Como conviver com um parceiro alexitímico?

julho 8, 2019
As pessoas alexitímicas também se apaixonam, mas não sabem como amar. Por isso, nessas relações afetivas há frieza, solidão e um vazio no qual faltam palavras, olhares, e os nutrientes emocionais mais básicos.

Viver com um parceiro alexitímico pode levar a um grande sofrimento, já que nestes vínculos afetivos a a empatia não costuma estar presente.

É normal que um dos membros sinta uma falta de conexão genuína para validar os sentimentos e desenvolver uma intimidade verdadeira, através de palavras que nutrem e de gestos cúmplices nos quais há emoção.

Solidão, incerteza, incompreensão… estes e outros sentimentos são vividos pelas pessoas que compartilham a vida com um parceiro alexitímico.

Entretanto, não podemos deixar de lado a própria realidade de quem sofre dessa condição psicológica, que muitos definem como uma desordem neurológica, e outros como um transtorno psicológico com condicionantes sociais.

Seja como for, há um fato indubitável: o alexitímico ama, se apaixona, sente, tem sentimentos, é  feliz, se emociona e sofre como qualquer outra pessoa.

No entanto, é aí que se encontra o verdadeiro problema: eles são incapazes de expressar aquilo que sentem e, ao mesmo tempo, não entendem os códigos emocionais daqueles que os cercam.

Se socialmente este traço já causa limitações, nas relações afetivas a alexitimia é altamente problemática. Assim como revela uma pesquisa realizada na Universidade de Missouri-Columbia pelo Dr. Nestor Fry-Cox, a alexitimia pode estar por trás de uma boa parte dos términos de relacionamentos.

Estima-se que quase 10% da população possa sofrer deste déficit comunicativo emocional, sendo especialmente comum no sexo masculino.

A palavra alexitimia vem do grego e significa, etimologicamente, “ausência de palavras para expressar as emoções ou sentimentos”.

Como conviver com um parceiro alexitímico?

Como é viver com um parceiro alexitímico?

Viver com um parceiro alexitímico representa um desgaste em todos os sentidos. Isso porque, em primeiro lugar, nenhum dos membros do relacionamento tem consciência de que há um terceiro participante no mesmo: o próprio transtorno ou alteração neurológica.

Dizemos isso porque, atualmente, ainda não existe um consenso sobre o assunto, e também porque são muitas as pessoas que não sabem o motivo de sua incapacidade de expressar e compreender as emoções.

Foi em 1972 que o psiquiatra Peter Sifneos descreveu essa condição pela primeira vez. Desde então, até agora, sabemos que a alexitimia pode estar relacionada a uma alteração do sistema límbico.

Além disso, não tem nada a ver com a personalidade psicopática, ou seja, o alexitímico sente sim, mas não sabe como interpretar as próprias emoções, e muito menos as alheias.

Tudo isso faz com que, a nível afetivo e de relacionamento, sejam experimentadas as seguintes realidades:

Incapacidade de expressar o que se sente

O parceiro alexitímico nunca dirá se está de fato chateado, feliz, emocionado ou preocupado. Para essas pessoas, qualquer emoção sentida é um mistério; não é nada mais do que um conjunto de experiências fisiológicas que causam tensão, inquietude, dor de estômago, etc.

Ou seja, essas pessoas não podem expressar o que sentem porque não sabem o que acontece com o seu corpo. Não conseguem nomear as emoções, apesar de senti-las.

Algo assim faz com que eles não saibam lidar com chateações, por exemplo. Também não conseguem transmitir amor, admiração, e as emoções básicas de um relacionamento amoroso.

Mulher preocupada na terapia

Não compreendem o que seus parceiros sentem

As pessoas alexitímicas são incapazes de identificar as emoções dos demais. Não entendem, por exemplo, por que o parceiro se chateia com determinados comportamentos.

Também são incapazes de compreender porque seu parceiro não é feliz, do que ele precisa, o que lhe causa tristeza, o motivo das suas mudanças de humor, etc.

E mais, se em algum momento o parceiro pedir para ter uma conversa íntima, o alexitímico se sentirá incapaz. Ter que se aprofundar nestes tipos de nuances emocionais é algo muito incômodo para ele. Trata-se de um aspecto com o qual ele não sabe lidar, que não vê, que não entende.

Da mesma forma, o estilo de comunicação do alexitímico também é muito diferente. Não gostam das reflexões, dos duplos sentidos, da linguagem poética, irônica ou romântica.

Seu foco é sempre muito lógico, concreto e literal. Por isso, a comunicação com eles é muito rígida e, acima de tudo, difícil e frustrante.

Meu parceiro é alexitímico, o que eu posso fazer?

Conviver, criar um projeto de futuro, resolver problemas ou até mesmo chegar a acordos simples com a pessoa alexitímica pode ser muito complicado. É preciso ter em conta que todo o nosso âmbito emocional é regido, basicamente, por emoções. O que nós podemos fazer nestes casos?

Tanto se você é alexitímico quanto se seu parceiro apresenta esta característica, é preciso entender um aspecto importante. Frequentemente, essa condição é acompanhada de outros transtornos.

É muito comum, por exemplo, que exista uma depressão latente ou um transtorno de estresse. Além disso, a alexitimia também está presente em pessoas com Asperger.

Seja como for, precisamos de um diagnóstico adequado. A alexitimia também entra dentro de um espectro. Ou seja, há quem sofra dela de forma mais acentuada e quem apresente apenas alguns traços. Por isso, é importante solicitar a ajuda de especialistas.

Alexitimia e relações afetivas: aspectos a considerar

Devemos considerar que a pessoa alexitímica tem sentimentos, mas não sabe expressá-los. Portanto, é interessante trabalhar alguns códigos básicos através dos quais expressar afeto. Os olhares, as carícias e o contato físico são bons cenários nos quais podemos nos validar no dia a dia.

É essencial que o alexitímico conte com apoio psicológico. É a única forma da relação amorosa se sustentar. Essa condição não tem cura: trabalha-se nela para que o paciente encontre mecanismos e habilidades para melhorar sua empatia, sua comunicação e sua expressão emocional.

As áreas que serão trabalhadas com o paciente alexitímico são a estimulação e identificação emocional, a empatia, as habilidades sociais, a comunicação emocional e a redução da ansiedade e do estresse.

Homem fazendo terapia

Por último, devemos considerar que nem todo mundo responde bem à terapia. E mais, muitos alexitímicos se recusam a aceitar ajuda especializada porque consideram que o problema é dos outros.

Para alguns desses homens e mulheres, são os próprios parceiros que possuem problemas emocionais. Aos seus olhos, seus companheiros são muito intensos, irracionais e incompreensíveis.

Nestes casos, a melhor opção é o próprio bem-estar. Proteger a integridade e evitar o sofrimento inútil sempre será a melhor resposta quando não observarmos uma vontade de mudança por parte da pessoa alexitímica.

  • Frye-Cox, NE, y Hesse, CR (2013). Alexitimia y calidad marital: los roles mediadores de la soledad y la comunicación íntima. Diario de psicología familiar , 27 (2), 203-211. https://doi.org/10.1037/a0031961