As células emitem luz antes de morrer, segundo um estudo

A ciência também conhece a linguagem da poesia: assim como as supernovas, as células irradiam grandes quantidades de luz antes da sua morte. Conheça este interessante fenômeno a seguir.
As células emitem luz antes de morrer, segundo um estudo

Última atualização: 26 Maio, 2021

Há mais de 30 anos, quase por casualidade, o cientista alemão F. A. Popp e seus colegas descobriram que as células emitem luz antes de morrer. 

Esta observação, tão enigmática quanto elegíaca, levou anos para ser confirmada. No entanto, oferecia uma descrição particular das propriedades da célula humana que conseguia, em uma mesma hipótese, acariciar o imaginário popular e colidir frontalmente contra o ceticismo científico da época.

A ideia de que as células emitem luz é de uma beleza lírica apaixonante.

Um fenômeno tão poético reflete, segundo o cientista, a tendência programada das células humanas de emitir radiação luminosa ultrafraca – composta pelo que recebeu o nome de biofótonscom uma intensidade exponencialmente maior do que a habitual durante os momentos prévios ao fim das suas funções vitais.

Esta capacidade não é observável apenas nos últimos momentos de existência da célula; para Popp, seguidor fiel dos trabalhos do russo A. Gurwitsch, todo ser vivo pluricelular emite uma luz que, hipoteticamente, desempenha uma importante função na comunicação intercelular.

Este tipo de comunicação é indispensável para o trabalho coordenado das variadas funções da célula. Além disso, se articula em virtude de uma linguagem de regularidades e irregularidades nas emissões luminosas citadas.

“A luz que brilha com o dobro de intensidade dura a metade do tempo, e você brilhou muito, Roy”.
-Joe Turkel como Eldon Tyrell, Blade Runner (1982)-

Células emitindo luz

As primeiras conclusões às que, diante destas descobertas, o cientista alemão ousou chegar, foram bem aceitas no âmbito da saúde. A sua visão do assunto implicava a sugestão de que a quantidade e a característica dessas radiações biofotônicas mostram uma correlação estatística com o estado de saúde do organismo, em geral, e do corpo humano, em particular.

Este conceito levou à narrativa, defendida veementemente e de forma controversa por este homem da ciência, de que quanto mais caótica fosse a emissão de unidades luminosas, mais permitiria identificar diferentes doenças humanas. No entanto, esta peculiar perspectiva não pôde ser validada cientificamente de forma totalmente confiável.

Embora enfoques semelhantes sobre a saúde humana não contem com um respaldo oficial nem com uma aplicação clínica bem aceita, o que foi possível demonstrar é que esta emissão bioluminosa celular intervém, de certa forma, em processos de transmissão de informação entre células.

O cientista S. Mayburov, que publicou seus estudos na revista de tecnologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), é o responsável por este acordo científico entre a luz e a biologia da célula.

As células emitem luz, mas como isso é possível?

Uma realidade evidente é que as células vivas recebem a luz solar e a armazenam ao acumular as suas unidades constituintes: os fótons. De outra maneira, não existiria o fenômeno da fotossíntese e as plantas não obteriam energia para a sua subsistência.

Em um planeta sem plantas, o oxigênio respirável seria de uma escassez incompatível com a vida animal; sem os fótons, simplesmente não estaríamos aqui.

“A escuridão não existe. A escuridão é, na realidade, a ausência de luz”.
-Albert Einstein-

É lógico pensar que, de acordo com o princípio einsteniano de que a matéria não se destrói, e sim se transforma, a apropriação de fótons por parte da célula – para a realização das suas funções e a conservação das suas partes constituintes – traz consigo a reutilização dessa energia luminosa e a perda espontânea, como ocorre em todo sistema termodinâmico, de porções da energia em questão. Não é descabido pensar, portanto, na perfeita normalidade que envolve uma célula que emite luz.

Seguindo o raciocínio anterior, o prêmio Nobel A. Szent-Györgyi – um renomado fisiólogo húngaro do século XX – teorizou que a energia, tão imprescindível quanto é para a vida na Terra, não apenas é a moeda de troca em toda função e processo celular, mas, de maneira irrenunciável, é necessária para a manutenção da estrutura das células.

E essa energia, em sua variedade mais primigênia e precursora, é precisamente a energia que nasce como radiação luminosa da maior das fontes: o Sol.

A poesia de que a célula nos presenteie com sua luz antes de morrer

O próprio Popp propôs, a partir do seu conhecimento sobre as células sob situações de estresse, que esta ação de descartar rápida e intensamente seu teor luminescente nos momentos prévios ao seu falecimento respondia a um mecanismo de reequilíbrio do meio celular.

Assim, em uma tentativa de enriquecer seu meio externo e disseminar componentes energéticos que ainda possam ser úteis, a célula se desprenderia explosivamente da sua carga fotônica antes de deixar de existir.

Segundo Popp, o fato de que as células emitem luz responde a um mecanismo que permite reequilibrar o meio celular.

Considerações moleculares à parte, vislumbramos aqui uma metáfora que reflete, quase especularmente, a mesma explosão daquelas velhas estrelas conhecidas como supernovas. Ao colapsar gravitacionalmente nas instâncias finais da sua existência como astros, as supernovas emitem uma enorme quantidade de radiação luminosa que, a partir dos nossos observatórios, contemplamos como eternos esplendores.

“Este cosmo, que é o mesmo para todos, não foi feito por nenhum dos deuses e nem pelos homens, e sim sempre foi, é e será um fogo eterno e vivo que se acende e se apaga obedecendo a medida”.
-Heráclito de Efeso-

Supernova no espaço

Esta explosão serve, também, para fazer do meio galático um entorno mais enriquecido, para devolver a ele os átomos que milhões de anos atrás decidiram atrair uns aos outros para formar uma estrela nascente. Esses átomos vão fazer parte de outras novas estrelas, do mesmo modo que a energia de cada célula será a energia de muitas outras.

Talvez ambos os fenômenos sejam a expressão de uma mesma lei do Universo que opera em escalas tão díspares; talvez o menor seja reflexo do maior e vice-versa.

Embora saibamos tão pouco sobre a realidade, e apesar das limitações dos nossos métodos científicos, é preciso agradecer à ciência que, de vez em quando, fala conosco usando palavras dignas de poesia.

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