A comorbidade da depressão

dezembro 10, 2019
A comorbidade da depressão ocorre principalmente com problemas cardiovasculares, dores crônicas e transtornos de ansiedade.

A comorbidade da depressão diz qual é a probabilidade de que este transtorno apareça juntamente com outras condições físicas e psicológicas. Um exemplo: os especialistas afirmam que entre 60 e 70% das pessoas que sofrem de uma depressão também sofrem de ansiedade. Esta condição também costuma estar associada à hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares, etc.

Quando nos referimos ao termo comorbidade, fazemos referência ao fato de que uma pessoa sofre de duas ou mais doenças ou transtornos psicológicos. Por mais estranho que pareça, é algo muito comum, especialmente quando falamos da depressão maior.

Para muitos médicos, psicólogos e psiquiatras, este é um grande desafio, e em alguns casos pode ser um problema ainda maior do que a própria depressão.

Sabemos, por exemplo, que determinadas doenças podem aumentar o risco de desenvolver um transtorno do humor. Assim, pacientes com câncer, com fibromialgia ou dor crônica são mais suscetíveis a passar por esse tipo de situação.

As pessoas que sofreram um acidente vascular cerebral, que sofrem de diabetes, doença de Crohn ou tuberculose também são mais propensas a desenvolver um transtorno psicológico em algum momento. O transtorno depressivo e, mais especificamente, a depressão maior, são realidades recorrentes que devem ser levadas em conta.

“As nossas forças nascem das nossas vulnerabilidades”.
-Sigmund Freud-

Folhas vermelhas em árvore verde

A comorbidade da depressão, uma realidade muito comum

Em primeiro lugar, vale a pena lembrar que a depressão tem um impacto muito adverso na vida da pessoa. Diminui a sua motivação, sua iniciativa, altera a neuroquímica cerebral, faz com que a pessoa fique mais lenta, se alimente pior, se sinta esgotada e, inclusive, pode enfraquecer o seu sistema imunológico.

Tudo isso torna o indivíduo mais suscetível a outras doenças. Diferentes estudos, como o realizado pela Universidade Nacional de Chonnan (Coreia do Sul), mostram que há uma série de variáveis que aumentam essa comorbidade com a depressão.

São as seguintes:

  • Sofrer de um transtorno físico: câncer, doenças coronárias e cerebrovasculares, digestivas, dermatológicas, algum tipo de incapacidade…
  • Toda doença crônica, como diabetes, artrite, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença de Crohn, epilepsia, fibromialgia e, inclusive, apneia do sono, elevam o risco de desenvolver uma depressão.
  • Ter sofrido um trauma no passado ou enfrentado um acontecimento muito estressante na vida.
Homem com sintomas de depressão

Um estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde) realizado por José Manoel Bertolote e Lorenzo Tarsitani mostrou que, em boa parte dos 500 milhões de transtornos mentais diagnosticados na atualidade, a depressão também está presente.

Quando estes pacientes buscam atenção primária, nem sempre recebem um diagnóstico acertado. Estima-se que apenas em 25 a 50% dos casos esse transtorno depressivo seja identificado. Esse erro, de não avaliar esta realidade psicológica, pode ter graves consequências para a pessoa afetada.

Se fôssemos capazes de diagnosticar cada paciente com precisão total, poderíamos oferecer estratégias adequadas para melhorar ao máximo a sua qualidade de vida e prevenir, por sua vez, outros problemas.

Atender, por exemplo, um paciente que sofre de fibromialgia ou doença de Crohn, mas ignorar a depressão, fará com que seu dia a dia seja muito pior, por melhor que seja a intervenção direta sobre a sua doença.

Comorbidade da depressão com a ansiedade

Falando sobre a comorbidade da depressão, especialistas como David Barlow, diretor do Centro para a Ansiedade e Transtornos Relacionados na Universidade de Boston, dizem o seguinte: a ansiedade e a depressão não são apenas dois transtornos que costumam coexistir em 70% dos casos. Estima-se que, na realidade, sejam duas faces de um mesmo transtorno psicológico.

Muito além do que possa parecer, estamos diante de um problema de saúde pública muito sério. É preciso levar em conta que esta comorbidade supõe um lastro para a recuperação, além de fazer com que o rendimento profissional do paciente sofra e com que a qualidade das suas relações também seja prejudicada.

  • Não apenas há um risco elevado de que surjam outras doenças devido à deterioração da qualidade de vida, mas o risco de suicídio também aumenta substancialmente.
  • Além disso, algo que os especialistas indicam é que há pessoas com uma maior vulnerabilidade biológica a este tipo de realidade. Além disso, também foi possível observar que há um componente genético.
  • Isso faz, por exemplo, com que a pessoa reaja de forma mais intensa diante dos estressores do dia a dia, com que seu estilo de pensamento seja mais ansioso, seu enfoque caracterizado pelo desamparo e que, pouco a pouco, seja construída a prisão psicológica de uma depressão.
A comorbidade da depressão

Mecanismos de prevenção e atuação

Do que precisamos, portanto, nesses casos? Como podemos prevenir e tratar melhor a comorbidade da depressão? A OMS aponta que deveríamos trabalhar os seguintes aspectos:

  • Melhorar os mecanismos de avaliação e tratamento das pessoas com comorbidade depressiva.
  • Formar profissionais de atenção primária para que disponham de mecanismos para detectar os transtornos depressivos nos pacientes (como já sabemos, é muito comum que, por trás de um transtorno físico, também existam distúrbios psicológicos).
  • Acrescentar a figura dos psicólogos nos centros de atendimento primário.
  • Tomar consciência de que toda pessoa com uma doença crônica corre o risco de sofrer de uma depressão.
  • Educar a população sobre o que é e como aparece a comorbidade da depressão.

Para concluir, cabe incidir na necessidade de receber sempre diagnósticos corretos, contar com um tratamento adequado e um plano de prevenção de recaídas.

A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, conta com uma taxa de sucesso muito elevada. Além disso, para prevenir uma nova aparição da depressão e da ansiedade, foi possível ver que o mindfulness também pode ser uma grande ajuda.

  • Hasin DS, Sarvet AL, Meyers JL, et al. Epidemiology of adult DSM-5 major depressive disorder and its specifiers in the United States. JAMA Psychiatry. 2018 February 14;
  • Di Matteo MR, Lepper HS, Croghan TW. Depression is a risk factor for noncompliance with medical treatment: meta-analysis of the effects of anxiety and depression on patient adherence. Arch Intern Med. 2000; 160: 2101-2107