Cognição social: o que você sabe sobre este conceito?

O que é a cognição social?

junho 18, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Cognição social

O que é a cognição social? A cognição social não é mais do que um estudo da forma como processamos a informação (Adolphs, 1999). Neste processamento está inclusa a forma como codificamos, armazenamos e recuperamos informação de situações sociais.

Atualmente, a cognição social é o modelo e enfoque dominante na psicologia social. Esta surge em oposição ao behaviorismo puro, que rejeitava a intervenção de processos mentais na hora de explicar o comportamento (Skinner, 1974).

A cognição social alude à forma como pensamos sobre os outros. Nesse sentido, seria uma poderosa ferramenta para compreender as relações sociais. Por meio da cognição social entendemos as emoções, os pensamentos, intenções e condutas sociais dos outros. Nas interações sociais, compreender o que outras pessoas pensam e sentem pode supor uma vantagem enorme para nos desenvolvermos nesse contexto.

Homem observando mural de ideias

Como a cognição social funciona?

As pessoas não se aproximam das situações como observadores neutros – ainda que muitas vezes tentemos aparentar que sim. Na verdade, elas carregam seus próprios desejos e expectativas. Estas atitudes prévias vão influenciar o que vemos e lembramos.

Deste modo, nossos sentidos recebem informação que é interpretada e analisada. Posteriormente, essas interpretações são contrastadas com a informação que guardamos na memória.

Porém, esta descrição simples não é real. Existem outros fatores, tais como as emoções, que também condicionam o processo. Lembre-se de que os pensamentos influenciam as emoções, mas as emoções também influenciam o pensamentos (Damasio, 1994). Por exemplo, quando estamos de bom humor, o mundo é (ou parece) um lugar mais feliz. Quando estamos bem tendemos a perceber o presente com mais otimismo, mas também olhamos o passado e o futuro de forma mais positiva.

Como a cognição social se desenvolve?

A cognição social se desenvolve lentamente (Fiske e Taylor, 1991). Segue um processo de tentativa e erro baseado na observação. As experiências diretas e a exploração guiam a aprendizagem. Porém, o conhecimento social é muito subjetivo. As interpretações que podemos fazer de um evento social podem ser muito diferentes e errôneas.

Além disso, ainda que contemos com estruturas mentais que facilitam o processamento e a organização da informação, às vezes estas estruturas tão úteis também nos traem.

Estas estruturas ou esquemas influenciam a atenção, a codificação e a recuperação de informação, e podem nos levar a uma profecia autorrealizada. Esta é uma previsão que, uma vez feita, é em si mesma a causa de se tornar realidade (Merton, 1948).

Por outro lado, o conhecimento social é, em parte, independente de outros tipos de conhecimento. As pessoas que contam com habilidades intelectuais superiores para a resolução de problemas não necessariamente têm habilidades superiores para a resolução dos problemas sociais. As habilidades de resolução de problemas podem ser aprendidas ou ensinadas, separadas das capacidades intelectuais. Por isso, a melhora das inteligências, como a emocional ou a cultural, é tão importante.

Mulher com máscaras mostrando seu humor

Colocar-se na perspectiva dos demais

Um dos modelos mais úteis sobre a cognição social é o de Robert SelmanSelman antecipou uma teoria sobre a habilidade para se situar na perspectiva social dos demais.

Para esse autor, assumir a perspectiva social dos outros é a capacidade que nos dá o poder para compreendermos a nós mesmos e aos demais como sujeitos, permitindo-nos reagir diante da própria conduta do ponto de vista dos outros. Selman (1977) propõe cinco etapas de desenvolvimento para esta perspectiva social:

  • Etapa 0: etapa egocêntrica indiferenciada (de 3 a 6 anos). Até aproximadamente os 6 anos as crianças não conseguem fazer uma distinção clara entre sua própria interpretação de uma situação social e o ponto de vista do outro. Também não conseguem compreender que sua própria concepção pode não ser correta.
  • Etapa 1: etapa de tomada de perspectiva diferencial ou subjetiva, ou etapa informativo-social (de 6 anos a 8 anos). As crianças desta idade desenvolvem o conhecimento de que as outras pessoas podem ter uma perspectiva diferente. Porém, as crianças têm uma compreensão escassa sobre as razões que se escondem atrás dos pontos de vista dos outros.
  • Etapa 2: adoção de uma perspectiva autorreflexiva e tomada de perspectiva recíproca (8 a 10 anos). Os pré-adolescentes, nesta etapa, tomam a perspectiva do outro indivíduo. Os pré-adolescentes já são capazes de fazer diferenciações sobre as perspectivas dos outros. Também conseguem refletir sobre as motivações que são subjacentes a sua própria conduta a partir da perspectiva de outra pessoa.
  • Etapa 3: etapa da tomada de perspectiva mútua ou de uma terceira pessoa (10 aos 12 anos). As crianças podem identificar suas próprias perspectivas, as de seus companheiros, assim como as de uma terceira pessoa neutra. Como observadores em terceira pessoa, podem contemplar a si mesmos como objetos.
  • Etapa 4: etapa de tomada de perspectiva individual profunda e dentro do sistema social (adolescência e idade adulta). Há duas características que distinguem as concepções dos adolescentes das de outras pessoas. Em primeiro lugar, tornam-se conscientes de que os motivos, as ações, os pensamentos e os sentimentos são formados por fatores psicológicos. Em segundo lugar, começam a apreciar o fato de que uma personalidade é um sistema de características, crenças, valores e atitudes com sua própria história evolutiva.

Homem observando fotos

Duas formas de ver a cognição social

Dentro da psicologia, existem várias formas de entender a cognição social. Uma das mais importantes enfatiza a dimensão social do conhecimento. O conhecimento, segundo esta perspectiva, teria uma origem sociocultural, já que é compartilhado pelos grupos sociais.

O principal expoente desta ideia é Moscovici (1988), que falava das “representações sociais”.  Estas são ideias, pensamentos, imagens e conhecimentos que os membros de uma coletividade compartilham. As representações sociais têm uma dupla função: conhecer a realidade para planejar a ação e facilitar a comunicação.

Outra perspectiva com um grande impacto é a norte-americana (Lewin, 1977). Esta forma de entender a cognição social se centra no indivíduo e em seus processos psicológicos. Segundo esta visão, o indivíduo constrói suas próprias estruturas cognitivas a partir das interações com seu entorno físico e social.

Como foi visto, a cognição social é a forma como gerenciamos a grande quantidade de informação social que recebemos todos os dias. Os estímulos e dados que coletamos pelos sentidos são analisados e integrados em esquemas mentais, os quais guiarão nossos pensamentos e condutas em ocasiões posteriores.

Estes esquemas, uma vez formados, serão difíceis de mudar. Por isso, segundo a frase atribuída a Albert Einstein, é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. Nossas primeiras impressões serão cruciais, salvo que coloquemos em curso um pensamento crítico que nos ajude a desenvolver uma cognição social mais eficiente e ajustada à realidade.

Referências bibliográficas

  • Adolphs, R (1999). Social cognition and the human brain. Trends in Cognitive Sciences 3: 469-79.
  • Damasio, AR (1994). Descarte’s error: Emotion, reason and the human brain. Nueva York: Picador.
  • Fiske, S. T. y Taylor S. E. (1991). Social Cognition. McGraw-Hill, Inc.
  • Lewin, K. (1997). Resolving social conflicts: Field theory in social science. Washington, DC: American Psychological Association.
  • Merton, R. K. (1948). The self fulfilling prophecy. Antioch Review, 8, 195-206.
  • Moscovici, S. (1988). Notes towards a description of social representations. Journal of European Social Psychology, 18, 211–250.
  • Selman, R. L., Jaquette, D. y Lavin, D. R. (1977). Interpersonal awareness in children: Toward an integration of developmental and clinical child psychology. American Journal of Orthopsychiatry, 47, 264–274.
  • Skinner, B. (1974). Sobre el conductismo. Barcelona: Fontanella.
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