Umberto Eco: biografia de um escritor e filósofo

· abril 22, 2019
Umberto Eco foi um dos pensadores mais interessantes do século XX na Europa. Seu trabalho abrangeu vários campos e, talvez, seja mundialmente conhecido por seu romance 'O Nome da Rosa'. Mas Eco contribuiu muito mais; foi pioneiro no campo da semiótica e dos estudos culturais. Você quer descobrir as chaves de seu pensamento?

Saiba mais sobre a biografia de Umberto Eco, escritor, crítico literário, filósofo, semiólogo e professor universitário italiano. É amplamente reconhecido por seu romance de 1980, Il nome della rosa (O Nome da Rosa). Trata-se de um romance de mistério histórico que combina a semiótica na ficção com a análise bíblica, os estudos medievais e a teoria literária.

Umberto Eco nasceu em 5 de janeiro de 1932 na região de Piemonte, no norte da Itália. Seu pai, Giulio, foi contador e serviu em três guerras ao longo de sua vida. Quando criança, Umberto passava horas e horas no porão do avô. Neste lugar, começou a absorver a literatura; lia a coleção do avô que incluía Júlio Verne, Marco Polo e Charles Darwin. Durante a ditadura de Benito Mussolini, Umberto ganhou o primeiro prêmio em um concurso de redação para jovens fascistas.

Após a Segunda Guerra Mundial, Eco se juntou a uma organização católica de jovens. Em pouco tempo, se tornaria seu líder nacional. No entanto, renunciou ao cargo em 1954 durante protestos contra as políticas conservadoras do Papa Pio XII, mas manteve uma forte ligação com a igreja que se refletiu em sua tese de doutorado, já que o obteve em filosofia na Universidade de Turim, em 1956, com uma tese sobre Tomás de Aquino.

Eco trabalhou como editor cultural para a emissora estatal Radiotelevisione Italiana (RAI). Além disso, foi professor na Universidade de Turim (1956-1964). Durante seu trabalho na RAI, Eco se tornou amigo de um grupo de artistas de vanguarda. Esse grupo de vanguardistas era conhecido como Gruppo 63, formado por músicos, pintores e escritores que se tornaram uma influência fundamental na carreira literária de Umberto Eco.

Umberto Eco quando jovem

O legado cultural da biografia de Umberto Eco

Como semiólogo, Umberto Eco interpretava as culturas através de signos e símbolos. Analisava tanto a linguagem quanto ícones religiosos, cartazes, roupas, partituras musicais e até desenhos animados. Enquanto lecionava na Universidade da Bolonha, publicou mais de 20 livros de não-ficção sobre essas questões.

A singularidade de seu trabalho literário se deve a ter conseguido imbuir seus romances com muitas de suas preocupações acadêmicas. Eco encontrou uma maneira de manter sua vida acadêmica e seu trabalho como escritor de ficção unidos.

O sucesso de O Nome da Rosa, seu primeiro romance, não se repetiu em suas obras posteriores e nem em outros de seus trabalhos. O Nome da Rosa foi originalmente publicado na Europa em 1980 e vendeu mais de 10 milhões de cópias em cerca de 30 idiomas. Houve também uma adaptação cinematográfica em 1986, dirigida por Jean-Jacques Annaud e protagonizada por Sean Connery, uma obra que, da mesma forma, teve um sucesso notável.

“Acredito que o que nos tornamos depende do que nossos pais nos ensinam em pequenos momentos, quando não estão tentando nos ensinar. Somos formados por pequenos pedaços de sabedoria”.
-Umberto Eco-

Ao longo de sua vida, continuou lecionando filosofia e, posteriormente, semiótica na Universidade de Bolonha. Adquiriu uma certa fama na Itália, seu país natal, por suas colunas semanais sobre cultura e política popular para a L’Espresso, a revista mais importante do país.

Sua contribuição para a cultura dos meios de comunicação é imensa e podemos identificá-la através de ensaios como Fenomenologia di Mike Bongiorno (Fenomenologia de Mike Bongiorno). A influência de Eco o levou a ser amplamente reconhecido e, como resultado, foi homenageado com mais de 30 doutorados honorários de instituições renomadas e respeitadas, como a Universidade de Indiana e a Universidade Rutgers.

O Nome da Rosa e outras obras literárias

Como já mencionamos, seu romance mais famoso, O Nome da Rosa, é ambientado em um mosteiro italiano do século XIV. O local escolhido é o mais adequado para o enredo apresentado. Um mosteiro impenetrável, em tempos medievais, quase podemos perceber o aroma de uma igreja, um lugar sagrado… Nesse ambiente sagrado, constrói-se uma tragédia; logo começam os assassinatos; os monges morrem nas mãos de seus correligionários que se empenham em ocultar um tratado filosófico perdido por Aristóteles.

Aproveitando-se do mistério e da ficção, Eco permite-se deixar espaço para o debate, inserindo capítulos inteiros dedicados à discussões sobre teologia cristã e heresias. Essa ideia pode parecer brilhante, mas, ao mesmo tempo, é inevitável que se pense na polêmica que pode gerar.

É realmente inteligente transformar uma obra concebida para o entretenimento em algo diferente, transformando-a em um espaço para a reflexão e o debate. Contra todas as probabilidades, Eco conseguiu cativar uma audiência massiva com este romance de suspense e mistério.

Nesta obra, Eco estabelece vários conflitos filosóficos paralelos: verdade absoluta vs. interpretação individual; arte estilizada vs. beleza natural; predestinação vs. livre arbítrio; e, claro, espiritualidade vsreligião. Ou seja, uma série de dicotomias fundamentais para o ser humano. Tudo isso, como resultado, provocando um diálogo constante entre o mundo tradicional do cristianismo medieval e do pós-modernismo. Nesse diálogo, Eco consegue examinar os limites de cada um.

“Não há nada melhor do que imaginar outros mundos para esquecer o quão doloroso é o mundo em que vivemos”.
-Umberto Eco-

Seus romances posteriores contam com vários protagonistas que têm suas raízes na história. Por exemplo: um clarividente na Idade Média, um náufrago dos anos 1600 e um físico do século XIX. Além disso, todos esses romances levaram os leitores a absorver grandes doses de reflexões semióticas somadas a uma ficção convincente. Eco sempre trabalhou mantendo um estranho equilíbrio entre história, realidade e fantasia na produção literária.

Obras literárias de Umberto Eco

Umberto Eco: legado ao pensamento universal

Em setembro de 1962, se casou com Renate Ramge, uma professor de arte alemã com quem teve um filho e uma filha. Eco dividia seu tempo entre um apartamento em Milão e uma casa de férias próximo a Rimini. Possuía uma biblioteca com 30.000 volumes em sua residência milanesa e uma biblioteca com 20.000 volumes em Rimini. Eco morreu em casa em Milão em consequência de um câncer de pâncreas na noite do dia 19 de fevereiro de 2016, com 84 anos de idade.

Em 1988, na Universidade de Bolonha, Eco criou um programa incomum intitulado Antropologia do Ocidente. Este programa foi enormemente revolucionário para a época, uma vez que foi proposto a partir da perspectiva de não-ocidentais (acadêmicos africanos e chineses).

A partir dessa iniciativa, Eco desenvolveu uma rede internacional intercultural em colaboração com o antropólogo francês Alain Le Pichon. O programa de Bolonha resultou em uma série de palestras que seriam o princípio de Baudolino, uma obra em que Eco levanta a questão de criação de conhecimento na China e na Europa.

Em suma, o erudito apontou a tendência generalizada de classificar símbolos, ideias e conceitos de culturas estrangeiras, adaptando-as ao próprio sistema de referência cultural. O caso mais significativo citado por Eco é o de Marco Polo que, ao ver um rinoceronte durante suas viagens pelo Oriente, imediatamente o identificou como um unicórnio. Marco Polo havia nomeado o animal de acordo com a imagem ocidental do unicórnio: uma criatura com um chifre.

Este tipo de anedota pode ser visto refletido em textos medievais e nos primeiros livros de viagem; inclusive descobrindo a América, vários viajantes afirmavam ter visto sereias ou falavam de lugares exóticos e fantásticos. Assim, podemos ver que o que Eco propunha é uma consequência da nossa cultura; assim como Marco Polo, tentamos entender algo desconhecido, adaptando-o ao filtro do conhecido.

Para concluir a biografia de Umberto Eco

Eco possuía um pensamento que o tornou pioneiro quando se trata de interpretar o mundo de acordo com a nossa cultura. Assim, Umberto Eco fundou e desenvolveu uma das abordagens mais importantes da semiótica contemporânea, geralmente chamada de semiótica interpretativa.

  • Proni, G. (1987) Umberto Eco: An intellectual biography. Londres: De Gruyter Mouton.