O que é o daimon?

28 Fevereiro, 2021
Em cada um de nós vive um "daimon", e segundo Carl Jung, ouvi-lo pode ser decisivo para as nossas vidas. Essa voz vem da nossa energia criativa pedindo-nos mudanças e até novos desafios, embora nem sempre ousemos ouvi-la.

Thomas Carlyle costumava dizer que uma pessoa sem propósito é como um navio sem leme. Nada é tão verdadeiro e poucas coisas se revertem tanto para a nossa felicidade quanto ter um objetivo. Desta forma, uma maneira ideal de encontrar um curso em meio ao balanço da vida é acordar nosso daimon, invocando-o do fundo do nosso ser para que favoreça o nosso desenvolvimento e nos impulsione.

Dizem que Sócrates estava possuído por um demônio que, a certa altura, sussurrou para ele qual seria sua vocação. O mesmo aconteceu com Goethe, que explicou em seu livro Poesia e Verdade que ele deveria agradecer à sua criatura demoníaca por suas proezas poéticas e científicas. Agora, aquele “daimon” era, na verdade, pouco malicioso e muito inspirador.

Este conceito tem suas raízes na tradição grega e define a maior fonte de inspiração e criatividade. Para colocá-lo ainda mais metaforicamente, é o refúgio das musas e aquela voz interior que não apenas sussurra ideias para nós, mas também nos ilumina. A figura que escolheu esse termo e o incluiu nas bases da sua psicoterapia foi Carl Jung.

Seu livro O Desenvolvimento da Personalidade indica algo importante para nós. Se quisermos descobrir a nossa vocação, somos obrigados a ouvir a voz do nosso Daimon, porque cada um de nós tem um demônio particular que nos aconselha, que nos oferece ideias e perspectivas sobre para onde devemos dirigir a nossa atenção…

 “Quando seu Daemon estiver no comando, não tente pensar conscientemente. Deixe-se levar, espere e obedeça”.
-Rudyard Kipling-

Mulher respirando profundamente

O que exatamente é o daimon?

Um daimon, na verdade, não é um demônio, embora na tradição grega eles o traduzam dessa forma. É uma entidade que podemos conceber quase como um gênio, como um ser divino que, para os egípcios, era o Ba. Na ética de Aristóteles, o daimon simbolizava virtude e sabedoria, a essência mais iluminada do ser humano, onde o potencial está oculto.

O problema com essa entidade é que ela está oculta. Todos nós a temos dentro de nós, todos viemos a este mundo com aquela presença nas profundezas da mente, que contém a voz da criatividade, da intuição e da capacidade de inovar. No entanto, a sociedade nem sempre é propícia para o daimon se sentir livre.

Às vezes, a educação, o estresse, a ansiedade e uma abordagem um tanto rígida e, acima de tudo, a rotina, aprisionam aquela entidade, aquele gênio tão necessário. O Dr. James Hillman, um dos mais importantes representantes da psicologia junguiana, aponta algo interessante em seu livro The Soul’s Code: In Search of Character and Calling.

Despertar o daimon requer conhecer a nós mesmos. Somente quando crescemos interiormente (como as raízes de uma árvore), podemos alcançar essa entidade para ouvir a sua voz. Fazer isso também é positivo para a nossa felicidade, daí o termo eudaimonia.

Conselhos para treinar o seu “daimon”

Carl Jung destaca que, às vezes, o daimon quer coisas que o nosso entorno não entende. Às vezes temos ideias tão revolucionárias e inovadoras que não combinam com o que nos rodeia. Esse gênio interior costuma ser muito rebelde, e pode sussurrar ideias contraditórias, estranhas e ousadas. Porém, nem sempre as atendemos ou simplesmente as colocamos de lado por parecerem infundadas ou impossíveis de realizar. Tudo isso gera desconforto.

Rollo May, psicólogo e psicoterapeuta existencialista, destacou que viver de acordo com o daimon não é fácil, mas se ousarmos fazer isso, a vida pode se tornar muito gratificante. Vamos, portanto, analisar quais chaves podem nos permitir dar voz a ele.

Conheça a si mesmo e você se descobrirá

daimon não quer pessoas inseguras ou mutáveis. Essa voz está ligada às nossas essências autênticas, e somente quando realmente nos conhecermos esse gênio singular aparecerá para nos sussurrar coisas que irão favorecer o nosso crescimento.

Assim, a pessoa que ainda avança pelo mundo sem ter trabalhado o seu autoconhecimento não entenderá o que seu “demônio” particular lhe diz. Será como se ele estivesse falando com você em outro idioma.

daimon quer que você seja disciplinado

O daimon exige que transformemos nossos monstros em musas. O que isso significa? A criatividade surge com a disciplina diária, para quem sabe o que quer, define objetivos no horizonte e trabalha todos os dias sendo escrupuloso.

Contato com a natureza

Escute a si mesmo: a necessidade de uma mente calma

Muitos supõem que as mentes mais tempestuosas são as mais criativas. Aí temos como exemplo figuras como Virginia Woolf, Vincent Van Gogh, Gustave Courbert… Agora, os atormentados da arte tiveram um fim trágico, e o daimon só nos traz a felicidade, o bem-estar de quem usa seu potencial criativo para uma vida plena.

Portanto, vamos ser claros sobre isso. A criatividade mais produtiva surge de uma mente calma e um coração harmonioso. Lembre-se do que o diretor, roteirista e artista David Lynch apontou tantas vezes: práticas como a meditação e o relaxamento são os melhores canais para a inovação. Emoções como raiva ou estresse são perturbadoras e assustadoras.

Existem muitos canais pelos quais o daimon fala conosco

Cada um de nós deve encontrar o melhor canal criativo, e isso requer exploração. Existem aqueles que precisam caminhar, outros encontram inspiração na música, compartilhando experiências com outras pessoas. Alguns preferem a solidão e muitos recorrem à arte para deixar as ideias fluírem… Vamos nos abrir a novas práticas para escutar a sua voz.

Agradeça pela sua presença

Nunca é demais agradecer pelas suas ideias, sua energia e sua vontade de nos tornar melhores e nos guiar na conquista da felicidade. Afinal, ele faz parte de nós, e amar aquele recanto do nosso ser é também nos reconhecermos como seres extraordinários, como pessoas capazes de desenhar os sonhos mais incríveis e de os realizar.

“A felicidade é viver em harmonia com o nosso daimon.”
-Aristóteles-

  • Hillman, James (1996)The Soul’s Code: In Search of Character and Calling. BALLANTINE BOOKS
  • Jung, Carl Gustav, and Jorge Navarro Pérez. 2009. La vida simbólica: escritos diversos. Madrid: Trotta.
  • Reynolds, F. C., & Piirto, J. (2005). Depth psychology and giftedness: Bringing soul to the field of talent development and giftedness. Roeper Review27(3), 164–171. https://doi.org/10.1080/02783190509554311