades que nos cerquem.

Além da sua filosofia, Albert Camus nos presenteou, em seus livros, com exercícios contemplativos maravilhosos sobre a condição humana. Ele questionou boa parte das ideologias que vigoraram no entre guerras e no pós-guerra do século XX.

Camus foi uma pessoa que defendeu a liberdade. Não apenas a liberdade política, como o próprio Sartre também defendia, mas também a liberdade individual, o amor e a capacidade humana de criar, avançar e superar.

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A obra de Albert Camus é daquelas que continuará vigente por muitos séculos. A inteligência e a sensibilidade com as que ele revelou muitas realidades



  • Albert Camus-Jean Grenier, Correspondance 1932-1960, notas de Marguerite Dobrenn, Paris: Gallimard, 1981.
  • Albert Camus-Pascal Pia, Correspondance, 1939-1947, presentación y notas de Yves-Marc Ajchenbaum, Paris: Fayard/Gallimard, 2000.
  • De Luppé, Robert. “Albert Camus” Barcelona: Editorial Fontanella, 1963.
  • Sánchez, F. G. (2001). «Camus y el existencialismo.» Revista Espiga, 2(4), 121-136.