Como tratar as obsessões puras?

17 Janeiro, 2021
Neste artigo apresentaremos o tratamento psicológico mais amplamente aceito para os transtornos obsessivos sem compulsões, ou "TOC puro".

Como tratar as obsessões puras? O transtorno obsessivo compulsivo é uma categoria diagnóstica reservada para os casos em que o paciente manifesta obsessões e compulsões. Em alguns casos menos prevalentes, esses pacientes podem vir para a consulta com sintomas baseados apenas em obsessões.

É o que se conhece como TOC puro ou obsessões puras. As obsessões podem ser definidas como pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes, que são vivenciados em algum momento durante o transtorno como intrusivos ou indesejados, e que na maioria dos indivíduos causam ansiedade ou desconforto significativo.

A pessoa que sofre de obsessões, devido ao intenso desconforto que elas geram, procura por todos os meios ignorar ou suprimir esses pensamentos, impulsos e imagens ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou ato, isto é, realizando uma compulsão.

As compulsões geralmente trazem um alívio de curto prazo. A ansiedade e a tensão sentidas por causa das obsessões são reforçadas negativamente pelo comportamento compulsivo.

Essa compulsão faz com que o problema persista e acabe se tornando crônico, pois o paciente aprende que é o único meio de que dispõe para se livrar da ansiedade e dos pensamentos desagradáveis ​​que habitam a sua mente.

Em geral, as compulsões não estão relacionadas de forma realista com o medo de acontecer o que a pessoa teme, ou são claramente excessivas. Por exemplo, uma paciente pode acreditar que, se bater três vezes ao sair e entrar pela porta de sua casa, o seu marido não sofrerá um acidente de trânsito a caminho do trabalho.

Os pacientes que não manifestam esse tipo de sintomatologia, ou seja, não recorrem às compulsões para aliviar o desconforto, são mais complexos. Tratar as obsessões puras é mais difícil, mas atualmente existem técnicas psicológicas para abordá-las.

Mulher segurando nuvem

A chave para tratar as obsessões puras é a habituação

O fato de as obsessões serem reforçadas de forma negativa quando se pratica a compulsão leva à não habituação, à ansiedade ou ao medo que elas geram.

Portanto, as obsessões são alimentadas, e alimentando-as progressivamente, elas ficam mais fortes. Nos transtornos obsessivos puros o tratamento é baseado na habituação, e para que isso ocorra é imprescindível uma exposição às próprias obsessões.

Essa exposição costuma ser aversiva para os pacientes. A exposição preventiva de resposta pode levar a uma rejeição significativa e até mesmo à descontinuação do tratamento. Esta é uma das suas desvantagens; porém, até o momento, as evidências empíricas nos mostram que são os tratamentos que apresentam maior sucesso terapêutico na maioria dos pacientes que conseguem concluí-los.

Para evitar esta desvantagem, é fundamental se adaptar à capacidade do paciente de tolerar a ansiedade e respeitar a janela terapêutica que lhe permite se habituar, mas sem se tornar demasiado apavorante. Encontraremos a virtude no meio termo.

Estratégias de tratamento

O objetivo, enfim, é que a pessoa se exponha aos seus pensamentos ou imagens de forma que, voluntariamente, possa trazê-los à tona e “olhá-los nos olhos”. O treinamento de habituação deriva da pesquisa de Salkowskis e Westbrock.

Geralmente é realizado em uma gravação de áudio na qual o paciente registra as suas obsessões puras e as escuta repetidamente até se acostumar com elas. A previsibilidade dos estímulos aos quais o sujeito é exposto é o fator-chave do tratamento. Por meio da gravação, o paciente pode prever o que ouvirá, ao contrário do que acontece com as obsessões puras, que são imprevisíveis.

Além da gravação de áudio, outras estratégias podem ser utilizadas para apresentar os pensamentos de forma previsível: evocando-os deliberadamente, narrando-os em sessão ou colocando-os por escrito e relendo até que a ansiedade diminua.

É necessário explicar em detalhes ao paciente como funciona a ansiedade e como a habituação segue uma curva em que primeiro aumenta, mas em um determinado ponto começa a diminuir. A psicoeducação facilita a adesão ao tratamento e favorece a relação terapêutica.

Mulher enfrentando obsessões

A curva da ansiedade

A curva característica da ansiedade tem a forma de um “U invertido”. Como já observamos, quando uma pessoa é exposta aos seus medos (seja por meio de fotos, ao vivo ou, no caso de TOC puro, por gravação ou escrita), ela experimenta um aumento substancial da ansiedade.

Esse momento é fundamental porque o paciente pensa que está pior e está certo, ele se sente muito mais ansioso. Mas essa escalada desagradável é finita. Fisiologicamente e inevitavelmente, o aumento da ansiedade tem um limite.

Quando esse desconforto atingir o ponto máximo e o paciente não realizar nenhum ritual, comportamento de segurança ou qualquer evitação de qualquer outro tipo, a ansiedade começará a diminuir progressivamente. Por que isso acontece? Primeiro, em um nível emocional, nem a ansiedade e nem qualquer outra emoção aumenta linearmente. Não é o padrão característico. Não há nenhum caso em que a emoção tenha aumentado tanto até que acabasse matando alguém.

Por outro lado, o simples fato de tomar consciência de que as nossas cognições são enviesadas ou irrealistas nos permite modificá-las para outras muito mais moderadas. Dessa forma, a ansiedade começa a perder aquelas âncoras que utilizava antes para crescer.

Definitivamente, o fundamental é evitar que o paciente que vai se expor às suas obsessões ou a qualquer outro estímulo que causa ansiedade saiba que ficar e persistir é a chave do sucesso. Na verdade, as exposições curtas podem produzir um efeito iatrogênico; além do paciente não conseguir superar o seu medo, ainda o aumenta.

Tolerar a ansiedade, apesar do desconforto que pode resultar de uma exposição, é a maneira crucial de sair vitorioso dessas punhaladas mentais chamadas obsessões.

  • American Psychiatric Association (APA) (2014): Manual de Diagnóstico y Estadísitico de los Trastornos Mentales, DSM5. Editorial Médica Panamericana. Madrid.
  • Vallejo, P, M.A., Manual de Terapia de Conducta (2016). Editorial Dykinson-Psicología. Tomo I