Descobrindo Norman Bates

· setembro 25, 2018

Norman Bates é o protagonista de um dos filmes mais icônicos e celebrados da história do cinema: Psicose (1960), de Alfred Hitchock. Anthony Perkins foi o responsável por dar vida a esse assustador e complexo personagem que ficou no imaginário popular como a personificação do psicopata.

A história de Bates é profunda, desoladora e arrepiante. Embora a versão mais conhecida seja a de Hitchcock, vale destacar que, na verdade, o filme foi inspirado no romance homônimo de Robert Bloch. Por sua vez, o personagem de Norman Bates é baseado no assassino Ed Gein.

Retomando a magia do preto e branco, daquele terror puro que inundava as salas de cinema durante a primeira metade do século XX, distanciado de sua vertente mais atual e comercial, adentramos em um mundo que apenas um mestre como Hitchcock poderia projetar com tanta minuciosidade. Um mundo no qual o medo reside na nossa imaginação, na tensão e na sugestão.

Psicose nos presenteou com cenas que entraram na história, que se transformaram na representação do terror por excelência, e nos apresentou a Norman Bates, um assassino que, no fundo, nos encanta, nos fascina e nos faz voltar a acreditar na magia do cinema.

Após o sucesso de Psicose, a carreira de Anthony Perkins tomou um rumo diferente que acabou por vinculá-lo para sempre ao personagem de Norman Bates. Parecia que todo mundo queria tirar proveito do sucesso do longa. Foram feitas continuações, nas quais Perkins voltou a encarnar o personagem e, inclusive, dirigiu um dos filmes.

Dessa forma, Psicose marcou um antes e um depois nos filmes de terror, abriu as portas para explorar novos temas a se questionar na mente humana. O simbolismo é tamanho que podemos aplicar alguns conceitos da psicanálise ao próprio filme, como se se tratasse de um sonho ou de um poema complexo. Psicose constrói de forma magistral a perturbada mente de Norman Bates.

A mãe, os símbolos e a psicanálise

Hitchcock foi deixando pistas do que realmente acontecia em Bates Motel. Desde a chegada da jovem Marion, intuímos que alguma coisa não estava se encaixando muito bem, que algo estranho acontecia com Norman Bates. Na verdade, o filme é um tipo de quebra-cabeça simbólico que vai nos dando indícios da escuridão que habita a mente de Norman. Essa forte carga simbólica adquire ainda mais sentido se, além disso, investigarmos um pouco o passado do próprio diretor, Alfred Hitchcock, cujos filmes sempre tiveram ligações com o mundo da psicanálise, deixando marcas de seus próprios traumas infantis.

Assim como Bates, Hitchcock perdeu o pai na juventude e sua mãe se transformou em uma mulher totalmente controladora. Além disso, ele tinha uma certa fobia de pássaros, elemento presente ao longo de todo o filme, antecipando a seguinte produção do diretor: Os Pássaros (1963). A interpretação do pássaro tem sido associada à divindade, à adivinhação e, ao mesmo tempo, é uma figura que evoca liberdade; liberdade da qual Bates carece completamente. Os pássaros que vemos no filme estão mortos, dissecados, ou seja, foram despojados de qualquer símbolo de poder, de sua liberdade. Eles aparecem estáticos e adquirem conotações negativas.

Norman Bates

As referências às aves não param por aí. O sobrenome de Marion é Crane (garça) e ela veio de Phoenix (fênix). Durante a cena, Bates fala para Marion sobre os pássaros e diz que ela come como um pássaro. A associação desses animais com Marion também não é casual, pois, nas gírias, a palavra bird (pássaro, em inglês) é associada à feminilidade. Marion é uma mulher atraente e Norman Bates se sente atraído por ela, algo que representa uma ameaça para a figura materna e, como consequência, surge a necessidade de destruir a rival.

O complexo de Édipo está presente em Bates desde a infância. Ao carecer de figura paterna, a união com a mãe se tornou muito mais forte, vinculando também sua libido a ela. Intui-se que Bates pode ter sofrido abusos sexuais por parte de sua mãe e vemos que ele mostra sentimentos conflitantes por ela. Por um lado, sente raiva, mas também não consegue se desvincular, sentindo uma dependência excessiva. Ao mesmo tempo, quando sua mãe começa uma relação sentimental com outro homem, Norman não consegue suportar a ideia de perdê-la. Por isso, elimina seu rival.

Ao longo do filme, vemos inúmeras cenas de espelhos, reflexos, água… A água tem certas conotações sexuais. A famosa cena do chuveiro, apesar de se tratar de um assassinato, possui uma forte carga simbólica vinculada ao desejo sexual. Longe de ser desagradável, tem componentes que fazem com que a cena seja interpretada como desejada. A chuva também marca o primeiro encontro entre Norman Bates e Marion. Ao mesmo tempo, antecipa que alguma coisa vai acontecer.

Cena do filme 'Psicose'

Norman Bates, a explicação

A casa de Norman Bates também pode ser interpretada a partir da psicanálise, pois tem três planos, assim como os níveis estabelecidos por Freud. O andar de cima corresponde ao “superego”, lugar em que vemos a sombra da mãe de Bates; no térreo temos o “ego”, onde Bates projeta uma imagem de aparente normalidade para os outros; por fim, no porão, chegamos ao inconsciente, o lugar em que Bates e a mãe se fundem, onde não há mais censura, onde o cadáver de sua mãe descansa.

O próprio design e a decoração da casa já nos dão dicas de como é a personalidade de Norman Bates. Ou seja, funciona como uma analogia de seu próprio ser. Vamos descobrindo a casa pouco a pouco. A última parte que vemos é o porão, momento em que Norman se deixa ver como sua mãe e descobrimos a verdade. O ápice do filme chega quando Bates é avaliado por um psiquiatra, que explica que Norman já não é mais Norman, e sim sua própria mãe.

Cena do filme 'Psicose'

O ciúme se apoderou de Norman quando sua mãe começou um relacionamento com outro homem. Esse ciúme, somado à frágil mente de Norman, se tornou patológico e o levou à completa irracionalidade, assassinando tanto sua mãe quanto seu amante. Ao não aceitar a morte, ao não conseguir se desvincular da mãe, Norman roubou o cadáver e o manteve em casa. Essa personalidade violenta e esse gosto por “manter os mortos vivos” podem ser vistos em seu hobby de conservar aves dissecadas.

A culpa e a não aceitação da morte fizeram com que Norman acabasse por se transformar em sua mãe. Sua mente começou a se dissociar até o ponto de apresentar duas personalidades completamente definidas: a mãe e Norman. Essas personalidades entraram em conflito e, à medida que o tempo passava, a personalidade da mãe foi se tornando cada vez mais forte, chegando a manter conversas e acabando por dominar Norman.

A sublime cena final, na qual um já “desaparecido” Norman Bates nos olha desafiante enquanto pensa os pensamentos de sua mãe, é realmente reveladora. Uma demonstração de que a magia do cinema, às vezes, não precisa de efeitos especiais. Psicose continua nos fascinando e nos assustando. Esse filme faz com que as palavras da mãe de Bates penetrem em nossa mente nos deixando boquiabertos, nos fazendo sentir um medo difícil de explicar, difícil de esquecer.

 “O melhor amigo para um garoto é sua mãe”.
-Norman Bates-