O complexo mercado dos favores: entre a nobreza e os ressentimentos

O complexo mercado dos favores: entre a nobreza e os ressentimentos

agosto 19, 2017 em Psicologia 419 Compartilhados
O complexo mercado dos favores: entre a nobreza e os ressentimentos

Costuma-se dizer que é comum as pessoas se esquecerem da longa lista de favores que fizemos a elas, com exceção de apenas um, aquele que nos negamos a fazer. É como se o mercado de favores fosse um campo minado, cheio de condições e dívidas a pagar, quando na realidade nada deveria ser mais livre, sincero, humilde e altruísta que o simples ato de dar e receber.

Nietzsche nos explica em um dos seus livros que há tantas almas escravizadas atacando um favor recebido que se estrangulam com a corda da gratidão a vida toda. Estamos, sem dúvidas, lidando com um tipo de dinâmicas relacionais tão complexas quanto interessantes, pelo menos quando analisadas a partir de uma perspectiva psicológica. Algo que, de início, deveria ser positivo (fazer ou receber um favor ou um elogio costuma ser uma demonstração de uma boa relação), frequentemente acaba se transformando em um fato incômodo quando aparecem outros elementos de fundo.

“Como aumentaram os favores, aumentaram as dores.”
-Anônimo-

De fato, todos nós já passamos por essa situação alguma vez na vida. Quando alguém do nosso meio se aproxima para nos “pedir um favor”, nossos sinais de alerta despertam quase imediatamente. É algo automático porque em menos de um segundo fazemos inúmeras avaliações e especulações. Será que é algo sério? Será que ela vai achar que não posso negar seu pedido? Tempo, dinheiro, desistir de alguma coisa, me colocar em uma situação constrangedora, o que será?

Em meio a todos esses pensamentos, nossa boca já disse em voz alta “claro, o que você precisar”, especialmente se pessoa que está pedindo o favor é alguém com quem possuímos uma ligação estreita, na qual, portanto, sempre há uma “obrigatoriedade” implícita no momento de realizar esse pequeno – ou grande – pedido. São situações complicadas, nas quais estão misturadas emoções, pressões e, às vezes, despesas pessoais, portanto vale a pena ter algumas ideias claras nesses momentos.

Pedimos que você reflita sobre isso.

Mulher cansada de fazer favores

O doloroso mercado dos favores

Todos nós agradecemos quando alguém nos faz um favor, desde que, é claro, não nos façam sentir que estamos em “dívida”. Porque, se for assim, o que experimentamos é uma “ameaça”. É algo muito sutil, claramente, mas é uma realidade evidente e inequívoca. Algo desse tipo aconteceu, por exemplo, nas eleições presidenciais de 2008 nos Estados Unidos. Foi uma história realmente curiosa e digna de ser analisada.

Quando se organiza uma campanha eleitoral e se promove um candidato, é comum exaltar a experiência, as habilidades de liderança, as conquistas ou as pretensões legislativas do candidato. No entanto, quando apresentaram o republicano John McCain, cometeram um erro desastroso na abordagem.

Apresentaram McCain como um herói de guerra. Alguém que tinha feito enormes sacrifícios como soldado pelo seu país, alguém que tinha sido prisioneiro de guerra, alguém que havia sido torturado. McCain era uma pessoa que, portanto, deveria “ser recompensada”. Porque todos estavam em dívida com ele.

Essas palavras, estar “em dívida”, apareceram em praticamente todos os discursos. Ninguém da equipe de assessores conseguiu ver nem entender em nenhum momento que tal termo se traduz em nosso cérebro, de forma instintiva, como uma ameaça. Ninguém gosta de ter uma dívida. Ninguém gosta de ter que agir sob pressão. Se alguém nos faz um favor, a última coisa que desejamos é que depois nos exija ter que devolver um pedaço do nosso coração, como diria Shylock, o personagem de “O Mercador de Veneza”.

Coração com espinhos

E é exatamente isso que sentimos quase constantemente no nosso dia a dia. Se nos dão um presente, devemos devolver. Se nos convidam a um batizado, um casamento ou uma comunhão, somos “obrigados” a devolver em “espécie” (em dinheiro ou presentes) o equivalente ao custo desse convite. Passamos grande parte da nossa vida condicionados pelo que os outros fazem por nós, às vezes mesmo sem pedir, ou condicionados pelas críticas por não querer realizar algum dos favores que nos pedem.

Como agir em relação ao ciclo tóxico dos favores?

Dizer que no mercado de favores existe uma certa atmosfera tóxica não é cometer nenhum exagero. Do ponto de vista da psicologia social, somos lembrados que as relações mais positivas, fortes e satisfatórias são aquelas em que prestamos e nos prestam favores sem percebermos em nenhum momento a sombra da chantagem, da exigência ou da manipulação.

“Quando fizer favores, não se lembre. Quando recebê-los, não os esqueça.”
-Provérbio chinês-

Dessa forma, não podemos deixar de lado o fato de que “fazer favores” é comum em qualquer contexto e que, de algum modo, valida o vínculo constituído com a família, a companheira ou o companheiro, os amigos ou os colegas de trabalho. No entanto, não podemos negar que frequentemente nos deparamos com as típicas frases de “eu faria isso por você” ou “depois de tudo o que fizemos, agora você…”.

Fazer favores para os outros

Como podemos agir, portanto, perante esse tipo de dinâmica, nas quais percebemos com clareza esse cenário adverso e inclusive tóxico? Propomos que você reflita sobre as seguintes sugestões.

  • Evite, em primeiro lugar, atribuir um preço a cada favor que você fizer. Tudo que você realizar pelas outras pessoas deve partir do coração, não da obrigação. Você deve agir com liberdade e sempre estar em sintonia com os seus valores e a sua identidade.
  • Não aceite que ninguém faça por você algo que você não aprovou, não pediu, que provoca certo incômodo ou que, em longo prazo, possa representar um custo muito alto.
  • Ouça o seu instinto, a sua intuição. Quando nos pedem alguma coisa, existe uma voz interna que responde na nossa cabeça imediatamente se deveríamos ou não fazer esse favor. Verifique essa mensagem interna e sempre aja em conformidade com ela.
  • Se alguém não reagir bem quando negamos racional e justificadamente o pedido de um favor, avalie se essa relação é sincera.

Por fim, entenda que os favores deveriam ser presentes sem custo, demonstrações de um ato de reciprocidade baseado na confiança mais verdadeira, nunca na chantagem.  Além disso, lembre-se de que os melhores favores, aqueles dos quais nunca se esquece, são aqueles que são feitos sem que tenham sido pedidos. Aqueles que demonstram que somos capazes de antecipar necessidades das pessoas que amamos e respeitamos.

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