O cérebro ansioso e o ciclo da preocupação: o que o origina?

· março 16, 2019
O cérebro ansioso e os ciclos dos nossos pensamentos negativos e ruminantes seriam mediados, segundo a ciência, por uma alteração na amígdala cerebral.

O cérebro ansioso experimenta mais do que medo, experimenta angústia. Ele se sente esgotado e com seus recursos no limite, devido ao ciclo repetitivo de preocupação e à sensação permanente de estar rodeado por ameaças e pressões. A partir do ponto de vista da neurociência, já sabemos que essa condição pode ser originada por uma hiperatividade da nossa amígdala cerebral, o centro das emoções negativas.

Já dizia Napoleão Bonaparte que as preocupações deveriam ser como as roupas: peças que podemos tirar à noite para dormir com mais conforto e lavar após o uso. Ainda assim, cabe dizer que esses processos cognitivos são, em sua maioria, estados normais da mente.

Ad Kerkhof, psicólogo clínico da Universidade Vrije de Amsterdam, tem algumas ponderações sobre isso. Ficarmos preocupados com algumas coisas é, como acabamos de dizer, algo perfeitamente compreensível e lógico. O problema surge quando dia após dia ficamos preocupados com as mesmas coisas. Ou então quando nossa eficiência cognitiva falha e fazemos o pior uso possível desse dom que é a nossa imaginação.

Nesse contexto, há uma dúvida que os especialistas sempre tiveram no campo das neurociências e do estudo das emoções. O que acontece com o nosso cérebro para que ele caia nesse tipo de deriva psicológica? Por que chegamos ao ponto de não conseguir parar de pensar em algo?

A ansiedade é como o pincel de um habilidoso pintor alterando indefinidamente os enfoques mentais e processos cerebrais. Saber o que influencia esse processo será de grande ajuda para nós.

“Preocupar-se é uma perda de tempo e não tem nenhum sentido. É como passar todo o tempo com o guarda-chuva aberto esperando que chova”.
-Wiz Khalifa-

Rosto feito de arame

O cérebro ansioso e o sequestro da amígdala

Um cérebro ansioso é o oposto de um cérebro eficiente. Ou seja, enquanto o segundo otimiza os recursos, faz um bom uso dos processos executivos, goza de um equilíbrio emocional adequado e um baixo nível de estresse, o primeiro o contrário. Nele habita a hiperatividade, o esgotamento e, inclusive, a infelicidade.

Sabemos o que é a ansiedade e como é viver em meio a esse ciclo de pensamentos que, como uma erva daninha, não deixam de aparecer sempre no mesmo lugar, de novo e de novo. No entanto, o que está acontecendo no interior da mente? Em um estudo publicado na revista científica American Journal of Psychiatry de 2007, podemos encontrar uma resposta interessante.

Emoções e dor

  • Os doutores Stein M, Simmons A, e Feinstein, da Universidade da Califórnia, dizem que a origem de um cérebro ansioso está na amígdala e em nossa ínsula cerebral.
  • Há um aumento da reatividade dessas estruturas. O que acontece a seguir é que nossa sensibilidade emocional é muito mais intensa.
  • Essas áreas têm como função antecipar ameaças do nosso ambiente e induzir um certo estado emocional para que tenhamos as reações adequadas diante dos estímulos.
  • Acontece que quando a ansiedade nos acompanha durante semanas ou meses, o resultado é um aspecto muito singular. Nosso córtex pré-frontal, encarregado de favorecer o autocontrole e de racionalizar os nossos pensamentos, deixa de ser tão efetivo.

Em outras palavras, quem assume o controle é a nossa amígdala, acelerando assim a intensidade dos pensamentos obsessivos. Além disso, cabe destacar que os neurologistas já viram provas de neuroimagem de que a ansiedade gera dor no cérebro. A ativação no córtex cingulado anterior parece trazer essa evidência.

Cérebro pegando fogo

O cérebro ansioso e a preocupação excessiva

Sabemos que a preocupação excessiva pode nos levar a estados de ansiedade de maior ou menor gravidade. No entanto, por que há quem lide melhor com as preocupações cotidianas e, ao contrário, outras pessoas caem em ciclos obsessivos e ruminantes de ansiedade e estresse?

  • Um estudo da Universidade de Quebec realizado pelos doutores Mark H Freeston e Josée Rhéaume nos diz que há pessoas que fazem um uso eficiente das preocupações. Sabem retirar o efeito negativo, assumir o controle, reduzir a percepção de culpa e aplicar um pensamento proativo para encontrar uma solução para cada preocupação específica.
  • Outros perfis, ao contrário, longe de gerir adequadamente esses processos, ficam presos nos mesmos e também os tornam mais intensos.
  • Conforme esse trabalho nos explica, o cérebro ansioso teria, muitas vezes, um componente genético. Sabe-se também que as pessoas altamente sensíveis têm uma tendência maior a experimentar esse tipo de condição psicológica.

Como gerenciar as preocupações de maneira eficaz?

Como é de se esperar, ninguém quer ter um cérebro ansioso. Queremos um cérebro eficaz, saudável e resistente. Para isso, é necessário que aprendamos a controlar as preocupações para manter a ansiedade sob controle, pelo menos na medida do possível. Porque não podemos nos esquecer de que poucas realidades psicológicas são tão cansativas e podem nos esgotar e ser tão dolorosas quanto essa condição.

Vejamos a seguir algumas dicas simples para tentar desenvolver o controle sobre as preocupações:

Tempo para viver, tempo para se preocupar

  • Essa estratégia é tão simples quanto eficiente. Baseia-se em uma ferramenta da terapia cognitivo comportamental que recomenda estabelecer um período de tempo específico para as preocupações: 15 minutos pela manhã e 15 minutos à tarde.
  • Durante esse tempo podemos e devemos pensar naquilo que nos preocupa. Tentaremos, além disso, dar respostas para essas preocupações e gerar possíveis soluções.
  • Logo depois desse período de tempo não devemos permitir a entrada das preocupações. Diremos a nós mesmos e ao nosso cérebro ansioso que agora não é a hora para pensar nisso ou naquilo.

Lembranças positivas como âncoras

As preocupações são como corvos sobrevoando nosso campo mental. Chegarão sem que os tenhamos chamado, e ficarão voando sobre nossas cabeças mesmo quando não quisermos, fora do tempo que demos a eles.

Quando eles aparecerem, devemos estar preparados para convencê-los a ir embora. Um modo de conseguir fazer isso é diante da recordação de lembranças positivas e relaxantes. Poderemos evocar uma memória, uma sensação, iniciar uma visualização relaxante, etc.

Mulher na praia com vento e pássaros

Para concluir, é necessário que tenhamos em mente mais um aspecto: essas estratégias levam tempo e exigem vontade, constância e empenho para serem desenvolvidas. Não é nada simples domar a nossa mente, acalmar o nosso cérebro ansioso. Quando já passamos uma boa parte da nossa vida nos deixando levar por esse ruído chato que as preocupações excessivas deixam na nossa cabeça, fica mais complicado ainda persuadi-las a ir embora.

Mesmo assim, podemos conseguir. Só temos que apagar a angústia, dissolver as pressões e adicionar algumas esperanças renovadas no nosso olhar. Uma boa ideia também é recorrer ao exercício físico. O resto vai chegar pouco a pouco.

  • Shin, L. M., & Liberzon, I. (2010, January). The neurocircuitry of fear, stress, and anxiety disorders. Neuropsychopharmacology. https://doi.org/10.1038/npp.2009.83
  • Sánchez-Navarro, JP, y Román, F. (2004). Amigdala, corteza prefrontal y especializacion hemisferica en la experiencia y expresion emocional. Anales de Psicología , 20 , 223–240. https://doi.org/10.2174/138527205774913088
  • Stein, M. B., Simmons, A. N., Feinstein, J. S., & Paulus, M. P. (2007). Increased amygdala and insula activation during emotion processing in anxiety-prone subjects. American Journal of Psychiatry164(2), 318–327. https://doi.org/10.1176/ajp.2007.164.2.318