Hieronymus Bosch: a biografia de um enigma

06 Agosto, 2020
Hieronymus Bosch é um artista cuja obra é intrigante e enigmática. Vamos falar um pouco sobre a sua vida e as suas pinturas. Analisaremos algumas das teorias que tentam explicar a vida e o trabalho desse grande mestre.
 

A biografia de Hieronymus Bosch conta uma história bastante simples da vida desse artista excepcional. A história mais ortodoxa da arte apresenta suas obras como arte religiosa, mas sabemos que o rei Felipe II, um colecionador de todas as coisas ocultas, teve um grande interesse em possuir seus trabalhos. Algo que, por outro lado, não deixa de ser irônico.

A verdade é que há algo na vida e obra desse mestre das artes que é difícil, muito difícil de explicar e, como consequência, parece que não entendemos completamente esse artista. Todo esse halo de mistério em torno de Bosch rendeu inúmeros rumores de que os seus quadros foram pintados sob o efeito de estados alterados de consciência, simbolismo oculto, irmandades secretas, distúrbios psicológicos e até heresia. Essas acusações, na época, representavam um desafio perigoso para as normas estabelecidas.

Tentaram explicar as suas obras centenas de vezes sem muito sucesso. Podemos mergulhar nas leituras sobre a figura de Hieronymus Bosch, aprender com a descrição detalhada de qualquer uma de suas obras e, mesmo assim, ao contemplá-las, sempre há o sentimento de “há algo mais aqui”.

O mistério sempre fascinou os seres humanos e as pinturas e figuras do passado alimentaram muito a nossa imaginação. Por esse motivo, decidimos descobrir como foi a sua vida, o que e como ele pintou. Também revisaremos algumas das teorias que tentam nos explicar a vida e a obra enigmática e desconcertante desse grande mestre.

 
Hieronymus Bosch

A biografia de Hieronymus Bosch

O seu nome era Jheronimus van Aken, mas ele era conhecido como Hieronymus Bosch. Pintor holandês, nascido em 1450 em uma família de artistas, era filho e neto de pintores. Até a metade da sua vida, Bosch produziu as suas obras mais famosas, cheias de simbologia evocativa e elementos fantásticos onde aparecem mundos de sonhos cheios de monstros infernais.

Diziam que Bosch pertencia a um tipo de irmandade que se chamava “os irmãos do espírito livre”. Essa irmandade era, de fato, uma comunidade sectária originária da heresia do adamismo, que não acreditava no pecado ou na redenção.

Ele se opunha a qualquer ordem estabelecida e suas ideias foram marcadas como anárquicas. Esta é apenas uma das muitas versões tratadas em sua biografia. Outros apontam que a irmandade à qual ele pertencia era a de “Nossa Senhora” que, pelo contrário, tinha valores opostos à versão anterior.

Bosch levou uma vida bastante confortável graças ao seu casamento com a filha de um comerciante de sucesso que gozava de uma boa posição social. Como costuma acontecer quando abordamos figuras emblemáticas do passado, os seus dados biográficos, assim como o seu trabalho, são um mar de conjecturas. No entanto, muitos especialistas de diferentes áreas têm tentado esclarecer os fatos nos últimos quinhentos anos.

 

Sua obra

As suas obras foram interpretadas inúmeras vezes dentro da tradição medieval de figuras exemplares sobre vida, morte e pecado. Nas últimas décadas, no entanto, as interpretações de sua obra deram frutos que contradizem a concepção clássica.

Vários autores sugerem que o seu trabalho, especialmente O Jardim das Delícias, o seu quadro mais relutante à análise, poderia ter sido pintado sob a influência de algum tipo de alucinógeno. Ou seja, estados alterados de consciência que o imergiam no mesmo mundo fantástico de figuras semi-humanas que ele representava em suas telas e que, em inúmeras ocasiões, representavam verdadeiros pesadelos em um mundo estranhamente onírico.

No centenário de sua morte, em 2016, uma equipe de pesquisadores fez uma nova classificação de seu trabalho, que está espalhado por vários países. Além disso, alguns dos trabalhos que lhe foram atribuídos foram eliminados e outros foram incluídos. De qualquer forma, parece que existem 21 pinturas que não foram objeto de controvérsia em relação à sua autoria, uma vez que ele geralmente não assinava as suas pinturas.

Entre as pinturas cuja autoria não parece duvidosa, destacam-se: O Jardim das Delícias, O Juízo Final, O Carro de Feno, A Extração da Pedra da Loucura, Os Sete Pecados Capitais, O Navio dos Loucos e o Tríptico da Adoração dos Reis Magos. Algumas dessas obras são mantidas no Museu do Prado, graças à obsessão de Felipe II pela coleção das obras de Bosch.

 
Quadro de Hieronymus Bosch

Hieronymus Bosch pintava sob a influência de estados alterados de consciência?

Embora tudo pareça indicar que sim, a verdade é que não há uma opinião unânime sobre esse assunto. Erich Peuckert, professor de folclore germânico, é uma das figuras mais proeminentes que apoiaram essa teoria. Depois de vários estudos na Universidade de Göttingen, Peuckert e outros pesquisadores apoiaram essa ideia como uma possibilidade.

Durante essas investigações, foi realizado um experimento no qual foi utilizada uma receita feita com produtos naturais, encontrada em tratados antigos do século XV. A receita em questão é conhecida como um dos “unguento das bruxas” da época medieval.

Os voluntários do estudo, submetidos aos efeitos desse unguento, experimentaram muita sonolência na qual ocorreram estranhas alucinações. Durante as sessões, esses voluntários visualizaram imagens com destacado conteúdo sexual, criaturas infernais, ataques de figuras monstruosas e muitos dos elementos que podemos encontrar nas pinturas de Hieronymus Bosch.

Por outro lado, existem outros estudos que nos aproximam de possíveis transtornos mentais que, de alguma forma, o artista plasmou em todo o seu trabalho. Sob os efeitos de distúrbios psicóticos ou dos eflúvios arcaicos, a verdade é que a obra de Bosch tem algo que penetra além dos sentidos. Isso acontece de tal maneira que não se sabe explicar se as mensagens contidas em suas pinturas vêm “de” ou são direcionadas “para” o subconsciente de forma intencional.

 

De uma maneira ou de outra, esperamos que tenham gostado de conhecer a biografia de Hieronymus Bosch. Até hoje, podemos apreciar o seu trabalho, absorver sua arte e experimentar as diferentes sensações que suas obras podem provocar.