O poema de um homem com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)

O emocionante poema de um homem com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)

setembro 15, 2017 em Psicologia 1107 Compartilhados
Neil Hilborn, homem com TOC

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é um tipo de transtorno de ansiedade que “manipula” os pensamentos, emoções e comportamentos das pessoas que sofrem desse transtorno. Um dos sintomas que mais limitam a vida dessas pessoas é sentir-se obrigada a repetir constantemente as mesmas palavras, pensamentos ou ações para aliviar o desconforto que seus raciocínios e emoções geram.

Mas… o que são obsessões? São ideias, pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes, persistentes ou absurdos, involuntários ou egodistônicos (desagradáveis e intrusivos). Não são preocupações excessivas com os problemas reais, mas são medos decorrentes de problemas antecipados e improváveis. Por outro lado, eles causam um desconforto significativo para a pessoa, embora ela seja capaz de reconhecer que essas ideias são um produto exclusivo da sua mente.

Em grande parte dos casos clínicos, observou-se que a pessoa pode desistir de “lutar contra” essa obsessão, já que a luta para eliminá-la da mente pode tornar-se extenuante.
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O outro termo envolvido na definição do transtorno é a compulsão. A compulsão deve ser entendida como um comportamento repetitivo que é realizado em resposta a uma obsessão, de acordo com certas regras ou de forma estereotipada. Não persegue um fim em si mesmo, mas destina-se a produzir ou a prevenir certas situações ou estados emocionais. Esta maneira de “resolver” não é uma solução racional (abrir e fechar o carro muitas vezes) ou pode ser racional, mas claramente desproporcional (lavar as mãos muitas vezes).

Vamos exemplificar a ligação que existe na obsessão-compulsão. Uma pessoa com Transtorno Obsessivo-Compulsivo está dirigindo e, de repente, pensa que algo ruim pode acontecer com a sua família. Ela sabe que esse medo é um produto da sua mente, mas sente a necessidade de abrir e fechar a janela do carro três vezes para “impedir que algo ruim aconteça”. É um pensamento irracional; no entanto, o impulso compulsivo, juntamente com a resistência, determina que ela aja dessa forma. O ato não é agradável para essa pessoa, mas o fato é que é eficaz nesse momento para reduzir a sua ansiedade.

Mulher com TOC

O doloroso e emocionante poema de amor de um homem com TOC

O amor e o desamor são sentimentos muito profundos que todos nós ou quase todos já experimentamos ou procuramos experimentar. No entanto, pouco ou nada é falado sobre como as pessoas com Transtorno Obsessivo-Compulsivo podem experimentar o amor e o desamor.

Nesse sentido, pensemos que esses sentimentos constituem um pilar básico na experiência emocional humana. Embora seja verdade que não há como descrever ou teorizar uma experiência sentimental tão singular, o fato de uma pessoa compartilhar suas afeições com o mundo, colocar seu problema à prova, nos ajuda a abordá-los e a validar suas experiências.

Não deve ser fácil para a pessoa com TOC e nem para o seu parceiro. Isto é o que nos mostra Neil Hilborn, um escritor e poeta americano com TOC, que quis expressar o processo de se apaixonar da sua mente, bem como o que a ruptura significou para ele e para a criação das suas obsessões e compulsões diárias.

Neste artigo, compartilharemos a transcrição do poema, que é realmente emocionante.

A primeira vez que eu a vi…

Tudo na minha cabeça ficou em silêncio.

Todos os tiques, todas as imagens que passavam incessantemente pela minha cabeça simplesmente desapareceram.

Quando você tem Transtorno Obsessivo Compulsivo, você nunca tem momentos de verdadeira tranquilidade.

Mesmo na cama, eu estou pensando:

Eu tranquei as portas? Sim.

Eu lavei as minhas mãos? Sim.

Eu tranquei as portas? Sim.

Eu lavei as minhas mãos? Sim.

Mas quando eu a vi, a única coisa em que conseguia pensar era na curvatura dos seus lábios

Ou no cílio na sua face

no cílio na sua face

no cílio na sua face…

Eu sabia que devia falar com ela

Eu a convidei para sair seis vezes em trinta segundos.

Ela disse que sim depois da terceira vez,

mas nenhuma delas me parecia a certa, então eu tinha que continuar perguntando.

No nosso primeiro encontro,

eu passei mais tempo organizando a minha refeição por cor do que comendo, ou falando com ela.

Mas ela adorou.

Ela adorava que eu tivesse que beijá-la dezesseis vezes para me despedir ou vinte e quatro, se fosse numa quarta-feira.

Ela adorava que eu demorasse uma eternidade para chegar em casa, porque havia muitas rachaduras na calçada.

Quando fomos morar juntos, ela disse que se sentia segura,

ninguém jamais iria nos roubar, porque eu havia trancado a porta dezoito vezes.

Eu sempre observava sua boca quando ela falava.

Quando ela falava.

Quando ela falava.

Quando ela falava.

Quando ela falava.

Quando ela dizia que me amava, sua boca se curvava um pouco nos cantos.

À noite, ela se deitava na cama e me via apagar todas as luzes e acendê-las,

apagá-las e acendê-las, apagá-las e acendê-las, apagá-las e acendê-las, apagá-las e acendê-las,

apagá-las e acendê-las.

Ela fechava os olhos e imaginava que os dias e as noites estavam passando por ela.

Em algumas manhãs, quando eu ia começar a beijá-la para me despedir, ela simplesmente ia embora, porque

eu a estava atrasando para o trabalho.

Quando eu parava nas rachaduras na calçada, ela continuava caminhando…

Quando dizia que me amava, sua boca era uma linha reta.

Ela me disse que eu estava tomando muito do seu tempo.

Na semana passada, ela começou a dormir na casa da sua mãe.

Ela me disse que não deveria ter me deixado ficar tão apegado a ela, que tudo isso foi um erro,

Mas… Como poderia ser um erro se eu não preciso lavar as mãos depois de tocá-la?

O amor não é um erro, e está me matando que ela possa fugir disso e eu simplesmente não possa.

Eu não posso.

Eu não posso sair e encontrar alguém novo, porque estou sempre pensando nela.

Normalmente, quando fico obcecado com alguma coisa, vejo germes se esgueirando pela minha pele.

Me vejo sendo atropelado por uma sucessão interminável de carros.

E ela foi a primeira coisa linda que eu já fiquei preso.

Eu quero acordar todas as manhãs pensando na maneira como ela segura o volante.

Em como ela gira o registro do chuveiro como se estivesse abrindo um cofre.

Em como ela sopra as velas

como sopra as velas

como sopra as velas

como sopra as velas

como sopra…

Agora, eu só penso em quem a está beijando.

E eu não posso respirar, porque ele só a beija uma vez! Ele não se importa se é perfeito!

Eu a quero de volta tão desesperadamente que…

Deixo a porta destrancada.

Deixo as luzes acesas.

Autor: Neil Hilborn

Mulher com TOC

Como conviver com uma pessoa com TOC?

As pessoas que convivem com uma pessoa com Transtorno Obsessivo-Compulsivo devem entender que as obsessões e compulsões escapam do controle da pessoa afetada. Uma pessoa com TOC pode ou não estar consciente do quanto os seus pensamentos e ações são irracionais, mas ela não consegue controlá-los sem ajuda especializada.

Você não deve julgar a pessoa ou tentar evitar a realização dos rituais, pois gerará mais tensão e abrirá uma ferida ainda maior. Você não pode persuadir a pessoa a não pensar ou agir de uma certa maneira; é preciso acolher a pessoa com paciência e carinho.

Não faça parte dos rituais. O apoio deve fazer parte da vida cotidiana, sem se esconder ou deixar que as formas de comunicação passivas eliminem a compreensão e a aceitação. Há autores que nos falam sobre a negociação de limites com a pessoa com TOC, da seguinte forma: “Como eu amo você, me recuso a participar de comportamentos prejudiciais”; “Eu sei que é difícil e isso pode lhe incomodar, mas será melhor se eu não fizer esse ritual por você”; “O médico me instruiu a não participar, ele sabe o está falando e nós decidimos confiar na sua opinião”.

Finalmente, precisamos enfatizar a necessidade de buscar ajuda psicológica e psiquiátrica especializada no tratamento do TOC. Assim, tanto a pessoa afetada quanto as pessoas do seu convívio devem receber o apoio de um profissional qualificado que os ajudará a controlar a situação e melhorar a convivência diária.

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