Cuidados paliativos psicológicos diante de uma doença terminal

16 Setembro, 2020
A notícia de uma doença terminal é poderosa o suficiente para abalar os pilares mentais de qualquer pessoa. Onde se concentra a intervenção dos psicólogos nesse cenário?
 

Adaptar-se ao ambiente quando ele é mutável e pode ser controlado apenas até certo ponto sempre traz desafios. Muitas vezes podemos chegar a nos perguntar como determinadas pessoas, com a vida já resolvida, adquirem certos compromissos ou se envolvem em determinados projetos. Pois bem, do outro lado dessa busca natural por complicações e problemas encontramos um dos desafios que mais comprometem a nossa adaptação: a notícia de uma doença terminal. Nesse contexto, hoje vamos falar sobre os cuidados paliativos psicológicos.

De alguma forma, todos nós sabemos que vamos morrer. Sabemos que um acidente pode nos levar a esse desfecho em poucos instantes, sem ser anunciado ou previsto. Ainda assim, todos nós, ou pelo menos a maioria, respiramos na esperança de que ainda temos muitos anos pela frente.

Trabalhamos nessa conjugação. A vida nos convida a fazer planos para amanhã, uma semana, um mês ou dois anos. Em outras palavras, o fato de colocarmos a morte em um horizonte distante ou como uma possibilidade muito remota nos situa no espaço-tempo de uma forma muito peculiar.

Uma arquitetura que, inevitavelmente, se quebra quando as nossas vidas ficam comprometidas ao recebermos a notícia de uma doença terminal. Portanto, neste artigo queremos falar sobre esse luto antecipado e os pontos mais importantes nos quais os cuidados paliativos psicológicos costumam se concentrar.

Homem enfrentando luto
 

O luto antecipado diante de uma doença terminal

Nesses casos, a reação biológica costuma ser a mesma que teríamos quando confrontados com uma ameaça. Em um nível emocional, a ansiedade é a reação mais comum, o que não significa que não possam surgir outras reações.

Em grande parte, tudo vai depender da elaboração cognitiva da notícia. Nos momentos iniciais, muitas pessoas optam pela negação, principalmente se a notícia for repentina e não o desfecho de uma intervenção anterior para eliminar ou retardar a progressão da doença.

Portanto, um dos pilares sobre os quais a psicologia pode atuar para melhorar a qualidade de vida do paciente é justamente auxiliar na elaboração da notícia, construindo uma história que seja válida para a pessoa. Portanto, a nossa primeira tarefa como profissionais será ouvir e acompanhar, conhecer a pessoa que temos na nossa frente.

Uma boa investigação/avaliação nos dirá tudo o que se desfez nessa esperança, quais são as resignações associadas a esse final prematuro que causa tanta dor.

Assim, boa parte da nossa ajuda ganhará valor quando conseguirmos que a pessoa nos considere um suporte útil, uma figura de referência, sendo prestadores eficazes de ajuda diante do seu sofrimento. Não é a doença terminal que exige a nossa presença como profissionais, mas o sofrimento derivado dessa situação. Emocionalmente podemos ser úteis, mas para a doença, muitas das tentativas que fizermos não terão resultados ou serão imprevisíveis.

 

Seguindo com a ansiedade que a notícia gerou, podemos trabalhar em diferentes níveis. No nível cognitivo, podemos ajudar a pessoa a se colocar em sua nova dimensão do espaço-tempo.

A alternativa de viver no presente que se vê em tantos livros e filmes não é real. Para sair de casa nos vestimos, para ir dormir escovamos os dentes, para viajar, arrumamos a mala. Ou seja, nesses casos, a pessoa vai continuar pensando no futuro, e é preciso que seja assim.

A maioria das intervenções neste contexto se concentra na sensação de ameaça originada de:

  • Integridade vital comprometida.
  • Incerteza sobre o que acontecerá após a morte.
  • Falta de recursos.
  • Humor negativo para enfrentar a doença.

No nível fisiológico, a ansiedade produz ativação. Lembremos que ela é a emoção que nos ajudou a escapar dos predadores quando vivíamos na selva. Portanto, seria muito positivo para a pessoa ser capaz de liberar essa superativação.

Para baixá-la, podemos optar por técnicas de relaxamento ou mesmo pela prática de esportes. A escolha por uma ou outra opção vai depender das condições físicas em que o paciente se encontra, mas também da sua história de vida ou da disposição e possibilidades do seu círculo de apoio.

Nesse sentido, concordamos com o primeiro ponto de intervenção levantado por Mariant Lacasta em seu artigo O papel do psicólogo nos cuidados paliativos: a identificação das necessidades. Faremos uma boa intervenção na medida em que formos capazes de atender às necessidades do paciente que está em nossas mãos.

 

Falamos muito em ouvir o outro, o que inclui a normalização das emoções do paciente, incluindo as contradições que podem surgir durante o processo: o enfrentamento da ansiedade, o medo de abandonar as pessoas ao seu redor ou o gerenciamento daquela pequena esperança que quase sempre permanece, não importa quão desanimadoras sejam as notícias.

Nesse caso, não faremos bem criando falsas expectativas, mas também não podemos reprimir um otimismo moderado em relação aos eventos futuros. Esta é, talvez, uma das partes mais delicadas da intervenção pela sensibilidade que exige. Nesse sentido, pensemos que nem sempre vamos trabalhar com uma pessoa que tem plena consciência do provável desfecho ou que falará como uma pessoa que não vai se curar.

Paciente e psicólogo em terapia

Os cuidados paliativos psicológicos e a intervenção no entorno

Frequentemente, uma das nossas funções será a realização de um exercício didático com o seu círculo de apoio; pessoas que também viverão o seu luto particular antecipado e cuja saúde mental também deve ser protegida. Há momentos em que o doente não quer falar e o seu ambiente precisa dessa comunicação e vice-versa.

 

Em qualquer caso, se detectarmos que alguém está em uma situação de risco, é melhor planejar uma intervenção diretamente com essa pessoa. Em muitos casos, é melhor levá-lo a outro profissional de saúde, sempre mantendo a comunicação.

Por outro lado, é melhor que a intervenção seja realizada em contato com outros agentes do sistema de saúde (Sánchez Sobrino e Sastre Moyano, 1996). Dessa forma, podemos encontrar uma maneira de preservar, tanto quanto possível, o sentimento de controle e autonomia.

Talvez a pessoa não possa mais sair para passear sozinha, mas pode escolher os horários das saídas ou as roupas que quer vestir. São pequenos detalhes, mas nestes casos, os detalhes são ainda mais importantes do que em outros devido às limitações que temos na nossa intervenção.

 

Sánchez Sobrino M y Sastre Moyano P (1996). Cuidados paliativos domiciliarios y hospitalarios. En González Barón M, Ordoñez A, Feliu J, Zamora P, Espinosa, E. Medicina Paliativa. Madrid: Médica Panamericana.