Lacan e a estrutura do inconsciente

setembro 4, 2019
Durante sua vida, Lacan foi um defensor fiel do estruturalismo freudiano. Ao longo de sua carreira, focou no desenvolvimento da teoria do inconsciente estruturado a partir da linguagem. Você conhece seus postulados sobre o discurso do 'outro'?

Conheça a biografia de Jacques Marie Émile Lacan, uma importante figura na vida intelectual parisiense durante grande parte do século XX. Seu nome aparece frequentemente ligado à psicanálise.

Seus ensinamentos e textos exploram a importância da descoberta de Freud do inconsciente, tanto dentro da teoria e da prática da análise em si, quanto em conexão com uma ampla gama de diversas disciplinas.

Particularmente para aqueles interessados ​​nas dimensões filosóficas do pensamento freudiano, a obra de Lacan é inestimável. No último século, as ideias lacanianas se posicionaram no centro de vários temas psicanalíticos nos círculos filosóficos.

Lacan e suas realizações profissionais

Primeiros anos da biografia de Jacques Lacan

Jacques Lacan nasceu em 13 de abril de 1901, foi o primeiro filho de um casamento próspero e burguês. Seus pais foram Alfred Lacan e Emilie Baudry, pertencentes a uma família de tradição católica sólida.

Em 1907, Lacan ingressou no seleto Collège Stanislas, uma escola marista que atendia à burguesia parisiense.

Lá, recebeu uma sólida educação primária e secundária com uma forte ênfase no religioso e tradicionalista. Completou seus estudos em 1919, quando já desenvolvia seu pensamento filosófico.

Lacan e suas realizações profissionais

Embora os primeiros textos de Lacan tenham aparecido no final da década de 1920, sua atividade editorial decolaria na década seguinte. A partir de 1930, tiveram lugar vários dos primeiros marcos lacanianos:

  • A publicação de sua tese de doutorado em psiquiatria em 1932Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade.
  • Suas colaborações com os movimentos artísticos surrealistas e dadaístas em cujos círculos prosperou como uma personalidade importante.
  • A primeira apresentação da agora famosa teoria da “fase do espelho” na conferência da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) em Marienbad em 1936.
  • A publicação na Enciclopédia Francesa em 1938 de um ensaio substancial sobre um grande número de assuntos analíticos intitulado Os complexos familiares na formação do indivíduo.

A década de 1930 foi um período crucial para o desenvolvimento de Lacan. Sua juventude foi marcada pelo choque de interesses e influências relacionadas à psicanálise, à psiquiatria, à filosofia, à arte e à literatura, entre outras áreas.

Esse período marca o começo da robusta combinação interdisciplinar de Lacan: a análise freudiana, a dialética hegeliana e a pedagogia kojeviana. A esses três âmbitos ele adicionou as diferentes experiências de “loucura” a partir de inúmeras perspectivas.

A época do pós-guerra

A década de 1940 foi fundamental na trajetória de Lacan, momento em que ele se tornou um grande pensador analítico. Durante esse período, houve uma verdadeira explosão de material lacaniano, incluindo sete seminários anuais e muitos dos seus ensaios mais famosos.

No período do pós-guerra, Lacan se iniciou e aprendeu sobre o estruturalismo de Ferdinand de Saussure e seus herdeiros, como Claude Lévi-Strauss e Roman Jakobson.

“Quando nos deparamos com algo impossível, só há um caminho: fazê-lo. O impossível deve ser feito, não é para ser prometido”.
-Jacques Lacan-

Sabe-se que o livro de Lévi-Strauss de 1949, As Estruturas Elementares do Parentesco, ajudou a lançar o movimento estruturalista francês. Esse movimento floresceu durante as décadas de 1950 e 1960 com uma orientação que desafiou a primazia teórica do existencialismo na França.

Essa mudança na teoria social francesa conduziu a uma reorientação fundamental no pensamento de Lacan. Apesar de ter modificado sua abordagem, Lacan permaneceu fiel à psicanálise estruturalista freudiana.

“O inconsciente está estruturado como uma linguagem”.
-Jacques Lacan-

Lacan retratou a si mesmo como o único defensor de uma ortodoxia freudiana; sustentou firmemente que uma recuperação do significado primário da linguagem para a análise é a chave para levar fielmente o enfoque revolucionário de Freud à subjetividade psíquica.

Tudo isso foi anunciado detalhadamente no extenso manifesto fundador do lacanismo: Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise.

Últimos anos e legado da biografia de Jacques Lacan

Em 1980, perto do final de sua vida, Lacan considerou apropriado dissolver sua escola, a École Freudienne. Essa decisão foi controversa e desencadeou lutas internas entre seus seguidores.

No entanto, Lacan participou pouco dessas discussões, pois morreu em 1981. Seu genro e editor do Le Séminaire, Jacques-Alain Miller, fundou a École de la Cause Freudienne como sucessora da École Freudienne, após a dissolução desta.

A teoria dos três registros constitui o marco de vários conceitos ao longo do itinerário intelectual de Lacan. Os três registros correspondem ao imaginário, ao simbólico e ao real.

No entanto, esses conceitos não permaneceram estáticos ao longo de sua vida. Suas caracterizações de cada um dos três registros, assim como as relações entre eles, sofreram múltiplas revisões e mudanças ao longo dos muitos anos do seu trabalho.

Linguagem e códigos culturais de acordo com Lacan

Linguagem e códigos culturais de acordo com Lacan

Jacques Lacan nos deixou a ideia de que “o inconsciente é o discurso do outro”. Entendendo o “outro” como tudo o que é absolutamente estranho e que está além do eu. O “outro” é o ambiente em que nascemos, aquilo que devemos “traduzir” para sobreviver e prosperar.

Em nossa vida, adquirimos gradualmente a consciência e a compreensão de uma série de significantes. Os significantes são signos ou códigos que representam conceitos e ideias.

Esses significantes podem chegar a nós apenas do mundo exterior que se encontra além do eu. Por essa razão, devem, necessariamente, ter sido formados a partir da linguagem ou do “discurso”, nos termos de Lacan, do “outro”.

“O inconsciente é muito exatamente a hipótese de que a gente não sonha apenas quando dorme”.
-Jacques Lacan-

As ideias e emoções que temos, de acordo Lacan, podem ser expressas somente através da linguagem. Desta forma, a única linguagem que podemos usar é a linguagem do outro.

Nosso inconsciente gera sensações e imagens construídas com base na linguagem do outro. Daí a afirmação de Lacan: “o inconsciente é o discurso do ‘outro'”.

Os postulados lacanianos influenciaram imensamente a prática psicanalítica. Além disso, nos permitiram chegar a uma interpretação mais objetiva e aberta do inconsciente.

  • Lacan, J. (1987). Seminario 11. Los cuatro conceptos fundamentales del psicoanálisis. Buenos Aires, Paidós, 9, 174.
  • Fages, J. B. (1973). Para comprender a Lacan. Biblioteca de psicología.
  • Braunstein, N. A. (1980). Psiquiatría, teoría del sujeto, psicoanálisis: hacia Lacan. Siglo XXI.