O castigo na educação das crianças

· julho 4, 2018

O castigo é um método muito presente em nossa sociedade. Desde tirar brinquedos de uma criança por mau comportamento, até penalizar os adultos por cometer infrações. Vemos no castigo uma maneira de reduzir ou evitar aqueles comportamentos de que não gostamos. Mas, o castigo é útil na educação? Quais são suas consequências? Neste artigo, tentaremos responder a essas perguntas e falar sobre o papel do castigo na educação das crianças.

É possível ouvir da boca de muitas pessoas a frase “um castigo a tempo evita muitas bobagens”. Deve ficar claro que a educação é uma questão muito séria e não pode ser reduzida a experiências específicas ou opiniões individuais. O uso de frases como a mencionada anteriormente nos distancia do critério científico no qual as práticas educacionais devem se basear.

Para investigar a utilidade e as consequências dos castigos na educação, nos concentraremos nos dados empíricos. No entanto, é importante lembrar que uma visão pessoal pode nos levar a uma interpretação totalmente errônea do assunto; por outro lado, os dados das pesquisas nos fornecem informações muito úteis sobre a punição e suas implicações educacionais. Vamos nos aprofundar.

Pai brigando com sua filha

Princípios de recompensa e castigo na educação

Antes de discutir a utilidade e as consequências da punição na educação, é essencial entender o princípio que a governa. Por que punir uma pessoa nos permite reduzir o comportamento manifestado? A resposta para essa pergunta vem do condicionamento funcional de B. F. Skinner, um dos pais do behaviorismo, que fez grandes contribuições para a psicologia da aprendizagem.

O condicionamento operante diz mais ou menos que quando um comportamento é reforçado, aumentará sua probabilidade de se repetir. Ou seja, quando recebemos algo positivo como resultado de uma determinada ação, tenderemos a voltar a agir assim no futuro.

Com o castigo acontece o contrário: quando um comportamento é castigado, será reduzida a sua probabilidade de repetição. A evidência a favor do condicionamento operante é abundante e a teoria tem sido amplamente demonstrada (tanto em animais humanos quanto não humanos).

No entanto, a complexidade da aprendizagem é muito alta e não é simplesmente reduzida às premissas que mencionamos. Um aspecto chave para entender os efeitos de recompensa e punição na educação é sua natureza instrumental. Quando recompensamos ou castigamos, modificamos o comportamento porque o sujeito espera esse prêmio ou essa punição. Isto é, o sujeito se move pela motivação extrínseca.

Da motivação extrínseca se deduz que o novo comportamento será mantido enquanto a punição ou a recompensa forem mantidas. É importante entender que o condicionamento operante é uma aprendizagem associativa; o sujeito não entenderá por que o comportamento está certo ou errado, ele simplesmente saberá que determinado comportamento é seguido por certas consequências.

Consequências e problemas do castigo na educação

Agora que já conhecemos os princípios que governam o condicionamento operante, vamos nos voltar para a utilidade e as consequências do castigo na educação.

Quando educamos uma pessoa, não procuramos moldá-la à nossa vontade, mas sim desenvolver seu potencial intelectual e sua visão crítica da sociedade. Esse é o objetivo da educação e da premissa que guiará nossa análise.

Mãe dando bronca em filha

O castigo, apesar de mostrar sua eficácia quando se trata de moldar o comportamento, é um método bastante deficiente na educação. As razões que sustentam essa afirmação são as seguintes:

  • A modificação de conduta está condicionada à existência da punição. Como mencionamos anteriormente, o comportamento será mantido apenas enquanto a punição existir. Se a punição desaparecer, o comportamento negativo voltará a aparecer. Isso nos mostra que não existe um aprendizado profundo sobre o que é certo ou errado, mas simplesmente um aprendizado associativo.
  • Possível aparecimento do desamparo aprendido. Se não é apresentado junto ao sujeito um comportamento alternativo junto com a punição, ele pode ser incapaz de encontrá-lo por si mesmo e ficar paralisado. Por exemplo, uma criança que se esforça para passar de ano, mas não consegue e é castigada por isso. Essa forma de agir pode fazer com que a criança assuma a punição e se veja incapaz de conseguir agir “corretamente”. O desenvolvimento dessa atitude pode afetar negativamente sua autoestima.
  • Educar com violência, criar pessoas violentas. Quando os castigos são violentos (físicos ou psicológicos), podem surgir consequências fatais na educação das pessoas. Os humanos aprendem em grande medida por imitação e imersão em um contexto social; se nosso entorno resolver problemas com violência, aprenderemos a responder da mesma forma ao que acontece conosco, além das sequelas emocionais que surgirão.
  • Associar o castigo à pessoa e não ao comportamento. Em muitas ocasiões, quando o sujeito não entende por que seu comportamento está errado, ele irá associar a culpa à pessoa que executa a punição. O sujeito acreditará que a punição é um capricho egoísta de quem a transmite. Nessas ocasiões, a pessoa não reduzirá a frequência de seu comportamento, mas evitará aquele que administra a punição.

Como podemos ver, educar uma pessoa é algo complexo e cheio de nuances. O castigo é uma solução simples e fácil, mas extremamente superficial e perigosa em muitas ocasiões. Embora os comportamentos negativos não devam ficar impunes, educar em valores é um pouco mais complexo.

Uma boa educação é governada por um estilo educacional democrático, crítico e baseado no debate. Quando uma criança tem um comportamento negativo, deveria ser seguida por uma discussão sobre o motivo pelo qual está errada, quais alternativas existem e como ela pode resolver os problemas que criou.

A educação é uma questão muito séria, já que determina boa parte de nossa vida futura. Através da pesquisa científica e da mudança progressiva de nossas práticas, podemos caminhar na direção certa.