Breve história da neurociência

· junho 1, 2019
Quais acontecimentos marcaram a história da neurociência? Como chegamos ao conhecimento atual? Vamos fazer uma breve viagem pelos momentos mais importantes dessa área do conhecimento.

Podemos dizer que a história da neurociência começa no século V a.C., quando Alcmeão de Crotona, após descobrir os nervos ópticos em suas dissecações, começou a pensar que o cérebro era o lugar no qual residiam pensamentos e sensações. Frente a esse pensamento avançado, por exemplo, Aristóteles defendia que os processos intelectuais ocorriam no coração. Assim, para ele, o cérebro era o responsável por esfriar o sangue que esse órgão superaquecia.

Posteriormente, foi desenvolvida a teoria hipocrática ou humoral. Segundo essa teoria, o corpo funcionava de acordo com o equilíbrio de quatro líquidos. Nessa linha de pensamento, um desequilíbrio nas proporções desses líquidos levaria ao desenvolvimento de uma doença ou a uma alteração da personalidade. Assim, analisando as durezas do cerebelo e do cérebro, defendeu que o último seria o órgão que processava as sensações e se ocupava da memória.

Dentro desse debate, René Descartes, entre os anos 1630 e 1650, difundiu a teoria mecanicista. Além disso, estabeleceu a dualidade corpo-alma, na qual o cérebro seria o responsável pela conduta. Também destacou a glândula pineal como a via de comunicação entre as duas dimensões. Foi assim que Descartes se consagrou como o pai desse debate mente-cérebro que ainda hoje continua sendo objeto de discussão para muitos neurocientistas.

O cérebro e a história da neurociência

História da neurociência no século XIX

Localizacionismo

Em 1808, Gall fez uma publicação sobre frenologia. Ou seja, todos os processos mentais ocorrem no cérebro, e há uma área específica para cada um. Esse localizacionismo levou a pesquisa sobre o mental a se focar ainda mais nesse órgão. Entre seus resultados, Brodmann descreveu cinquenta e duas áreas cerebrais, com seus conseguintes processos mentais associados.

Além disso, acreditava-se que o desenvolvimento de determinadas capacidades correspondia a um aumento do volume da região cerebral associada. Assim, teve início uma visão dinâmica do cérebro, entendendo que o órgão adaptava sua configuração física às demandas do ambiente, reservando um maior espaço para aquelas habilidades mais necessárias.

Dessa maneira, acreditou-se que era possível reconhecer habilidades intelectuais e morais por meio da forma e do tamanho das cabeças (à época não havia as técnicas de neuroimagem que temos agora).

Conectivismo

Mais tarde, em 1861, Broca apresenta à Sociedade Antropológica de Paris o caso de um paciente que perdeu a fala, mas não a capacidade de compreensão, após uma lesão em uma área que veio a receber seu nome. Isso provocou um grande entusiasmo em relação ao cérebro, pois era a primeira prova da relação entre cérebro e linguagem.

De maneira complementar, em 1874, Wernicke descreveu pacientes que conseguiam falar, mas não compreender. Isso representou uma nova perspectiva no estudo do cérebro, o conectivismo. Essa corrente propõe que apenas as funções mais básicas se limitam a determinadas regiões cerebrais, enquanto funções complexas são o resultado da interação de várias regiões localizadas.

Curiosamente, em 1885, foram realizadas as primeiras publicações sobre memória por Ebbinghaus, nas quais foram descritos métodos de avaliação usados ainda hoje. Pouco depois, em 1891, é cunhado o termo neurônio, graças à sua descoberta realizada por Cajal.

História da neurociência no século XX

No início do século XX, as duas Guerras Mundiais marcaram o desenvolvimento da história da neurociência. A Primeira Guerra Mundial deixou muitos mortos, mas também muitos feridos.

Milhares de pessoas ficaram com sequelas fisiológicas. Portanto, aumentou de maneira exponencial a necessidade de realizar reabilitações neurológicas. Isso representou um novo impulso para a pesquisa nessa área. Na Segunda Guerra, essa disciplina se consolidou e foram estabelecidas importantes intervenções neuropsicológicas por referências como Luria.

Aproximadamente 20 anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, em 1962, foi lançado o Neuroscience Research Program, uma organização que coloca em contato universidades do mundo todo. Seu objetivo era conectar acadêmicos de ciências comportamentais e neurológicas: biologia, sistema nervoso e psicologia.

Foi impulsionada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Nesse instituto, eram realizadas reuniões semanais, conferências e debates que inspiraram programas educativos específicos e adaptados.

“A neurociência é, de longe, o ramo mais excitante da ciência, porque o cérebro é o objeto mais fascinante do universo. Cada cérebro humano é diferente, o cérebro torna cada ser humano único e define quem ele é”.
Stanley B. Prusiner (Prêmio Nobel de Medicina, 1997)

Na sequência desse acontecimento, surgiu em Washington (1969) a Sociedade de Neurociência, a maior sociedade de neurociência do mundo. Atualmente, continua sendo uma referência mundial, assim como seu encontro anual.

Graças ao impulso desses anos anteriores e à união de disciplinas que estava em curso, em 1990 o Conselho Consultivo do Instituto Nacional de Transtornos Neurológicos e Acidentes Cardiovasculares publicou um documento chamado Década do Cérebro: respostas através da pesquisa científica. Nele foram incluídas catorze categorias de transtornos neurológicos pouco investigados até então, garantindo um grande avanço na pesquisa neurocientífica.

O homem e a história da neurociência

História da neurociência no século XXI

Entre todos os avanços técnicos e de conhecimento, o boom da neurociência já é um fato. Em 2002, foi lançado o projeto Blue Brain com a ideia de criar uma simulação do cérebro mamífero a nível molecular para estudar sua estrutura. Aos poucos, vários países do mundo todo estão se unindo a esse projeto tão interessante.

Em 2013, Barack Obama anunciou o lançamento de um grande projeto científico: BRAIN. Esse projeto compreende o nível do GENOMA e tem como objetivo desenvolver um mapa detalhado e dinâmico do cérebro humano. Inicialmente, foram investidos 100 bilhões de dólares. Naturalmente, é o novo grande desafio norte-americano, sendo, além disso, a ferramenta com a qual esse país pretende liderar a pesquisa sobre o cérebro.

No entanto, a Europa leva uma ligeira vantagem nesse sentido, implementando de forma paralela o projeto HUMAN BRAIN. O investimento é de mais de 1 bilhão de euros. O objetivo é que em aproximadamente 10 anos tenhamos dado um salto qualitativo em relação ao que conhecemos hoje sobre o cérebro. Assim, parece que ainda há aspectos interessantíssimos para descobrir sobre a neurociência.