Cavaleiro da Lua e Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI)

Em Cavaleiro da Lua, a Marvel se aprofunda no transtorno dissociativo de identidade (TDI). Steven Grant, um doce vendedor de souvenirs, esconde uma série de alter egos originados a partir de um trauma de infância... Quais são os acertos e os erros desta série?
Cavaleiro da Lua e Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI)

Última atualização: 16 junho, 2022

As alegorias de saúde mental são um tema recorrente no universo Marvel. Isso foi visto em Homem de Ferro 3, por exemplo, com um Tony Stark sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático. Da mesma forma, também em WandaVision, explorou-se o universo do trauma de forma original. Agora, com Cavaleiro da Lua, descobrimos um dos personagens mais fascinantes e caóticos de toda a família de super-heróis.

O Cavaleiro da Lua mostra um claro transtorno dissociativo de identidade (TDI). Ao longo da série, vemos como a sua condição psicológica é o eixo central da trama e de sua marcante caracterização. Aqui não há grandes elementos sobrenaturais — quando muito, fantasiosos. Assim, o seu protagonista não vem de Krypton, não foi picado por uma aranha e também não possui um gene mutante.

Talvez seja isso que mais agrega valor à série. Além disso, também o fato de que, pela primeira vez, tenta-se corrigir alguns velhos tropeços que, ao longo da história do cinema, estiveram vinculados a esse transtorno. Vamos nos lembrar, por exemplo, do filme Fragmentado, de M. Night Shyamalan, no qual James McAvoy interpretou um extraordinário, porém sádico, jovem com 23 personalidades diferentes.

Também não podemos nos esquecer de Norman Bates, aquele simpático dono de hotel que, mais tarde, transformaria-se em um assassino violento ao encarnar a personalidade de sua mãe. Assim, a chamada “personalidade múltipla” sempre foi apresentada como uma condição tão perigosa quanto violenta. Entretanto, nesta produção da Marvel, vemos pequenas mudanças.

Cavaleiro da Lua
Ao longo da história do cinema, dos quadrinhos e da televisão, fomos levados a acreditar que as pessoas com transtorno de personalidade múltipla são violentas.

Cavaleiro da Lua e suas quatro personalidades

Cinema, televisão, literatura e quadrinhos nos mostraram célebres vilões que sofriam do transtorno dissociativo de identidade (TDI). Stevenson nos presenteou com o seu famoso romance O Médico e o Monstro, por exemplo. Enquanto isso, a DC Comics nos trouxe Harvey Dent (Duas-Caras), um perigoso antagonista do Batman. Agora, Cavaleiro da Lua encarna um personagem caótico que é herói e anti-herói ao mesmo tempo.

Trata-se de uma oportunidade única para dar uma visão mais abrangente desse transtorno de personalidade. O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) é uma condição rara, com incidência entre 0,01 e 1% na população. Da mesma forma, uma pesquisa publicada na Harvard Review of Psychiatry também mostra algo muito importante nesse sentido.

Estamos diante de uma realidade clínica que geralmente é acompanhada de inúmeros mitos. De fato, esta não deixa de ser uma das alterações mentais mais marcantes que existem. Como resultado, isso a torna uma “bucha de canhão” para qualquer roteiro cinematográfico. No entanto, a “múltipla personalidade” surge como consequência direta de um trauma psicológico da infância. E isso é muito bem retratado em Cavaleiro da Lua.

Quem é o Cavaleiro da Lua?

A história original dos quadrinhos varia bastante daquela que foi adaptada para o mundo da televisão. Neste último formato, descobrimos Steven Grant, um homem apaixonado pela cultura egípcia que tenta levar uma vida tranquila, trabalhando em um museu como vendedor de souvenirs. Porém, ele tem um problema: apresenta episódios de amnésia e acorda em lugares estranhos.

A origem dessas alterações está justamente no transtorno dissociativo de identidade. Afinal, Steven Grant é originalmente Marc Spector; essa é a sua personalidade hospedeira, enquanto Steven é um alter ego. Ele o criou para que tivesse uma personalidade que desconhecesse os abusos e negligências sofridos durante a infância.

A partir dos quadrinhos, sabemos que, quando criança, ele fugiu da Tchecoslováquia com os pais para os Estados Unidos, a fim de escapar dos nazistas. Como resultado de um episódio traumático, ele acaba em um hospital psiquiátrico. E é lá que ele desenvolve uma nova personalidade que permite que saia do manicômio e tenha uma série de profissões arriscadas. Desde fuzileiro naval até boxeador e também mercenário.

Como resultado da profanação de uma tumba real no Egito, Marc tem um encontro com Khonshu, o deus da Lua, que propõe um trato. Ele salvará a sua vida em troca de que ele seja a sua encarnação na Terra…

Quantas personalidades ele tem?

O Cavaleiro da Lua mostra uma variedade de personalidades que vão desde o luminoso até o sinistro. São as seguintes:

Steven Grant

Grant é o personagem central da série e também quem mostra todos os tipos de conflitos. Ele é humano, simples, quase não tem amigos e se debate na constante tentativa de descobrir o que está acontecendo com ele. Nos quadrinhos, entretanto, ele tem certas semelhanças com o Batman: ele é um milionário que constrói todo tipo de tecnologia para que o seu outro alter ego, Marc Spector, possa realizar as suas vinganças e patrulhas noturnas.

Marc Spector

Marc é a personalidade hospedeira do Cavaleiro da Lua. Ele foi boxeador, fuzileiro naval e um poderoso mercenário. Ele é habilidoso, forte e também um herói violento que, muitas vezes, fica no limite entre o bem e o mal.

Jake Lockley

Este é talvez um dos alter egos mais interessantes. Jake é motorista de táxi e patrulha as ruas coletando informações, mergulhando assim nos cenários mais truculentos e sombrios de Nova York.

Cavaleiro da Lua

O Cavaleiro da Lua aparece como uma entidade aparentemente alheia ao transtorno dissociativo de identidade do protagonista. Ele é o deus Khonshu, que usa armadura branca e representa o anti-herói.

Cavaleiro da Lua
As pessoas com transtorno dissociativo de identidade (TDI) nem sempre têm controle consciente sobre as suas identidades fragmentadas ou alter egos.

Quais são os acertos e os erros da série em relação ao transtorno dissociativo de identidade (TDI)?

Cavaleiro da Lua mostra diversos acertos e também alguns aspectos que poderiam ser melhorados na caracterização do transtorno dissociativo de identidade (TDI). É verdade que, para criar um produto ficcional atraente, é necessário moldar certos aspectos. No entanto, é sempre aconselhável esclarecer quais detalhes não estão totalmente de acordo com a realidade. Vamos analisá-los.

Acertos pelos quais somos gratos à série

Se há algo pelo qual agradecemos à série Cavaleiro da Lua é a representação do sofrimento mental de quem apresenta essa condição. Oscar Isaac executa com perfeição o universo psicológico de perturbação típico desse tipo de realidade.

  • As pessoas com transtorno dissociativo de identidade (TDI) realmente não sabem o que há de errado com elas até serem diagnosticadas. Nosso protagonista pensava que, na verdade, estivesse sofrendo de um distúrbio do sono.
  • O que geralmente é mais preocupante para a pessoa é vivenciar as ausências, esquecendo-se de blocos de tempo muito longos que ela não sabe como explicar. De fato, a amnésia é um fenômeno recorrente nessa condição.
  • Quem apresenta essa realidade mental também não sabe quando aparecerá uma ou outra personalidade.
  • Também é um acerto lembrar que o transtorno dissociativo de identidade se origina a partir de um trauma psicológico na infância.

Ter um problema de saúde mental não é sinônimo de ser violento. Embora o Cavaleiro da Lua tenha alter egos pacíficos e nobres, ele mostra personalidades que levam à agressividade. Vamos evitar estigmatizar ainda mais essa realidade.

Erros ou aspectos de Cavaleiro da Lua que deveriam ser repensados de outra forma

Primeiramente, as pessoas com transtorno dissociativo de identidade (TDI) nem sempre têm controle consciente sobre as suas identidades fragmentadas ou alter egos. Na série, porém, vemos como no momento em que Steven se torna consciente de sua característica, ele incita Marc a aparecer quando se sente em perigo.

  • Marc e Steven conseguem trabalhar juntos, unindo-se para enfrentar o dia a dia. Entretanto, devemos ter em mente que são necessários anos de terapia para que a personalidade hospedeira consiga integrar os seus alter egos. É algo muito difícil.
  • Por outro lado, muitas das pessoas que apresentam esse transtorno não têm consciência da sua história de abuso. O protagonista, no entanto, sabe a verdade.

Por fim, mas não menos importante, é necessário destacar algo fundamental. No terceiro episódio de Cavaleiro da Lua, Marc enfrenta uma série de homens supostamente perigosos. A certa altura, ele perde a consciência e, quando acorda, essas pessoas estão mortas. Há uma terceira personalidade que, aparentemente, realizou esse ato tão drástico.

Mais uma vez, falando a partir do campo da psicologia, um aspecto deve ficar claro. Ter um problema de saúde mental não é sinônimo de ser violento. De alguma forma, estamos mais uma vez voltando a esse estereótipo que devemos derrubar. É verdade que Cavaleiro da Lua não deixa de ser uma obra fictícia, mas não vamos adicionar ainda mais estigmas a realidades que, por si só, já são bastante difamadas.

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  • Gillig P. M. (2009). Dissociative identity disorder: a controversial diagnosis. Psychiatry (Edgmont (Pa. : Township))6(3), 24–29.
  • Putnam FW. Recent research on multiple personality disorder. Psychiatr Clin North Am. 1991 Sep;14(3):489-502. PMID: 1946019.