Os anti-heróis e seu apelo sombrio: qual é a razão desse fascínio?

12 Dezembro, 2020
Atualmente, os heróis foram substituídos pelos anti-heróis que, de alguma forma, são mais atraentes para nós. Eles são falíveis, infelizes na sua grande maioria, e também produtos de uma sociedade falida. Vamos descobrir o que mais há por trás desse perfil.

Walter White, Tony Soprano, Don Draper, Demolidor, Jessica Jones, Malévola… Poderíamos estender muito mais esta lista e encontraríamos, sem dúvida, muitos dos nossos personagens favoritos do mundo do cinema, televisão, quadrinhos ou literatura. Os anti-heróis nos fascinam. Os seus valores morais são, às vezes, questionáveis ​​e até passíveis de punição, mas ainda assim, somos atraídos por esse lado negro.

Da mesma forma, vimos como esse tipo de perfil psicológico continua a se posicionar com mais força em nossa cultura por mais de uma década. Por alguma razão, não somos mais atraídos por figuras virtuosas, aquelas que Carl Jung definiu em seu arquétipo do herói e que enfrentavam o mal. Os nossos salvadores eternos, aqueles que traziam a luz para esconder as trevas, não nos inspiram mais.

A razão? Não existe uma, na verdade existem muitas. O antropólogo Lévi-Strauss dizia que nenhum mito, lenda ou figura arquetípica é casual, pois todas essas entidades têm a sua representação no mundo real. De alguma forma, começamos a nos sentir mais próximos daqueles personagens falíveis, imperfeitos e, às vezes, sem moral.

Vamos conhecer as causas e o relevo interno por trás da máscara do anti-herói.

Walter White de Breaking Bad

Os anti-heróis: quem são eles? Por que nos atraem tanto?

O tempo dos verdadeiros heróis parece ter expirado; o seu reinado pode terminar muito mais cedo do que pensamos. Figuras como Hércules e Perseu deixaram de brilhar há muito tempo, e embora o mundo da literatura tenha nos trazido figuras inesquecíveis como o Conde de Monte Cristo, James Joyce renovou esse conceito. Ele nos deu o seu Ulisses e nesse romance, de repente, entramos em contato com um grupo de anti-heróis que beira o cômico e o trágico.

De alguma forma, todo anti-herói tem exatamente esses mesmos ingredientes: o véu do traumático e o reverso do cômico. O Coringa é um exemplo, e embora às vezes pensemos nele como um vilão, ele carrega em seu DNA a essência do anti-herói. É um homem com um passado terrível que se veste de palhaço, que ri da crueldade e que pinta um sorriso no rosto marcado pela tristeza.

É fácil ter empatia com o anti-herói porque ele nem sempre está feliz e isso, nos tempos atuais, é fácil de entender. Vamos mergulhar um pouco mais fundo nesse conceito.

Os verdadeiros anti-heróis e os anti-heróis imperfeitos

É importante não confundir o anti-herói dos manuais com aquele que é simplesmente imperfeito. Tony Stark (Ironman) ou o próprio Batman simbolizam este último. Eles têm suas luzes e suas sombras, um é excêntrico e até irresponsável e o outro tem aquele passado complicado em função da morte de seus pais. No entanto, ambos ainda são heróis salvadores, personagens que resolvem grandes problemas e, como Carl Jung apontou, simbolizam o arquétipo do salvador.

Agora, os verdadeiros anti-heróis não salvam ninguém; na verdade, eles têm trabalho suficiente para garantir que se levantem todos os dias. São figuras que emergem da adversidade, do trauma, da perda ou traição. A partir daí, eles criam um mundo particular, no qual governam com as suas leis e o seu próprio sistema de valores, muito diferentes da maioria.

O bem e o mal se dissolvem e podem navegar em ambas as esferas, sendo capazes de grandes feitos e atos que violam completamente a lei.

É fácil sentir empatia por eles

Os heróis são admirados, mas é mais fácil se identificar com os anti-heróis. Como pode ser? É contraditório dizer que a pessoa pode entrar na pele de personagens como Walter White ou Tony Soprano e desfrutar de cada um de seus atos. No entanto, é assim. O nosso senso de empatia nos faz identificar mais com uma pessoa infeliz, desesperada e frustrada que age contra um sistema falido.

Vamos nos lembrar de Walter White, que conseguiu conquistar a nossa simpatia por ser um professor de química do ensino médio com câncer que decide produzir metanfetamina para sustentar a sua família. Pensemos também em Malévola, uma fada traída e perseguida por um amante que, além de abandoná-la, volta mais tarde para arrancar as suas asas.

É muito fácil projetar a nossa identificação com este tipo de figura. O seu lado negro é atraente porque sentimos empatia pelo motivo que os levou a essa dimensão.

Em uma sociedade fracassada, o anti-herói nos liberta

The Punisher, Daredevil, Jessica Jones... Nos últimos anos, houve cada vez mais adaptações para a telinha desses personagens do mundo dos quadrinhos. Há algo nos anti-heróis que age como um bálsamo, como um agente catártico. Eles representam muitas das coisas que pensamos, mas que nunca colocaríamos em prática. Eles se vingam e agem fora da lei para proporcionar justiça (a sua justiça) a uma sociedade falida.

Às vezes, o anti-herói é capaz de reprimir essas injustiças. As suas reações extremas também nos são (secretamente) atraentes. Admiramos a sua determinação em relação às coisas que nunca ousaríamos mudar.

Malévola

O anti-herói nunca muda (e queremos que continue assim)

O anti-herói mente, pode ser cruel, trair e até matar alguém violentamente. Eles podem ser contraditórios, podemos odiá-los instantaneamente e dizer a nós mesmos que é melhor esquecê-los. Nós os evitamos em algum momento porque desafiam os nossos códigos éticos e morais, mas ainda assim, mais cedo ou mais tarde queremos saber mais sobre eles… Desejamos ver outro filme, outro capítulo da série, ler outra revista ou outro livro.

No fundo, não queremos que eles mudem. Assim, quando o super-herói se desvia do caminho do bem, ele faz o impossível para voltar ao bom caminho. O anti-herói, por outro lado, jamais deixará de ser o que é. E nós os queremos assim, imperfeitos.

Para concluir, atualmente os heróis foram substituídos por esses anti-heróis que, de alguma forma, agem como espelhos dos nossos desejos mais sombrios, aqueles que jamais revelaríamos em voz alta.