Uma fábula budista sobre a ansiedade

28 Dezembro, 2020
Esta é uma fábula budista sobre a ansiedade que fala sobre a natureza desse sentimento. Ele nasce quando nos deixamos invadir pelo desejo de alcançar algo, ou de obter algo. Querer mais do que precisamos nos deixa frenéticos.

Esta fábula budista sobre a ansiedade nos leva a um lugar distante onde vivia um homem muito rico, o mesmo homem que tinha uma devoção especial pela beleza. Sua casa era especialmente bonita: fora construída de acordo com as suas instruções. Tudo ao seu redor tinha valor, mas mesmo assim, nosso protagonista não parava de sentir um vazio que não sabia como preencher.

Depois de muito pensar, ele olhou pela janela do seu quarto e viu que as suas terras iam além do que ele conseguia alcançar com a sua visão. No entanto, ele percebeu que não havia cor. Assim, chegou à conclusão de que precisava de um jardim. As flores encheriam esses campos de aromas e, é claro, os tornariam mais coloridos. Sim, era disso que ele precisava.

Ele então ordenou que o melhor jardineiro fosse contratado, independentemente dos seus honorários. Depois de uma busca cuidadosa, quem demonstrou maior conhecimento e maestria com as plantas foi um senhor humilde, a quem também não faltou sabedoria. A fábula budista conta que o homem o contratou sem hesitar. Ele queria ter o jardim mais lindo do mundo.

“A ansiedade com o medo e o medo com a ansiedade contribuem para privar os seres humanos de suas qualidades mais essenciais. Uma deles é a reflexão”.
-Konrad Lorenz-

Um lindo jardim e um evento estranho

O jardineiro começou a trabalhar naquele lindo jardim dos sonhos. De acordo com essa fábula budista, em pouco tempo o fruto do seu esforço começou a se tornar realidade. Em alguns meses, os vastos campos estavam cheios de lindas flores. Havia rosas, crisântemos, cravos, tulipas – tudo isso junto criava uma atmosfera espetacular.

A ideologia daquele jardim era muito feliz. No entanto, um estranho fenômeno começou a acontecer. Algumas áreas do belo jardim acordaram maltratadas, como se algo ou alguém tivesse caminhado sobre elas. As flores também haviam sido mordiscadas, assim como os frutos da cerejeira.

O dono do jardim ficou alarmado. Não era possível que, depois de tanto esforço, alguém pudesse estragar tudo. Então, ele ligou para o jardineiro e o encarregou de descobrir o que estava acontecendo e cuidar do assunto.

Um lindo jardim e um evento estranho

Um visitante inesperado

O jardineiro olhou atentamente para as plantas que estavam estragadas. O que quer que estivesse acontecendo, acontecia à noite. Então, ele decidiu se esconder em um canto e assistir. Ele esperou por muito tempo, mas nada aconteceu. Finalmente, depois da meia-noite, ele viu um cervo se aproximando. Ele esmagou várias flores em seu caminho para chegar até onde estavam as cerejas. Ele também mordiscava algumas flores.

Vendo isso, o jardineiro saltou para pegar o cervo, mas o animal era muito ágil e, em alguns segundos, já estava fora de alcance. Vários dias se passaram sem que nenhum dano ocorresse novamente, mas essa trégua durou pouco tempo. O jardineiro achou que seria muito difícil pegar o cervo. Ele era cauteloso, tímido e muito ágil. A única maneira de derrotá-lo seria fazê-lo trair a sua natureza.

A fábula budista conta que o jardineiro traçou um plano. A única maneira de fazer o cervo trair sua natureza seria despertando o seu desejo e, em seguida, a sua ganância.

Cervo em floresta

A moral da fábula budista sobre a ansiedade

Como se fosse uma coisa casual, o jardineiro deixou pequenas guloseimas escondidas na grama, para que o cervo parasse para experimentar aquelas iguarias. No dia seguinte, o jardineiro deixou ainda mais tentações para o animal. Porém, o que definitivamente fez a diferença foi o mel.

O cervo adorava mel. O jardineiro percebeu isso e começou a colocar pequenos pedaços de biscoitos de mel de um lado e do outro. O cervo começou a ficar frenético. Era possível vê-lo entrando no jardim assim que o sol se punha. Ele mal podia esperar para comer todas as deliciosas iguarias que encontrou ali. Chegou a um ponto em que isso começou a acontecer em plena luz do dia. Ele não conseguiu se conter.

A fábula budista conta que, naquele ponto, o jardineiro sabia que já tinha vencido. Então, numa manhã, ele deixou uma grande quantidade de biscoitos de mel que estavam dispostos como se formassem um caminho. O cervo chegou e começou a comê-los. Quando ele chegou ao fim, uma porta se fechou. Ele entrou em uma gaiola sem perceber, ficando sem a sua liberdade.

O jardineiro contou tudo ao homem rico, que ficou surpreso com a sabedoria do homem. Eles comentaram que mesmo a natureza mais reservada se transforma quando o desejo passa a consumi-la, principalmente se esse desejo for alimentado.

  • Betancort, S. (2011). Borges y el budismo: Una Infancia entre orientalistas europeos. Les Lettres Romanes, 65(3-4), 327-337.