O que é o cérebro reptiliano e o como ele faz parte de nós?

· maio 21, 2018

A teoria dos três cérebros gerou uma série de mitos no imaginário popular sobre o funcionamento do cérebro desde os anos 60. Ela divide o órgão em cérebro reptiliano, paleomamífero e neomamífero. Mas a realidade é um pouco diferente dessa teoria. O cérebro é o órgão mais complexo do corpo nos vertebrados: contém entre 15 e 33 bilhões de neurônios interconectados e, além disso, é também a sede estrutural da consciência de cada um e origem de todas as nossas decisões inconscientes. O cérebro exerce um controle centralizado sobre todo o resto do organismo.

Mas como esse órgão adquiriu tamanha estrutura e complexidade? E que parte ou partes do cérebro são responsáveis por cada função? Durante a década de 60 do século passado, o físico e neurocientista americano Paul MacLean tentou dar respostas para essas perguntas desenvolvendo o que chamou de teoria do cérebro trino. Essa teoria tem como base aideia de que é possível identificar no cérebro humano três diferentes cérebros que teria aparecido em momentos diferenciados da evolução.

  • Cérebro reptiliano (o Complexo-R). Seria a parte mais instintiva do cérebro. Muitas das decisões inconscientes seriam tomadas aqui, com o objetivo de satisfazer as nossas necessidades básicas como reprodução, dominação, autodefesa, medo, fome, fuga, etc. A área também é responsável pelos processos automáticos como a respiração e o ritmo cardíaco, e se localiza no tronco encefálico, no diencéfalo e nos gânglios da base.
  • Cérebro paleomamífero ou sistema límbico: É a parte do cérebro responsável pelos sentimentos e por experimentarmos emoções. Segundo MacLean, é uma parte presente tanto em mamíferos quanto em aves. Para o sistema límbico só existe uma classificação binária para as coisas: agradável ou desagradável.
  • Cérebro neomamífero ou neocórtex: é a parte lógica, racional e também recreativa. Ela é própria dos mamíferos e está especialmente desenvolvida na espécie humana.
Cérebro humano

Esse esquema proposto por essa teoria é, na verdade, muito simplista. Essa simplicidade foi responsável pela sua não aceitação no meio acadêmico. De qualquer forma, ela parece ter sido popularizada e conquistou a mente do grande público. Essa situação permitiu a disseminação de várias ideias que não condizem com a realidade.

“A teoria do cérebro trino nunca menciona nenhuma pesquisa científica. É só uma imagem poética  sobre o modo como o cérebro evoluiu e funciona hoje nos homens. É triste ter caído no gosto do público e não estar certa, mas também não está completamente errada”.
-Paul King-

O cérebro reptiliano… não é tão reptiliano assim

O cérebro não evoluiu apenas por meio de uma adição de pedaços que refletem uma melhora progressiva e unidirecional como é possível deduzir do modelo de MacLean. Pelo contrário, todos os circuitos centrais do cérebro foram organizados ao longo do tempo, fazendo com que alguns deles se expandissem e aumentassem em complexidade.

Além disso, as etapas evolutivas não coincidem com as mencionadas por MacLean: o que ele chama de cérebro reptiliano possui estruturas muito similares a peixes e anfíbios, e os próprios répteis têm um sistema límbico e um equivalente simplificado do nosso neocórtex.

O cérebro reptiliano não é o culpado pelas nossas decisões inconscientes…

Se pesquisarmos um pouco sobre consumo e neuromarketing na internet, encontraremos uma série de referências à teoria de MacLean, assim como à importância do cérebro reptiliano no processo de decisão de compra dos consumidores. Essas referências estão baseadas na teórica causa da ativação funcional dessa parte do cérebro, que ocorreria a partir de respostas emocionais – ou seja, de decisões inconscientes – diante de estímulos sensoriais como uma paisagem bonita, a cor escura do sangue ou o cheiro de café.

Esse discurso, no entanto, é falho ao atribuir todas as decisões que não chegam à nossa consciência aos instintos do imaginário cérebro reptiliano. Isso porque esse tipo de decisão é muito intermediada pelas estruturas do sistema límbico. A amígdala, por exemplo, possui grande participação. Além disso, nos seres humanos, as decisões instintivas e emocionais também estão poderosamente relacionadas à totalidade do neocórtex. Os estudos mais recentes realizados com técnicas de neuroimagem já determinaram que a maior parte das decisões mentais são tomadas por uma rede de zonas cerebrais muito bem distribuídas.

Uma pesquisa realizada uma década atrás pelo neurologista John Dylan Haynes revelou que um pico de atividade cerebral durante um momento de decisão acontece 10 segundos antes do resultado do processo decisivo chegar à consciência, ou seja, 10 segundo antes das pessoas tornarem-se efetivamente conscientes das decisões. “Nossas decisões estão predeterminadas inconscientemente muito tempo antes que nossa própria consciência as perceba”. O curioso é que a maior parte dessa atividade recaía sobre o cérebro racional, mais especificamente o córtex préfrontal e parietal.

Homem pensando em seu dia

… e nem pelas nossas decisões relacionadas ao consumo

Os seres humanos, enquanto animais sociais, devem grande parte do seu sucesso evolutivo ao córtex. Ele se desenvolveu de modo que permitiu aos homens se relacionarem com seus semelhantes por meio de sentimentos de pertencimento. Dessa forma, nós nos socializamos muitas vezes de forma inconsciente através de comportamentos de imitação. O primeiro requisito para a empatia, por exemplo, é sempre “saber se colocar no lugar do outro”.

Para pensar: quando escolhemos tomar um café em uma franquia determinada ou comprar uma roupa em uma loja específica, fazemos isso movidos por um instinto primário, como a sede ou proteção contra o frio? Ou por um impulso mais complexo de pertencimento a um grupo ou comunidade considerado interessante?