Biografia de Felix Boehm, um psicanalista controverso

10 Agosto, 2020
Felix Boehm foi um dos psicanalistas que aderiu ao regime nazista na Alemanha e que esteve envolvido no extermínio de homossexuais. Apesar disso, continuou praticando a psicanálise até a sua morte, embora fora da linha freudiana.
 

Hoje, vamos expor uma breve biografia de Felix Boehm. Seu nome aparece várias vezes na história da psicanálise. No entanto, sua notoriedade não se deve às contribuições que ele fez a essa disciplina, as quais, para dizer a verdade, foram bem poucas. O que o tornou famoso foi ter se transformado em uma das figuras mais emblemáticas do que ficou conhecido como a década trágica da psicanálise.

Esse foi um período marcado por contradições e ambiguidades. Ocorreu quando o nacional-socialismo chegou ao poder e baniu os psicanalistas judeus, que eram maioria na época. O nazismo se dividia entre a validade conceitual dessa corrente e o fato de que seu núcleo era formado por judeus.

… “ao ser considerada pelos defensores do nacional-socialismo como uma ‘Ciência Judaica’, a psicanálise teve que suportar, por mais de dez anos, uma série de contratempos que levaram muitos de seus seguidores ao exílio, prisão, tortura ou morte”.
-Iturbide e Sánchez de Miguel-

O mesmo aconteceu com muitos psicanalistas. Eles viram a necessidade de preservar a psicanálise, mas, ao mesmo tempo, tiveram que conciliá-la com o nazismo. Felix Boehm foi o pilar dessa contradição. Juntamente com Werner Kemper, Harald Schultz-Hencke e Carl Müller-Braunschweig, ele foi um dos psicanalistas que decidiram colaborar com o regime nazista.

Biografia de Felix Boehm

Felix Boehm nasceu em 25 de junho de 1881 em Riga, na Alemanha. Ele estudou na Suíça e obteve o diploma do ensino médio em 1906. Em seguida, estudou engenharia mecânica na Politécnica de Riga. Até então, ele já havia se familiarizado com a psicanálise. Em 1901, ele leu sobre a psicopatologia da vida cotidiana de Sigmund Freud e, desde então, se interessou pelo assunto.

 
Aspectos biográficos de Félix Boehm

Em 1912 ele começou a estudar medicina na Universidade de Genebra. No entanto, se formou na Universidade Ludwig-Maximilians em Munique. Lá, ele teve a oportunidade de trabalhar com Emil Kraepelin, considerado o pai da psiquiatria moderna. Felix se especializou em psiquiatria e neurologia.

Felix Boehm inicialmente foi psicanalisado por Eugénie Sokolnicka e depois fez uma breve análise de treinamento com Freud. Mais tarde, ele retomou sua psicanálise com Karl Abraham, que conheceu em Berlim. Ele se casou duas vezes, a primeira em 1904 e a segunda em 1914. Ele teve duas filhas, e ambas foram analisadas pela prestigiada Melanie Klein.

A década trágica

Felix Boehm entrou para a Sociedade Psicanalítica Alemã (DPG, em sua sigla em alemão) em 1922. Na época, ele esteve envolvido em um escândalo no qual foi acusado de desviar fundos de bolsas de estudos acadêmicas.

Com a ascensão do nazismo ao poder, a DPG tomou as medidas necessárias para impedir que o ensino da psicanálise fosse proibido. Para isso, a instituição elaborou uma declaração de princípios que basicamente acenava para os princípios do regime nazista.

 

Da mesma forma, a DPG forçou os analistas judeus a renunciarem e expulsou militantes de esquerda. Além disso, rompeu com a Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Felix Boehm esteve por trás de todas essas ações.

Boehm declarou abertamente seu compromisso com o nacional-socialismo. No entanto, ele não foi o único. Os psicanalistas de prestígio, como Carl Gustav Jung e Ernest Jones, também o fizeram. Seu objetivo central, ou talvez o de muitos psicanalistas da época, era preservar a prática da psicanálise na Alemanha.

Enigmas do cérebro

A biografia de Felix Boehm e o nazismo

Por muito tempo, Boehm esteve interessado em estudar a homossexualidade. No período nazista, a DPG passou a se chamar “Grupo de Trabalho A”, e operava sob a tutela do Instituto Alemão de Pesquisa e Psicoterapia Psicológica. Lá, Boehm continuou pesquisando e, após algum tempo, foi nomeado especialista em homossexualidade.

O próprio Felix Boehm pediu ao Reich que tomasse as medidas de vigilância necessárias em relação à homossexualidade e que contribuísse para possibilitar um “diagnóstico precoce” dela. A política nazista não consistia em diagnosticar homossexuais, mas em persegui-los e esterilizá-los e/ou exterminá-los. Boehm disse que sua proposta era uma maneira de proteger essa população. No entanto, várias sentenças de morte saíram da sua caligrafia anos depois.

 

Terminada a guerra, Boehm não expressou nenhum sinal de arrependimento pelo que aconteceu. Um enviado da linha freudiana, que procurou avaliar a competência dos psicanalistas alemães para exercer sua função, declarou que Felix Boehm não era mentalmente adequado para esse fim. Apesar disso, Boehm continuou fazendo parte da DPG até a sua morte, em 20 de dezembro de 1958 em Berlim.

  • Luquin, L. M. I., & de Miguel, M. S. (2010). La década trágica del Psicoanálisis: 1935-1945. Revista de historia de la psicología, 31(2), 89-102.