Biografia de Karen Horney: a mulher que enfrentou Freud

abril 3, 2020
Karen Horney trabalhou contra as teorias que sustentavam a natureza masoquista das mulheres, sua dependência do amor, do dinheiro e da proteção dos homens. Teorias que obrigavam as mulheres a buscar o significado de suas vidas por meio de um marido, filhos e do cuidado da família.

Ao analisarmos a biografia de Karen Horney, vemos que ela é uma daquelas figuras que merecem ter um espaço próprio na história, não apenas no âmbito científico. Uma mulher à frente do seu tempo que se atreveu a questionar as bases da psicologia da sua época.

Suas teorias revolucionárias confrontaram as parcelas mais conservadoras da ciência. No entanto, além desse conflito, havia a dificuldade que representava ser mulher em um mundo de teorias masculinas.

Karen Horney foi uma psicanalista alemã do início do século XX, fundadora da psicologia feminista e cofundadora da psicologia neofreudiana. Ela foi uma das vozes mais críticas das teorias de Sigmund Freud. Os repetidos quadros de depressão pelos quais passou durante sua juventude a levaram a se formar em Medicina, consolidando-se, finalmente, como psicanalista. Horney desenvolveu teorias revolucionárias sobre a personalidade e a neurose, que acabaram por desencadear sua expulsão do Instituto Psicanalítico de Nova York.

Foi uma mulher extremamente influente nos progressos psicológicos. Além de ter realizado grandes contribuições na área do neuroticismo, também o fez na atitude psicológica em relação as mulheres. Não devemos nos esquecer de que o campo da psicologia era dominado pelos homens, no início da década de 1900, e muitos dependiam dos progressos de Freud.

Na contramão, Horney defendeu a ideia de que eram os homens que se sentiam inadequados e com inveja da capacidade das mulheres de criar e desenvolver a vida. Essa era a razão pela qual os homens buscavam dominar todas as demais áreas importantes da vida. Em contraposição às crenças de Freud, Horney chamou esse fenômeno de “inveja do ventre”.

Manipulação da mente humana

Os primeiros anos da biografia de Karen Horney

Karen Danielsen nasceu em 16 de setembro de 1885 em Blankenese, na Alemanha. Sua infância foi marcada por um pai muito severo que lhe impôs uma educação rígida. Desde muito nova, ela se refugiava com seu irmão mais velho, de quem se sentia muito próxima.

Quando seu irmão se distanciou dela, Karen caiu em uma profunda depressão que se repetiria mais vezes ao longo da sua juventude. Ela se dedicou de corpo e alma aos estudos. Anos depois, Karen Horney se lembraria de que, naquela época, decidiu que se não poderia ser bonita, seria inteligente.

Em 1906, ela se matriculou na escola de Medicina da Universidade de Friburgo, uma das poucas universidades que aceitavam mulheres naquela época. Posteriormente, ela passou pela Universidade de Göttingen e, finalmente, em 1909, ela escolheu estudar psicanálise na Universidade de Berlim, uma escola psicológica emergente na época, formando-se em 1915.

Em 1910, casou-se com um colega de estudos, Oskar Horney. Como fruto desse casamento, nasceram suas três filhas.

Vida profissional

Durante seus primeiros anos de carreira profissional, Karen Horney trabalhou como professora e analista no Instituto Psicanalítico de Berlim. No entanto, apesar de sua boa situação profissional, sua vida começou a oscilar no âmbito pessoal. Seu casamento não funcionava mais e seu irmão mais velho faleceu de uma infecção pulmonar. Como consequência, Karen se viu novamente mergulhada em um longo estado depressivo.

Em 1932, Karen Horney se mudou para os Estados Unidos, onde trabalhou como Diretora associada do Instituto de Psicanálise de Chicago. Dois anos mais tarde, ela se mudou para o Brooklyn e se estabeleceu como professora da New School for Social Research e do Instituto Psicanalítico de Nova York.

Durante esses anos, Karen Horney começou a desenvolver suas teorias sobre a neurose e a personalidade. Nesse momento, ela entra em contato com outros autores da época, como Erich Fromm e Harry Stack.

As teorias desenvolvidas por Horney se revelaram bastante críticas e opostas às teorias freudianas originais, o que lhe custou sua expulsão do Instituto Psicanalítico de Nova York. Foi nesse momento, então, que, junto com outros dissidentes, ela fundou o American Journal of Psychoanalysis e o Instituto Americano para a Psicanálise, onde trabalhou até falecer em 1952.

Karen Horney e sua contribuição para a psicologia

Na biografia de Karen Horney, vemos que ela defendia que as diferenças entre homens e mulheres se manifestam a partir de diferenças na educação e na socialização, não na biologia, como vinha sendo defendido há muito tempo. Ela foi a precursora da psicologia feminista que defendia que eram as diferenças de poder de gênero que afetavam a saúde mental das mulheres.

Horney se atreveu a contrariar a visão freudiana sobre a inveja do pênis. Quebrando com a tradição, ela defendia a ideia de que o que as mulheres invejavam era o poder e os privilégios masculinos, não o pênis.

Também criticou o complexo de Édipo de Freud, que ela considerava um produto da insegurança na relação de pais e filhos. Defendeu o papel fundamental das influências ambientais no desenvolvimento psicológico e considerava que o narcisismo era o resultado de uma baixa autoestima e de um excesso de indulgência na infância, não um distúrbio psicológico.

Freud e Karen Horney

Um legado de peso

Karen Horney trabalhou contra as teorias que sustentavam a natureza masoquista das mulheres, sua dependência do amor, do dinheiro e da proteção dos homens. Ela considerava que essa forma de pensamento tinha conseguido fazer com que as mulheres dessem muita importância a qualidades como o encanto e a beleza, e que buscassem o significado da vida por meio de seus maridos e filhos.

Horney foi revolucionária em diversos aspectos: desde a sua contribuição para a psicologia, com suas teorias sobre a neurose e a personalidade, até sua passagem pela universidade em uma época em que a mulher ficava relegada ao âmbito doméstico. Suas afirmações e suas críticas, especialmente as vinculadas a Sigmund Freud, provocaram rejeição em um mundo que, talvez, lhe parecesse pequeno.

Em 1967, foram publicados de forma póstuma os 14 artigos que compuseram sua obra Psicologia feminina. Seu trabalho e sua obra influenciaram a psicologia humanista e da Gestalt, a psicoterapia, a psicanálise, a terapia racional emotiva de Ellis, o existencialismo e o feminismo.

Sem dúvida, a biografia de Karen Horney nos mostra que ela deixou um legado inigualável, cujo caminho não foi fácil e esteve marcado por uma luta constante. Uma luta interna, vinculada à sua depressão, e uma luta externa, como consequência de ser mulher e da dificuldade de ser ouvida em um mundo de homens.