Como a generosidade afeta o cérebro

março 1, 2019
Um novo estudo sugere que diferentes tipos de generosidade têm efeitos diferentes sobre o cérebro, e que uma forma particular pode reduzir o estresse e a ansiedade.

Para o ser humano, praticar a generosidade costuma ser algo agradável. De fato, parece que a principal razão pela qual somos generosos com os outros é porque isso nos faz sentir bem. No entanto, há outros benefícios interessantes, e um deles é a forma como a generosidade afeta o cérebro.

Pesquisas recentes investigaram como a generosidade impacta diferentes aspectos do nosso bem-estar. Um estudo desse tipo publicado na revista Nature Communications mostrou que a generosidade nos faz mais felizes, e confirmou este fato destacando as regiões do cérebro envolvidas.

Isso muda dependendo de quem ajudamos? Existe alguma diferença entre ajudar alguém próximo ou alguém que não conhecemos? Diferentes formas de generosidade podem melhorar a nossa saúde?

Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, descreveu pela primeira vez as diferentes formas de generosidade e investigou os efeitos que essas diferentes formas de generosidade exercem sobre o cérebro. Os resultados foram publicados na revista Psychosomatic Medicine: Journal of Biobehavioral Medicine.

Apoio direcionado e não direcionado

Os pesquisadores distinguem entre duas formas de generosidade: apoio ‘direcionado’ e apoio ‘não direcionado’. Fornecer apoio direcionado envolve ajudar alguém diretamente, como emprestar dinheiro a um amigo ou familiar. Fornecer apoio não direcionado significa ajudar uma causa social ou geral, como, por exemplo, doando dinheiro para caridade.

Como a generosidade afeta o cérebro

De acordo com este estudo, o fornecimento de apoio social “direcionado” a outras pessoas necessitadas ativa regiões do cérebro envolvidas no cuidado parental. Em contrapartida, prestar apoio “não direcionado” não tem os mesmos efeitos neurobiológicos.

Isso pode ajudar os pesquisadores a entender os efeitos positivos dos laços sociais para a saúde. Os pesquisadores dizem que os resultados do estudo destacam os benefícios exclusivos de fornecer apoio específico e elucidam os caminhos neurais por meio dos quais fornecer apoio pode melhorar a saúde.

A chave para entender como a generosidade afeta o cérebro está na amígdala

Os pesquisadores realizaram vários experimentos para avaliar as respostas do cérebro ao fornecer diferentes tipos de apoio social.

No primeiro estudo, 45 voluntários realizaram uma tarefa de ‘dar apoio’ na qual tiveram a oportunidade de ganhar recompensas para alguém próximo a eles que precisava de dinheiro (apoio específico ou apoio direcionado), para caridade (apoio não direcionado) ou para si mesmos. Como os pesquisadores esperavam, os participantes se sentiram mais conectados socialmente e sentiram que o apoio deles era mais eficaz quando forneciam apoio social específico (direcionado).

Os participantes foram, então, submetidos a uma tarefa de identificação emocional que incluía uma ressonância magnética funcional para avaliar a ativação de áreas específicas do cérebro ao fornecer apoio social. Proporcionar apoio, independentemente de quem o recebeu, se relacionou a uma maior ativação do estriado ventral e da área septal, duas regiões previamente ligadas aos comportamentos de cuidado parental em animais.

No entanto, apenas uma ativação mais alta da área septal foi associada com uma menor atividade em uma estrutura cerebral chamada amígdala, ligada a respostas de medo e estresse, quando as pessoas forneceram apoio específico.

No segundo estudo, 382 participantes forneceram informações sobre seu comportamento para oferecer apoio (comportamento pró-social) e foram submetidos a uma tarefa diferente de identificação emocional com ressonância magnética funcional. Novamente, aqueles que relataram fornecer apoio mais específico também mostraram uma atividade reduzida na amígdala.

Em ambos os estudos, fornecer apoio não direcionado (como doações para instituições de caridade) não esteve relacionado à atividade da amígdala.

Amígdala cerebral

O apoio direcionado tem benefícios exclusivos para a saúde

Os resultados sugerem que oferecer apoio específico pode proporcionar um benefício único para a saúde, reduzindo a ansiedade e o estresse. De acordo com os autores do estudo, os seres humanos prosperam com as conexões sociais e se beneficiam quando agem a serviço do bem-estar dos outros.

Em um estudo anterior, os mesmos pesquisadores descobriram que fornecer apoio social tem efeitos positivos em áreas do cérebro envolvidas no estresse e nas respostas de recompensa. Esse estudo sugeriu que fornecer apoio, e não apenas recebê-lo, pode ser um importante contribuinte para os benefícios de saúde física e mental do apoio social.

O novo estudo acrescenta evidências adicionais de que fornecer apoio direcionado só pode ser benéfico. Tanto o apoio direcionado quanto o não direcionado estão vinculados a uma maior atividade na área septal, apoiando a teoria do bem-estar experimentado ao fornecer apoio: ajudamos os outros, direta ou indiretamente, simplesmente porque isso nos faz sentir bem.

Nova via neuronal: a generosidade direcionada melhora a saúde

Os pesquisadores dizem que a ligação entre o aumento da ativação da área septal e a diminuição da atividade da amígdala sugere uma via neural. Por meio dessa via neural, “a prestação de apoio acaba influenciando a saúde, que é específica das formas específicas de apoio direcionado, como a doação para pessoas específicas que sabemos que estão necessitadas”.

Também apontam que seu estudo não pode identificar a causa e o efeito de fornecer apoio para a ativação da área septal ou da amígdala. Além disso, dizem que fornecer apoio social direcionado nem sempre leva a uma saúde melhor. Por exemplo, o cuidado prolongado de um parente doente pode ser prejudicial à saúde.

O estudo condiz com as evidências anteriores que apoiam a ideia de que fornecer apoio social aos outros pode ser um fator frequentemente ignorado no conhecido vínculo entre laços sociais e saúde. “Dar apoio específico a uma pessoa identificável com necessidades está associado exclusivamente a uma atividade reduzida da amígdala, contribuindo assim para entender como e quando fornecer apoio pode melhorar a saúde”, concluem os pesquisadores.

  • Inagaki, T., y Ross, L. (2018). Neural Correlates of Giving Social Support. Psychosomatic Medicine, 1. doi: 10.1097/psy.0000000000000623
  • Park, S., Kahnt, T., Dogan, A., Strang, S., Fehr, E., y Tobler, P. (2017). A neural link between generosity and happiness. Nature Communications8, 15964. doi: 10.1038/ncomms15964