Dar à luz com dignidade: chega de violência obstétrica

Dar à luz com dignidade: chega de violência obstétrica

Março 28, 2017 em Psicologia 321 Compartilhados
Dar à luz com dignidade: chega de violência obstétrica

A violência obstétrica deixa marcas profundas a quem passa por isso. Parir, um ato não apenas físico mas também carregado de sentimentos, dúvidas e esperança, pode se transformar em uma exigência extremamente desagradável se a mulher sente que foi tratada como um simples recipiente com um conteúdo “a esvaziar”.

Frases como “não grite”, “não é para tanto” ou “acalme-se que você vai fazer com que alguma coisa dê errado” infantilizam a mulher, a relegam a um espaço de zombaria e impotência, anulam toda a sua expressão de óbvia dor e confusão em um momento crucial das suas vidas.

Para ser um bom profissional médico não vale apenas possuir os conhecimentos “técnicos”. Ser um bom profissional é saber tratar seus pacientes com o respeito que merecem e com um mínimo de empatia e compreensão.

Os cortes constantes em setores como a saúde fazem surgir fatos desagradáveis na relação médico-paciente, já que o primeiro pode se sentir exausto e colapsado e os pacientes podem sentir que não são compreendidos ou que simplesmente ninguém se interessa em atendê-los.

Dar à luz com dignidade e rodeado de uma equipe médica que acompanhe a paciente com uma atitude respeitosa não é um privilégio, não é uma concessão excepcional: parir com dignidade é um direito.

A origem da violência obstétrica

Dizem para nós que devemos parir, às vezes quase como uma imposição tácita da sociedade. Mas quando as mulheres enfrentam os dilemas que isso implica, não são tratadas como deveriam na maioria dos casos. Isto não acontece apenas no parto, mas em qualquer aspecto da saúde reprodutora das mulheres.

Não é estranho que algumas mulheres se sintam atraídas por outro tipo de atenção que não seja o circuito médico de praxe, já que às vezes se sentem desapropriadas de qualquer decisão importante no processo da sua gravidez e parto, mesmo correndo o risco de não receber uma atenção médica rigorosa e especializada em um hospital com todas as garantias sanitárias.

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Sem ir mais além, mulheres na casa dos trinta que desejam se submeter à ligação de trompas pela sua firme decisão de não querer ter filhos são submetidas a um constante questionamento sobre a sua decisão. Uma decisão íntima, sobre a sua vida sexual e reprodutiva.

Se algum dia chegarem a lamentar essa decisão, será um aspecto com o qual elas mesmas terão que lidar e superar. Como o resto das decisões na vida, já que viver é decidir. Impedir as decisões livres é dominar, não assessorar.

Muitas vezes a mulher continua recebendo um tratamento extremamente autoritário por parte do seu entorno, como se a sua capacidade de julgamento estivesse reduzida.

O parto, um ato com grande carga emocional e dor física

O parto é um momento esperado e almejado por toda mulher grávida. Depois de uma gestação e uma série de profundas mudanças físicas e psicológicas, a mulher deseja que tudo “dê certo”. A contradição está no fato de que “tudo dar certo” não se reduz apenas a que não surjam complicações médicas no parto.

A mulher deseja parir sentindo que está sendo cuidada, que suas contrações de imensa dor não são minimizadas nem ridicularizadas. A ideia arraigada de que as mulheres estão com os hormônios disparados e não respondem por si mesmas às vezes não é um fato real, mas responde a uma profecia autorrealizada: se os profissionais da saúde tratarem a mulher como uma histérica desde o princípio, talvez ela acabará se comportando como tal.

Violência obstétrica é negar informação, praticar cesáreas desnecessárias, injetar medicação quando não necessária, maltratar verbal e fisicamente as grávidas antes, durante e depois do parto.
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Se uma pessoa percebe que é tratada com desdém e condescendência, aumenta ainda mais a sua frustração e dor, por isso as queixas são o seu jeito de se defender em resposta a esse tratamento sem consideração e humilhante. Embora isso possa parecer um exagero, não é. Grande parte das mulheres que sofrem uma depressão pós-parto apontam como fator de estresse de primeira ordem o tratamento recebido pelos profissionais da saúde durante a sua gestação, parto ou pós-parto.

É muito comum que as mulheres se sintam sozinhas e sobrecarregadas pelo seu novo papel de mãe, que uma sensação de vazio e tristeza tome conta delas logo de ter dado à luz. Se recebem um tratamento desumanizado por parte dos profissionais da saúde, esta sensação é acentuada.
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Estiveram esperando durante muitos meses, mas ninguém lhes avisou que sofreriam um processo de readaptação duro e que sentir vontade de chorar constantemente é algo normal e natural. É aí que pode nascer um sentimento de culpa, e inclusive podem chegar a sentir uma profunda incompreensão por parte do seu entorno. Isto não acontece em todos os casos, mas com bastante frequência, e deve ser considerado.

A informação real que os profissionais da saúde tenham lhe passado sobre o seu pós-parto é uma fonte de fortalecimento diante dos desafios que o seu novo papel como mãe requer. Não informar adequadamente também é uma forma de indiferença, de negligência.

Estabelecer pontes entre a mulher e os profissionais médicos

Não estamos afirmando que receber um tratamento caloroso e empático possa evitar 100% dos sentimentos de tristeza ou de desespero eventuais da gestação, parto e pós-parto, mas os amortece e minimiza. Muitas são as iniciativas tanto de pessoal médico como de pacientes que sofreram violência obstétrica para que o tratamento desumanizado no parto não se repita.

Muitos são os profissionais da saúde conscientizados deste fato que fazem um trabalho fantástico de atenção e acompanhamento da mulher sozinha ou do casal, para que a informação não seja percebida como uma coisa exclusiva, mas sim como uma condição necessária em todo tratamento digno de um processo natural, mas às vezes contraditório.

Talvez possam surgir discrepâncias ou pontos de vista diferentes, mas com vontade e vocação os profissionais da saúde saberão propiciar a informação adequada para o paciente, que precisa se sentir parte ativa desse importante processo que mudará para sempre a sua vida. Denunciar a violência obstétrica não é demonizar todo o pessoal da saúde e colocar em julgamento seus protocolos, é justamente o contrário.

Denunciar um tratamento desumanizado, querer dar à luz com dignidade e desejar um bom tratamento por parte dos profissionais é querer que façam parte de um dos momentos mais importantes de uma forma positiva. Ser atendida, não apenas por profissionais que exercem o seu trabalho, mas por profissionais que o exercem com responsabilidade, leva ao bem-estar físico e psicológico das pacientes.

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