Caridade é a mesma coisa que solidariedade?

outubro 16, 2019
Você sabe como a solidariedade se diferencia da caridade? Neste artigo vamos nos aprofundar em suas diferenças, entendendo como elas repercutem além da semântica.

Devido ao aumento da desigualdade social nas sociedades modernas, há uma parte da população que se vê obrigada a viver com poucos recursos. Assim, dia após dia somos bombardeados com imagens sobre as dificuldades enfrentadas pelos nossos semelhantes. Nesse contexto, aparecem como plano de fundo as palavras caridade e solidariedade.

Assim, podemos nos perguntar: até que ponto somos responsáveis ​​pela vida e pelo destino dos outros? Vivemos em um mundo em que a solidariedade prevalece cada vez mais e, pouco a pouco, nos tornamos socialmente conscientes do que acontece ao nosso redor.

Portanto, neste artigo abordaremos a caridade, a solidariedade e a justiça social.

Caridade, solidariedade e justiça social

Antecedentes

O sistema de ação social como conhecemos hoje teve diferentes modelos ao longo da história. A evolução dos modelos desse sistema são (Picornell, M.A. 2013):

  • Caridade
  • Beneficência.
  • Assistência Social.
  • Previdência social.
  • Serviços sociais.

No início, quando não existia um modelo de proteção dos cidadãos pelo qual o Estado fosse responsável, a assistência às pessoas em situação precária era realizada através da caridade.

Passando pelos diferentes modelos nomeados chegamos ao que temos hoje: serviços sociais, pilar fundamental do estado de bem-estar social.

Essa assistência primária consistia em dar esmolas, auxílios ou cestas básicas, atenção a órfãos, atendimento hospitalar… Tudo isso sem um controle por parte dos governos. Entendia-se, então, que a pobreza poderia ser legítima (doenças, orfandade…) ou ilegítima (vícios ou indolência).

“A caridade é humilhante porque é exercida verticalmente, de cima para baixo; a solidariedade é horizontal e implica respeito mútuo”.
-Eduardo Galeano-

Caridade, solidariedade e justiça social

Para especificar um pouco mais e diferenciar com mais exatidão, explicaremos cada um dos termos:

O conceito de caridade, como afirmam Giraldo e Ruiz-Silva (2015), está vinculado à noção de assistencialismo. Não implica a busca por justiça ou igualdade, nem promove o desenvolvimento da capacidade de se empoderar daqueles que são beneficiados.

Em vez disso, pode-se dizer que a pessoa que prestou a ajuda sente satisfação. Não devemos esquecer, no entanto, que o dever de proteger os cidadãos é dos governos.

Por outro lado, a solidariedade, embora seja usualmente associada à filantropia, à caridade, ao altruísmo e à fraternidade entre os seres humanos (Vargas-Machuca, 2005, citado em Giraldo e Ruiz-Silva, 2015) implica alguma diferença se considerarmos a definição dada anteriormente.

A solidariedade pode ser entendida como uma “resposta humana às contradições da atualidade” (Bárcena, 2006).

A ação da solidariedade abrange desde uma ajuda momentânea que atenua uma situação específica até um esforço diário e inclusive constante que, de acordo com os autores citados acima, visa a redução do sofrimento humano e a manutenção da justiça.

A solidariedade na sociedade atual

Por fim, o termo justiça social nasce do sentimento de desigualdade que existe no mundo, bem como da necessidade de construir uma sociedade melhor.

De fato, Aristóteles (citado em Torrecilla e Castilla, 2011) falou em uma de suas obras sobre a justiça distributiva: dar a cada um o que lhes é devido; isto é, proporcionalmente à sua contribuição para a sociedade, às suas necessidades e aos seus méritos pessoais”.

Atualmente, o conceito “justiça social” é complexo e dinâmico. Para a ONU, a justiça social é um princípio fundamental para a convivência pacífica e próspera, dentro dos países e entre eles.

A busca pela justiça social universal representa o núcleo de sua missão na promoção do desenvolvimento e da dignidade humana.

O mundo está em constante mudança. Portanto, é necessário adotar posições que promovam a igualdade e a justiça. Não tanto para atenuar momentaneamente uma situação, mas para disponibilizar às pessoas as ferramentas necessárias para melhorar suas vidas.

Em resumo, como afirma Griffiths, 2003, a justiça social deve ser um projeto dinâmico, nunca completo, finalizado ou alcançado. Assim, destaca-se um lema: lutar para construir e conseguir um lugar melhor.

  • Amengual, G. (1993). La solidaridad como alternativa: notas sobre el concepto de solidaridad.
  • Giraldo, Y. N., & Ruiz-Silva, A. (2015). La comprensión de la solidaridad. Análisis de estudios empíricos. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud13(2), 609-625.
  • Picornell, Antonia. Historia y marco constitucional de los Servicios Sociales. Universidad de Salamanca. Salamanca. 2013
  • Torrecilla, F. J. M., & Castilla, R. H. (2011). Hacia un concepto de justicia social. REICE. Revista Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio en Educación9(4), 7-23.