Por que Nietzsche chorou abraçando um cavalo…

· julho 25, 2018

Friedrich Nietzsche chorou e protagonizou uma das cenas mais comoventes na história dos pensadores ocidentais. Era o ano de 1889 e o filósofo vivia em uma casa na rua Carlo Alberto, em Turim (Itália). Era de manhã e Nietzsche se dirigia ao centro da cidade quando, de repente, se deparou com uma cena que mudou sua vida para sempre.

Ele viu um cocheiro que batia com força no seu cavalo porque o animal não queria andar. O cavalo estava completamente exausto. Não tinha mais forças. Mesmo assim, o dono batia com o chicote no animal para que continuasse andando, apesar do cansaço.

 “Quem luta com monstros deve se cuidar, pois, ao fazê-lo, pode se transformar também em monstro. Quando se olha por muito tempo para um abismo, o abismo também olhará para dentro de você”.
-Friedrich Nietzsche-

Nietzsche ficou apavorado com o que via. Depois de censurar o comportamento do cocheiro, ele se aproximou do cavalo que tinha desabado e o abraçou. Em seguida, começou a chorar. As testemunhas disseram que Nietzsche murmurou algumas palavras que ninguém escutou ao ouvido do cavalo. Contam que as últimas palavras do filósofo foram: “Mãe, eu sou um idiota”. Em seguida, ficou inconsciente e sua mente entrou em colapso.

Uma manhã que mudou tudo

A demência de Nietzsche é um tema que deixou muitos médicos e intelectuais intrigados por muito tempo. Foram feitos todos os tipos de especulações sobre o tema. Existem pelo menos três versões sobre o que realmente aconteceu naquela manhã em Turim. A única coisa certa é que o filósofo jamais voltou a ser o mesmo.

Nietzsche

Nietzsche ficou sem falar por 10 anos, até a sua morte. Ele nunca pôde voltar à sua vida racional desde o episódio com o cavalo. A polícia foi informada sobre o ocorrido. O filósofo foi detido por perturbar a ordem pública. Pouco depois o levaram a um hospital psiquiátrico. Lá, ele escreveu algumas cartas com frases incoerentes a dois de seus amigos.

Um de seus antigos conhecidos o levou a um hospício em Basileia (Suíça), onde permaneceu por vários anos. Um dos homens mais lúcidos e inteligentes do século XIX acabou dependendo de sua mãe e de sua irmã para quase tudo. Nunca mais, que saibamos, ele voltou a estabelecer contato direto com a realidade.

A demência de Nietzsche

A sociedade determinou que a ação de Nietzsche – abraçar o cavalo e chorar com ele – era uma manifestação de sua loucura. No entanto, há muito tempo o filósofo vinha apresentando condutas chamativas. O responsável pela casa onde ele vivia, por exemplo, havia dito que o escutava falar sozinho. Disse também que às vezes ele dançava nu em seu quarto.

Há algum tempo ele tinha se tornado muito descuidado com sua aparência e sua higiene pessoal. Quem o conhecia percebeu que seu andar orgulhoso havia sido substituído por um caminhar negligente. Ele também não era mais o mesmo pensador fluente de antes. Falava de forma entrecortada e pulava de um tema a outro.

No hospital psiquiátrico, perdeu progressivamente suas capacidades cognitivas, incluindo a linguagem. Às vezes se mostrava agressivo e chegou a bater em alguns de seus colegas. Somente alguns anos antes, havia escrito várias obras que o destacariam como um dos melhores filósofos da história.

Por que Nietzsche chorou

Embora muitas pessoas vejam o episódio do cavalo como uma simples manifestação de irracionalidade, produto da doença mental, também há quem veja um significado menos aleatório, mais profundo e consciente. Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, retoma a cena de Nietzsche abraçando o cavalo e chorando ao seu lado.

Nietzsche pensando em cavalos

Para Kundera, as palavras que Nietzsche murmurou no ouvido do animal foram um pedido de perdão. Na sua opinião, ele o fez em nome de toda a humanidade, pela crueldade com que o ser humano trata outros seres vivos. Por termos nos transformado em seus inimigos e tê-los colocado a nosso serviço.

Nietzsche nunca se caracterizou por ser um defensor dos animais ou por ter uma sensibilidade especial com a natureza. No entanto, sem dúvida, o episódio dos maus-tratos provocou um grande impacto no filósofo. Aquele cavalo foi o último ser com o qual ele estabeleceu um contato real e efetivo. Mais do que com o próprio animal, foi com seu sofrimento que ele encontrou uma identificação que ia muito além do imediato. Em suma, era uma identificação com a vida.

Nietzsche não era muito conhecido pelo grande público na época, apesar de ter sido um professor com excelente reputação. Seus últimos anos foram basicamente miseráveis. Sua irmã distorceu vários de seus textos para que coincidissem com as ideias do nazismo alemão. Nietzsche não podia fazer nada perante isso. Ele estava mergulhado em um sono profundo do qual só acordou com sua morte, em 1900.