Laranja Mecânica: behaviorismo e liberdade

· abril 29, 2018

O que dizer de Laranja Mecânica que já não tenha sido dito, o que dizer sobre Stanley Kubrick? Poderíamos passar horas e horas falando sobre o filme, seu fim, sua análise filosófica… Acho impossível resumir em poucas linhas a importância do filme, acho impossível me aprofundar em todas as questões levantadas, por isso vou tentar, na medida do possível, aproximar-me um pouco mais do pano de fundo da obra.

Stanley Kubrick levou este filme às telonas em 1971, ainda que tenha chegado em muitos países mais tarde; o filme sofreu censuras e proibições, mas mesmo assim converteu-se em um clássico e se elevou à categoria de filme cult.

Laranja Mecânica é baseado no romance homônimo do britânico Anthony Burgess. A obra é considerada uma das mais importantes do gênero distópico no Reino Unido. No entanto, levando em consideração a dificuldade de abarcar toda a análise, focarei a versão cinematográfica, por ser a mais conhecida e porque apresenta algumas diferenças importantes com relação ao livro.

Não há dúvidas de que Laranja Mecânica é uma obra de arte do mundo cinematográfico. Kubrick fez um filme em que deixou seu estilo muito marcado, sua marca pessoal. As cores, os planos, a música… tudo em Laranja Mecânica é perfeitamente desenhado e medido milimetricamente, nos fascina visualmente e nos cativa desde o começo.

Também se destacam a linguagem, as gírias usadas pelos protagonistas, que combinam palavras de outras línguas, especialmente o russo; essa língua foi inventada por Anthony Burgess, autor do romance, e é conhecida como nadsat. A música tem um papel fundamental, é só pensarmos no I’m singing in the rain do protagonista, no uso de sintetizadores e na presença de música clássica, principalmente de Beethoven.

Descobrindo Alex

Alex é o protagonista, um jovem que adora Beethoven, ama a violência e não conhece a moral. Laranja Mecânica nos leva a um futuro distópico, em que Alex e seus drugues gozam da ultraviolência. Parece que os jovens daquele futuro não conhecem os limites da violência, gostam dela e é sua única forma de entretenimento: estupros, roubos, surras… Tudo é válido para Alex e seus drugues.

Alex é um jovem que se move por instinto, que é incapaz de pensar na repercussão de seus atos, de distinguir o bem e o mal. Parece que não há razão nem motivação que explique essa violência inata do protagonista. Ele é muito influente e é o líder de seus drugues (amigos). O mundo em que vive e a relação com seus pais provavelmente tem relação com a sua conduta, ainda que, neste futuro distópico, os jovens parecem dedicar seu tempo a cometer atos criminosos, sem nenhum outro tipo de propósito na vida; o que nos leva a pensar que, talvez, a sociedade tem algo a ver.

Alex não trata ninguém bem, nem sequer seus drugues, os que, em um de seus crimes, trairão seu líder. Alex converte-se em um jovem assassino e, como consequência, é enviado à prisão. Ali, Alex perderá seu nome quando adquire sua nova identidade como preso, passando a ser o prisioneiro 655321. Na cadeia, Alex se sente atraído pela Bíblia, mas sua interpretação da mesma é muito diferente da convencional; Alex sente-se identificado com as cenas mais violentas, vendo a si mesmo como um romano que participa da crucificação de Cristo.

A liberdade em Laranja Mecânica

Ao ver seu interesse pela Bíblia, o pároco do cárcere adquire um verdadeiro carinho e vê em Alex um jovem que precisa de ajuda; no entanto, Alex despreza ao pároco, ainda que nunca demonstre. Alex lhe confessa que tem ouvido falar de um tratamento experimental, chamado Ludovico, que possibilita sair rapidamente da cadeia. Ele diz também que desejaria tentar e, assim, converter-se em um “homem bom”.

O filme questiona a verdadeira natureza da maldade: Alex é mau por natureza? É mau por causa das circunstâncias? Tem algo a ver com a sociedade? São muitas as perguntas que surgem à medida que vamos conhecendo Alex, mas ainda mais quando estamos descobrindo como é o tratamento Ludovico.

O Estado, em sua luta para erradicar a violência, desenvolveu um tratamento experimental que transforma alguém “mau” em “bom”. Deste modo, não só conseguem reduzir os índices de violência, mas também conseguem que uma maior parte da sociedade seja produtiva e útil, o que diminui as despesas em prisões. Na verdade, este tratamento não passa de uma estratégia do governo, é apenas uma forma de tornar útil uma parte da população que só gera despesa. São maus os que tentam converter Alex em bom? Podemos escolher, realmente?

A liberdade em Laranja Mecânica

O governo acha que a prisão não é um lugar para a reinserção, mas um lugar que propicia que a maldade e a violência aumentem. O tratamento Ludovico promete mudar estes jovens, transformar sua conduta antissocial em uma apropriada e socialmente aceita. Este tratamento encontra correspondência no condicionamento clássico de Pavlov e seu estímulo-resposta. Alex submete-se ao tratamento e supera-o com sucesso, demonstrando ser um homem bom.

Tudo isso nos leva a pensar que Alex perdeu sua liberdade, seu livre arbítrio. Alex não opta pelo bem, o tratamento o condicionou tanto que ele é incapaz de se defender, de fazer o que realmente gostaria. É incapaz de tocar uma mulher, de responder a um insulto ou de evitar uma situação humilhante, mas não por sua própria decisão, e sim pelo efeito do tratamento.

Alex, protagonista de Laranja Mecânica

Laranja Mecânica indaga a violência, a violência unida à conduta sexual do protagonista, a violência pela violência e a natureza da mesma. Mas, quem é mais violento? Não é violência o que o Estado fez? Lembremos que, no filme, vemos como os presos são privados de toda a liberdade, de toda a identidade e submetidos à violência. O tratamento Ludovico consegue anular Alex completamente, convertendo-o em um fantoche do Estado, que só o utiliza para promover a si mesmo e para seus interesses. Uma violência permitida, maquiada e socialmente aceita, algo que nos remete a Michel Foucault e sua obra Vigiar e Punir ou, inclusive, a Maquiavel.

Alex consegue sair da prisão, do lugar que arrebatou sua liberdade, no entanto, ele é ainda menos livre. Tudo parece muito paradoxal em Laranja Mecânica. Alex não só perde a liberdade ao sair da cadeia, mas também deverá enfrentar seu passado, sofrerá e viverá atormentado. Seus antigos amigos, pelo contrário, seguem exercendo a violência, mas agora, justificada e permitida: converteram-se em policiais.

O Estado tem tanto poder que exerce a violência sobre o indivíduo, transformando-o em uma marionete, usando-o para sua própria publicidade e benefício. Parece que Alex já não é o mau, agora é a vítima. Alex continua sendo um homem quando já não é capaz de decidir? Seu comportamento anterior não conhecia a moralidade, mas existe moralidade no tratamento Ludovico? O filme abre um leque de reflexões, tantas que seria impossível resumir em um artigo.

Grandes obras do cinema: Laranja Mecânica

Laranja Mecânica é, sem dúvidas, uma das grandes obras do cinema, visualmente magnífica, agressiva, reflexiva e hipnótica. Seu efeito é tão forte que condicionou alguns de nós quase tanto quanto Alex foi condicionado pelo tratamento Ludovico, fazendo com que, cada vez que escutamos uma obra de Beethoven, seja muito difícil não pensar em uma cena de Laranja Mecânica.

“Deus prefere o homem que elege fazer o mau, antes que o homem que é obrigado a fazer o bem”.
-Laranja Mecânica-