Como usamos a licença moral?

maio 11, 2020
A licença moral é um tipo de crédito que todos acumulamos e que geralmente usamos de uma maneira, no mínimo, surpreendente.

Gostamos de nos apresentar como boas pessoas, tanto para nós mesmos quanto para os outros. É uma maneira de manter uma autoimagem positiva, o que também nos leva a ter um autoconceito positivo. Então, o que nos faz cometer atos imorais? A explicação está no chamado efeito de licença moral.

O efeito de licença moral significa que, se no passado agimos correta ou moralmente bem, no futuro podemos agir de maneira “imoral”. Vejamos um exemplo: quantas vezes, depois de ir à academia ou correr, dissemos a nós mesmos “hoje eu mereço um presente, vou comer um doce!”. Ou seja, após um comportamento moralmente desejado, concedemos a nós mesmos o direito de realizar um menos desejado sem nos sentirmos mal por isso.

A seguir, apresentaremos alguns estudos sobre o efeito da licença moral que nos permitirão aprofundar o assunto. Além disso, vamos poder ver o que faz com que algumas pessoas sejam mais contaminadas por esse efeito.

“A profundidade e a força do caráter humano são definidas por suas reservas morais. As pessoas se revelam completamente somente quando são retiradas das condições habituais de suas vidas, pois só então precisam recorrer inteiramente a suas reservas”.
-Leon Trótski-

Mulher sorrindo de olhos fechados

O que as pesquisas têm a dizer sobre o efeito de licença moral?

O efeito de licença moral, pelo qual o comportamento moral permite que uma pessoa se comporte posteriormente de forma imoral, foi demonstrado em inúmeros experimentos. As teorias psicológicas do comportamento destacam o desejo do ser humano de ter consistência cognitiva em seus pensamentos, sentimentos e comportamentos.

Uma pesquisa bastante intrigante sobre as “licenças morais” qualifica esse desejo de consistência ao sugerir que as pessoas que se comportam de uma maneira moralmente louvável se sentem mais justificadas para realizar uma ação moralmente questionável (Merritt, Effron & Monin, 2010).

“O senso moral nos diz até onde vão as concepções permitidas e onde começa a licença proibida”.
-Yoritomo Tashi-

No estudo, foi observado como as “licenças morais” levam a um amplo espectro de comportamentos indesejáveis. Por exemplo, depois de recordar comportamentos morais ou socialmente desejáveis ​​anteriormente, as pessoas mostraram atitudes mais prejudiciais.

Segundo os autores da pesquisa, as boas ações passadas podem liberar as pessoas para se envolverem em comportamentos antiéticos ou problemáticos que, de outra forma, evitariam por medo de se sentirem ou parecerem imorais.

Outro estudo, realizado por Jessica Cascio e E. Ashby Plant em 2016, concluiu o seguinte com relação ao efeito de licença moral:

  • A participação anterior em um comportamento moral permite que as pessoas se comportem imoralmente agora.
  • As pessoas que antecipam realizar ações morais futuras apresentam mais preconceitos raciais.
  • As possíveis licenças morais provavelmente se devem ao acúmulo de créditos morais, ou seja, à realização de atos moralmente corretos no passado.
  • Os preconceitos podem ser autorizados pelo comportamento moral em um domínio diferente.

“A moral é uma convenção privada; a decência, uma questão pública; qualquer licença que seja muito visível sempre teve o efeito de exibir os maus direitos”.
-Marguerite Yourcenar-

Diferentes personalidades

A limpeza moral

Uma importante contribuição para a literatura sobre licenças morais examina como escrever sobre os próprios traços positivos ou negativos pode influenciar as doações para caridade e o comportamento cooperativo em um dilema comum (Sachdeva, Iliev & Medin, 2009).

Com base em suas descobertas, os autores mencionados argumentaram que esse efeito da licença moral pode ser melhor interpretado como parte de uma estrutura mais ampla de autorregulação moral, em que o equilíbrio interno da autoestima moral e os custos associados ao comportamento pró-social determinam se alguém irá exibir um comportamento moral ou imoral.

Por fim, os autores do estudo sugerem que firmar uma identidade moral leva as pessoas a se sentirem autorizadas a agir de forma imoral. No entanto, quando a identidade moral se vê ameaçada, o comportamento moral é um meio de recuperar parte da autoestima perdida.

Em outras palavras, quando se estabelece uma imagem moral de si mesmo, permite-se uma ação imoral sem medo de perder essa imagem moral (licença moral). No entanto, quando alguém parece imoral para os demais, são necessárias ações positivas para restaurar a imagem moral novamente (limpeza moral).

Cascio, J. y Plant, EA (2015). Licencias morales prospectivas: ¿anticipar hacer el bien después te permite ser malo ahora? Revista de Psicología Social Experimental , 56 , 110-116.

Merritt, AC, Effron, DA y Monin, B. (2010). Autorización moral: cuando ser bueno nos libera para ser malos. Brújula de psicología social y de personalidad , 4 (5), 344-357.

Sachdeva, S., Iliev, R. y Medin, DL (2009). Santos pecadores y pecadores santos: la paradoja de la autorregulación moral. Ciencia psicológica , 20 (4), 523-528.