Sêneca, biografia de um filósofo do poder

julho 29, 2019
Sêneca foi um grande pensador e um profundo conhecedor da natureza humana. Embora pregasse muito mais do que praticava, seus textos, sem dúvida, estão entre as mais belas peças de filosofia e ética de todos os tempos.

A biografia de Sêneca mostra que ele foi um dos homens mais sábios e inspiradores da Roma Antiga.

Embora tenha entrado para a história como um filósofo que refletia sobre a ética, a verdade é que, acima de tudo, ele era um homem de poder. Conseguiu entender em profundidade a natureza humana em uma das épocas mais decadentes da história.

Assim como outras grandes figuras da história, Sêneca se caracterizou por uma curiosidade insaciável que lhe permitiu se aprofundar em diferentes ciências, culturas e crenças com grande abertura.

“Alguns são considerados grandes porque foi medido também o pedestal”.
-Sêneca-

A presença do estoicismo na biografia de Sêneca

Sêneca estudou os egípcios com a mesma paixão que os romanos e os gregos. Finalmente, optou por seguir as premissas do estoicismo e se tornou uma das figuras mais representativas de tal escola.

Um dos grandes paradoxos da história e do poder é que Sêneca era o mestre de alguém que poderia ser o seu oposto: o imperador Nero. Além disso, foi precisamente o seu aluno quem, por fim, o condenou à morte.

A Antiguidade Clássica nos proporcionou um grande legado de obras literárias e filosóficas que, até hoje, continuam chamando a nossa atenção.

De todos os textos em latim que devem ter sido escritos, recuperamos um percentual extremamente baixo, mas suficiente para nos aproximarmos de alguns autores tão interessantes quanto Sêneca.

Neste artigo, queremos convidá-lo a conhecer a biografia de um dos pensadores mais brilhantes da Antiguidade.

Estátua em homenagem a Sêneca

A infância de Sêneca

Embora não se saiba com certeza, tudo parece indicar que Sêneca nasceu no que hoje é Córdoba (Espanha), no ano IV antes da nossa era. Foi uma criança doente, afligida pela asma de forma brutal. Seu pai era procurador de Roma e também um famoso orador e retórico.

Um dos fatos curiosos da vida desse grande filósofo é que ele teve dois irmãos. Ambos, junto com Sêneca, foram homens importantes em seu tempo, mas os três acabaram cometendo suicídio em diferentes momentos.

A verdade é que Sêneca foi educado principalmente pela meia-irmã de sua mãe em Roma. Com essa família adotiva, ele também foi morar em Alexandria, onde aprendeu muito sobre a cultura egípcia.

Nesse período, começou a explorar várias ciências e conhecimentos. Posteriormente, acredita-se que tenha  passado algum tempo em Atenas.

O poder e o brilho na biografia de Sêneca

No ano 31 da nossa era, Sêneca foi nomeado magistrado romano. Teve um desempenho brilhante e, em poucos anos, se tornou o principal orador do Senado.

A essa altura, o perverso Calígula havia subido ao trono e, sentindo muita inveja do orador, condenou-o à morte. Aparentemente, uma cortesã o persuadiu a não cumprir essa sentença.

Quando o imperador Cláudio assumiu o poder, sua primeira esposa, Messalina, orquestrou para que ele fosse novamente condenado à morte. Esta penalidade foi comutada em exílio. Assim, Sêneca partiu para Córsega, ilha em que permaneceu exilado por 8 anos.

Agripina, a segunda esposa de Cláudio, intercedeu para que ele fosse autorizado a retornar, pois via em Sêneca um aliado que ajudaria a aumentar o prestígio do imperador.

Além disso, ela achava que Sêneca poderia contribuir para alcançar seu grande objetivo: tornar Nero imperador, embora ele não fosse o filho legítimo de Cláudio.

Nero, o discípulo

Os planos de Agripina se concretizaram e saíram como ela esperava. Com a morte de Cláudio, Nero tinha apenas 17 anos de idade. Neste momento, Sêneca foi nomeado conselheiro político e ministro, embora, na prática, tenha sido quem governou o império durante os oito anos seguintes, juntamente com Burro, outro conselheiro de Nero.

Parece que Nero tinha uma grande estima por seu conselheiro e mestre. Além disso, o poder nas mãos do filósofo manteve o império estável e florescente. No entanto, à medida que o jovem imperador crescia, também começou a levantar suspeitas em torno de seu mentor.

Embora Sêneca fosse um moralista estoico, a verdade é que, durante essa fase, acumulou mais riqueza do que qualquer outro homem de poder em sua época.

Por isso, e também como consequência de várias intrigas, Nero começou a vê-lo como um inimigo em potencial; acusou-o de hipocrisia e até mesmo de ser amante de sua mãe, Agripina.

Estátua de Sêneca

A morte de Sêneca

Um dos episódios mais contraditórios e lamentáveis ​​da vida de Sêneca foi o momento em que Nero assassinou sua mãe. Em vez de questionar o fato, o filósofo tentou, por todos os meios, justificá-lo. Era evidente que ele temia o imperador e só pensava em salvar a si mesmo.

Foi então que Burro morreu e Sêneca ficou praticamente sozinho. Em uma tentativa de ganhar a confiança de Nero, se ofereceu para dar a ele todas as suas riquezas e seus bens. Ao mesmo tempo, pediu permissão ao imperador para se retirar da vida pública.

Desta forma, fez notar o perigo que sentia; Sêneca temia por sua vida e tentou salvar-se como pôde. Assim, conseguiu viver mais alguns anos.

Finalmente, Nero o implicou em uma conspiração que havia sido executada contra ele, embora fosse apenas um pretexto para condená-lo à morte. Naquela época, se o condenado fosse um patrício, ele mesmo deveria se suicidar. Sêneca acatou a regra e seguiu a tradição junto com sua esposa.

Após a sua morte, seus irmãos e seu sobrinho também se suicidaram por medo da crueldade de Nero.

Dessa forma, a vida de um grande pensador chegou ao fim de maneira trágica e até injusta. Um final que, por outro lado, contrasta com algumas de suas contribuições para a filosofia, com a ética que defendia.

  • Zambrano, M., & Seneca, L. A. (1987). El pensamiento vivo de Séneca. Cátedra.